
Manifesto publicamente minha solidariedade ao Percy. Para os carentes de massa encefálica e adjacências, medo e coragem andam lado a lado, brigando o tempo todo – às vezes vence o medo, outras a coragem.
Admiro a paciência do irmão mais velho, Charles, de acompanhar e responder aos inescrupulosos ataques, quase todos escondidos em apelidos e imeios falsos.
A invisibilidade do fórum deixa uma turma muito à vontade para descascar quem quer que seja, sem o risco de réplica verdadeira. Covardes sem pudor fazem isso com o conforto de suas conexões em alta velocidade (o que explica a participação ativa de determinados ratos?), a falta do que fazer e recalque move o resto.
Na mesma tarde em que li, surpreso, sobre a desistência do Neco, tive que lidar mais uma vez com o medo. Voltando do centro da cidade, aqui no Rio de Janeiro, hora do ‘rush’, resolvi pegar um ‘frescão’ (como são conhecidos os ônibus com ar-refrigerado no RJ).
Subi na Avenida Rio Branco, junto de mais umas oito ou 10 pessoas. Habitualmente, deixo todos subirem, por mera cortesia, e subo em seguida. Dois rapazes com mochila na costas e aspecto suspeito subiram também. Sentei-me, olhei bem os malandros e decidi descer para não correr o risco de ganhar um ‘mão na cabeça’.
– PQP … Depois de esperar 15 minutos? Não vou descer porra nenhuma!
– Deixa de ser cagão e aguenta as pontas? Disse o ego para o id.
Passados cinco minutos, um dos danados caminhou tranquilamente até a frente do ônibus e anunciou o assalto de arma na mão.
– Quem vai testar pra ver se arma é de verdade? – ele desafiou. Eu não, podem apostar.

Naquele exato momento, em várias partes do país onde não existem ônibus com ar-refrigerado, meliantes ou pânico, participantes ativos do fórum preparam-se para escrever sobre como eles, todo-poderosos, defenderiam a honra com uma reação inesperada, um golpe de jiu-jitsu, uma mordida ou um chute no saco.
Por exemplo: Juarez, meu prato predileto, figura que segundo me contam amigos de minha querida cidade de Torres, onde eu passava boas temporadas em meados da década passada na casa dos Dornelles Paz, Fogo, Pedra e Stéfano, ou na casa do Dado, no topo do morro, vista pra Ilha dos Lobos.
Pois me dizem que esse Juarez, que ameaça cuspir na cara do Neco caso ele apareça em Torres, nem surfista é. Além de maroleiro, é um rastejante bódi-bódi (nota do editor: Júlio Adler neste exato momento está finalizando um vídeo sobre sua viagem ao Timor com Guilherme Tâmega, Marcelo Trekinho, Pedro Henrique e Heitor Pereira. Esse filme é pioneiro ao integrar os dois esportes sem preconceitos. Todos surfistas elogiam GT e vice-versa. “Hari Luar Biasa” é o título provisório – quer dizer, dia inusitado em indonésio – e tem imagens adicionais do fotógrafo Rick Werneck. Julio Adler mora numa cidade que mais bodyboarders tem no Brasil e orgulha-se por ter amigos de sobra nas pranchinhas, de Kung a GT. Seu sarcasmo se resume ao dito Juarez, merecidamente).
Lembrei da turma que no fórum diz que faz e acontece mas provavelmente já nasceu com o galho dentro.
Voltando ao busum?
Enquanto o punguista passava o rodo, apontando o revólver, uma pistola meio sem vergonha, na cara de todo mundo, minha vontade era de ser um completo irresponsável e cobrir o safado de porrada – levaria um tiro e ainda colocaria em risco a vida do resto dos passageiros.
A gente deve conhecer nossos limites, diz o Neco na carta.
Eu vi, ninguém me contou, em 96, durante a perna européia do WQS, etapa portuguesa numa praia que era pedra pura, todos competidores reclamando dos riscos de destruir as pranchas e se machucarem seriamente nos ‘calhaus’ (pedras, em português lusitano). Eu vi, quando o mar subiu de verdade, uns 6 pés sólidos, Tony Ray, Michael Lowe, Jake Paterson, tudo quanto é profissional bombeiro competindo, Neco desce a maior do dia, põe pra dentro, sai limpo, enche a a onda de porrada e faz o único 10 da competição.
Na maré vazia!
O Binho, parceiro do Cabeção na viagem, vibrava com seu braço enfaixado (Binho tinha dado uma cotovelada no vidro do carro que eles alugaram e destruiu o pára-brisas e o cotovelo de quebra), a praia veio abaixo.

Quem conhece a trajetória do caçula dos Padaratz sabe que o trauma deve ser muito maior que o próprio medo, pois seu desempenho no Hawaii desde moleque (Laniakea 95, Backdoor 96? Sunset 2003) não me deixam mentir.
Nossa memória é curtíssima.
Quando Victor Ribas tira nota baixa em Pipe todo mundo reclama, mas ninguem lembra que em 93/94 num Sunset gigante, quando ele precisava de resultados no WQS, ele entrou cheio de medo dentro d’água e passou a bateria em primeiro no meio de havaianos.
Ninguem fala das quartas-de-final em Pipe, com o banco todo fora do lugar, Vitinho atropelando Barton Lynch, Damien Hardman e Vetea David e estampado nas capas das principais revistas.
Os bandidos saíram caminhando tranquilamente pela praia de Botafogo depois de horrorizar covardemente trabalhadores que voltavam dos seus empregos, da mesma forma que os nocivos participantes do fórum atiram pedras e se escondem atrás de seus monitores.
Dois comentários obtusos me chamaram atenção: o primeiro, dizendo que Sunset, a onda predileita do Neco é uma onda cheia.
Naturalmente, o fanfarrão nunca tirou a cabeça de dentro do rabo para olhar o mundo e, muito provavelmente, jamais surfaria em Sunset nem com o Brock Little de babá.
O segundo, de uma pobre-coitada, diz que Neco deveria se converter? Querida, quem teme a Deus, ou ao demônio, não sai por aí escrevendo ofensas em grupos de discussão.
Reze 145 Pai-nosso e 450 Ave-Maria.