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Lopones e campeões mundiais

Sempre que vou ao litoral norte de São Paulo, entre as praias de Barra do Una e Guaecá, fico impressionado com o espetáculo visual proporcionado. Espetáculo circense.

 

Nos finais de semana, quando as praias ficam lotadas, o line up vira um picadeiro.

 

Rabeadas, trombadas, leashes enrolados, drops na junção, “reto sides” aos montes, resmungos, gritos e algumas brigas. Claro, os pitt-boys estão sempre lá, surfando mal, mas batendo bem.

 

Final de semana desses, de ondas pequenas, fui para Camburi. Não me lembrava mais como era disputar ondas com aquele crowd insano.

 

Cada surfista com sua arma: bodyboards, pranchinhas, funboards, longboards e os temidos “trecoboards”, aquelas coisas híbridas de sei lá o que com coisa nenhuma. É estranha a “vibe”, em muitos momentos o picadeiro vira arena. Palhaços viram gladiadores.

 

Fiquei por uma hora na água. Observando e pensando em dividir isso com vocês. Pensei também num outro dia de surf, na praia da Baleia.

 

Um dia de ondas pequenas também, porém lindas, longas e divertidas. Fui salvo pelo velho e bom amigo Mark Lund, que me atirou uma embarcação com 9 pés.

 

Dividi longos passeios, andadas na prancha, trocas de base e mais um monte de movimentos com mais dois longboarders no pico, um cara de chapéu preto e lycra azul sobre um encorpado 10 pés e uma menina descobrindo as possibilidades de um longboard azul.

 

Deixei bem clara a minha inabilidade sobre o pranchão. Mas o que isso importa? O grande lance, talvez esquecido na praia ao lado, não é a diversão em correr as ondas? Então, pra mim estava tudo certo.

 

De volta a Camburi. Não sei se é apenas má informação ou má educação mesmo. Mas aquela história de que cada um pega a sua onda, respeitando o próximo, passou bem pra lá do Montão do Trigo. Mal vinha uma onda e três, quatro, cinco caras estavam dentro. Cada qual com a certeza de estar no pico, de ser o dono da onda. Ha, ha, ha! Respeitável público!

 

E o mais engraçado é que todo mundo é local. Vocês já repararam nisso? É sério, o cara aluga um “muquifo” na praia e já se qualifica local do pico. São os Lopones – Locais de Porra Nenhuma. E esse é um personagem constante na água.

 

O que tem de Aspone na política tem de Lopone nas praias. Eles estão sempre lá, querendo expulsar os não-locais. E contam vantagem, que conhecem não sei quem, que vão dar porrada, que é pra você sair da água. Que preguiça?

 

Ainda assim gosto muito de Camburi. Durante a semana.

 

Voltando a Baleia. Entre um passeio e outro, lembrei da famosa frase do californiano Mickey Muñoz: “o melhor surfista do mundo é o que está mais feliz dentro da água” (ou algo muito próximo dependendo da tradução).

 

Se a afirmativa é verdadeira, eu estava surfando ao lado dos dois melhores surfistas do mundo. Slater e Irons na Baleia? Não, o cara de chapéu preto e a menina do pranchão azul. A cada remada de volta para o fundo, o brilho nos olhos e o sorriso estampado na cara validavam os títulos mundiais conferidos por Muñoz.

 

Abraços

 

PS – Recebi alguns e-mails pedindo uma coluna sobre a atuação brasileira no WCT 2005. Já aviso, não percam tempo com essas solicitações. Não tem coluna sobre isso. Falem com os outros colunistas. Eu posso ser burro, não louco.

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