Quem nunca ouviu falar daquela lendária onda que quebra somente em condições especiais, em um pico nem sempre secreto, mas que a grande maioria nunca viu e justamente por isso é considerada uma lenda?
No vasto litoral brasileiro, são inúmeras as histórias do gênero, que graças às grandes ondulações recebidas em 2006, tiveram a oportunidade de se confirmarem verdadeiras, ou não.
Em Santos (SP), muitos já ouviram falar, ou ao menos imaginam, que rolam altos tubos no canal 6, pico localizado na parte mais protegida da baía, quando atingida por grandes ressacas de Sul. Mas, poucos realmente acreditam.
Principalmente numa rara onda que vem lambendo o antigo farol próximo ao pico, enquanto o vento terral acaricia sua crista e corrige suas imperfeições, até quebrar rápida e tubular no inside.
Pra quem não conhece Santos, a cidade é cortada por canais. Construídos a partir de 1906 pelo engenheiro Saturnino de Brito, como parte do grande plano de saneamento que visava compensar a geografia quase 100% plana e desfavorável ao escoamento.
O canal 1 fica no meio da baía, próximo ao Quebra-mar, onde a arrebentação é longa e as ondas cheias. Quanto maior o número do canal, as ondas ficam menores e mais cavadas. O último a desembocar na praia é o canal 6, já próximo entrada do porto, onde raramente tem onda.
Mesmo tendo surfado lá algumas vezes e atestado a qualidade do pico, a tal onda que lambia o farol continuava pra mim sendo um mito. Mesmo após meu amigo Pardhal, que mora em frente, relatar sua aparição no mês de abril.
Não conseguia acreditar que ele, que raramente surfa em Santos, havia pegado a tal onda, e eu não. Devia ser algum exagero, fruto da emoção de ter surfado altas ondas em frente de casa pela primeira vez em quase 30 anos de surf.
Além dele, somente mais um ou dois diziam ter surfado tais condições. No entanto, lembro de memoráveis sessões entre os canais 4 e 5, Itararé e Garganta do Diabo, em que a força das ondulações bem poderia ter proporcionado a rara condição. Mas eu não estava lá pra conferir.
Inconformado, passei a perseguí-la com mais determinação: sites de previsão, câmeras ao vivo do E-surf e checagem pessoal sempre que tinha ressaca. Até que um dia, em novembro, fui inesperadamente recompensado!
Quase em frente ao canal 6 havia três ou quatro cabeças na água e nem parecia que tinha onda. Mas quando entrava a série, dava pra notar que tinha uma vala fechando rápido no raso, quebrando na maioria das vezes convidativamente sozinhas.
Entrei com a minha fish e logo percebi que havia onda de até 1 metro nas maiores, e abrindo mais do que parecia! Se dropasse bem de lado, dava pra desferir uma ou duas manobras com pressão ou até entubar. Era o canal 6 mais clássico que havia pegado!
No final de tarde, quando a maré vazou, a onda vinha cada vez mais atrás e em pé. Até surgir diante dos meus olhos a lendária onda que povoava o meu imaginário, lambendo o farol, espumando no fundo e rodando no raso, com direito a terral e ninguém ao lado pra disputar o pico.
Durante alguns minutos, as séries espumavam o lip após passarem alguns metros do farol, facilitando a minha entrada já no outside. Às vezes entravam bem de lado, passando para o banco de areia do outro lado do canal, dobrando o número de manobras. Era surreal!
Dois dias depois, a ondulação ganhou força novamente. Já com tempo mais fechado, fui conferir os tubos que quebraram ainda mais irados na boca do canal 6. Fiz a cabeça, mas não avistei as ondas do farol.
Felizmente, agora que já experimentei sua perfeição, pude comprovar que elas existem. Suas imagens ficarão para sempre gravadas na memória, mas como não há fotos para provar, pra grande maioria continuará sendo apenas mais uma lenda…