Hang Loose Pro Contest 1986

Lembranças para sempre

 

Não faz tanto tempo assim. Aliás, parece que foi ontem… E o dia 14 de setembro, lhe diz algo? Certamente para você com menos de 30 anos, absolutamente nada.

 

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O mês de setembro para os mais velhos, apaixonados por surfe, é sempre lembrado de uma forma carinhosa, principalmente para quem esteve presente naqueles dias ensolarados nas areias da praia da Joaquina.

 

14 de setembro de 1986, um domingo, foi o último dia de disputas do primeiro Hang Loose Pro Contest, evento que em minha opinião foi o divisor de águas na história do surfe nacional. Existia sim surfe no Brasil antes do Hang Loose Pro, mas foi a partir daquele evento épico, uma explosão de acontecimentos, que fortaleceram as bases para o surfe se tornar o que é hoje no país.

 

Na verdade, a base veio sendo formada com uma sequência de boas competições nacionais. Dos Festivais Olympikus de 82, 83 e 84, ao sucesso do Op Pro de 85 e 86. Eventos anuais, de verão, que reuniam os melhores surfistas nacionais.

 

Então, o catarinense Flávio Boabaid e os cariocas Arnaldo Spyer e Roberto Perdigão, o tripé da Master Promoções, organizaram uma etapa internacional em águas brasileiras, após os lendários Waimea 5000 no Rio de Janeiro. Alfio Lagnado, da Hang Loose, acreditou na ideia e o resto virou história…

 

Quem curtiu aqueles dias tem sempre alguma coisa pra contar. O primeiro Hang Loose Pro é sempre alvo de comentários, de opiniões. As pessoas guardam com uma boa dose de saudosismo e carinho lembranças de altas ondas, muita festa e diversão.

 

Não preciso dizer que a cidade parou. A então provinciana Florianópolis mudaria definitivamente sua identidade. A capital do Estado estava prestes a entrar no mapa, ao ganhar ares mais jovens. Nenhum campeonato teve a magia daqueles dias.

 

Carroll, Occy, Shaun, Rabbit, Cheyne, Page, Hedeman, nossos ídolos, aqueles que apenas víamos estampados nas revistas estavam surfando em nossas praias. Ganhar um aperto de mão uma troca de sorrisos, era se sentir um privilegiado.

 

Dias antes de o campeonato começar, uma forte ondulação entrou de Leste no litoral catarinense e fez dar onda em tudo quanto foi lugar e praias como Forte e Ponta das Canas despertaram. Ian Cairns, então dirigente maior da ASP, foi conferir as direitas lendárias.

 

Outra sessão épica ficou marcada com Tom Carroll caindo num mar pesado na praia do Santinho. Um local, conhecido como Tainha, foi o único a acompanhar Carroll no outside. Tainha, uma figura folclórica, a partir de então passou a ser reverenciado e idolatrado pelos amigos do Norte da Ilha.

 

Lembranças também de ondas perfeitas e com bom tamanho surfadas na Guarda do Embaú. Aí, Cauli Rodrigues, Felipe Dantas e Dadá Figueiredo e uma orda de talentosos surfistas brasileiros dividiam as longas esquerdas de 8 a 10 pés que quebravam no canto esquerdo da praia, com o então moleque David Egger e os desconhecidos Macaulay e Simon Law.

 

Ao longo do dia, a movimentação maior acontecia na região da Lagoa da Conceição. No centrinho da Lagoa, carros desfilavam pelas ruas estreitas com 10, 12 pranchas no rack. E o Doll, uma loja de produtos naturais, era o ponto de encontro para uma reforçada refeição e um bom bate papo.

 

A noitada começava no bar Degrau, na Vidal Ramos, bem no centro da cidade. E também no Arataca – uma espécie de pub, localizado embaixo da Ponte Hercílio Luz, onde rolavam os esquentas para depois, já mais empolgadinhos, moiçolos e donzelas sacudir na boate Chandon, sempre lotada, nos altos da rua Felipe Schmidt. E o peruano Maggo de Lar Rosa era o rei da noite naqueles dias de gringos na cidade. Ele varava as madrugadas dançando na pista até o amanhecer, sempre bem acompanhado.

 

Nesta semana, alertado por um amigo das antigas, encontrei no canal do YouTube, imagens do filme oficial do HLPC de 86. O material foi postado recentemente, mas apenas duas partes do filme original produzido pelo fotógrafo Alberto de Abreu Sodré ainda em VHS. Vale pelo registro e para recordar.

 

O então desconhecido australiano Dave Macaulay, numa disputa de melhor de três, foi o campeão com o furacão Occy em segundo. O carioca Sergio Noronha foi barrado nas quarta-de-final, o melhor brasileiro.

 

No domingo, faltou água e comida em todos os bares e restaurantes da Joaca. Um público estimado em cerca de 30 mil pessoas lotou a praia. Todos querendo conhecer esse tal de S U R F E…

 

É, o tempo passou e lá se vão 26 anos. Mas parece que foi ontem. Sou de uma época em que, após os eventos, ficávamos digerindo os acontecimentos, os resultados, as baterias mais quentes, as ondas, quem arrebentou no free surf na área ao lado do campeonato. As coisas tinham uma aura que parece ter se perdido na velocidade do tempo.

 

Como surfe repórter, estive por todos os cantos desse país cobrindo os melhores, os principais eventos de surfe, tanto nacionais como internacionais. Saquarema, Ubatuba, Barra da Tijuca, Torres, Salvador, Guarujá, enfim. Posso garantir, nenhum evento teve a magia daqueles dias de Hang Loose Pro Contest 86. Nenhum…

 

Foto de capa Arquivo História do Surf Catarinense 

 

Máurio Borges é surfe repórter, radialista, dono de blog e um apaixonado pelo esporte.

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