Lembranças fabulosas

Jornalista Ana Lira, colunista do site Rabisco, resgata momentos do passado depois de assistir Fábio Fabuloso. 

 

“Fábio Gouveia nem imagina a teia de recordações que o documentário sobre a sua vida me faz relembrar”, escreve Ana Lira.

 

“Eu passei pela catraca do ônibus na segunda-feira e vi Guilherme sentado (acho que com a namorada) na primeira fileira do lado esquerdo, bem pertinho do cobrador. Ele estudou comigo no primário e é daquelas pessoas a quem a gente chama de melhor amigo. Eu sentava na carteira atrás da dele e passava a aula a espiar os adesivos que ele costumava fabricar, cortando fotos das maiores estrelas do surf das revistas especializadas e montando com papel contato.

 

 Eu vivia aperreando o menino, querendo de todo jeito ganhar o que eu chamava de ?figurinhas? e ele achava aquilo uma verdadeira heresia. Doar o fruto do trabalho artesanal dele? Nunca! Se eu quisesse, teria que pagar alguns trocados pelos preciosos adesivos. O valor era algo em torno do que se gasta hoje com duas balas de café e a gente passava os intervalos naquela agonia: eu puxando a gola da camisa dele e dizendo ?vai Gui Gui, me dá uma figurinha? e ele respondendo ?oxe, eu não?.

 

Até que um dia, cansado das minhas investidas, ele me deu uma pequenina para colar no caderno. Era a glorificação! Se eu gostasse de futebol sairia berrando ?gooooooooooooooooooooool? e daria a volta olímpica pelos corredores das carteiras.

 

Em vez disso, dei um sorriso enorme e gritei ?Êba!?, me sentando enquanto a professora reclamava que eu fazia muito barulho e que iria chamar minha mãe até a escola. Bom, naquele dia, acho que ela podia chamar até o Presidente da República.

 

Hoje em dia, eu confesso que não lembro muito bem quem era o surfista que acompanhou a minha rotina escolar o ano inteiro, mas recordo que foi daquela época que eu peguei o costume de ler a Fluir e acompanhar as matérias de jornal que saiam sobre os surfistas brasileiros. Quando fui a São Paulo, em outubro do ano passado, comecei a procurar um filme da Mostra de Cinema para ver e fui parar no Espaço Unibanco. Perguntei que filme iria passar e a moça me disse: ?É Fábio Fabuloso ?. Não sabia do que se tratava, mas quando vi o nome Fabio Gouveia na sinopse, pedi o ingresso.

 

Quando o documentário acabou (era um documentário!), eu o vi conversando com umas pessoas na porta e fui embora. Chegando na Avenida Paulista me dei conta de que tinha feito uma besteira enorme. Eu estava com gravador e fita na bolsa, podia fazer uma entrevista. Voltei correndo e ele estava de saída, mas mesmo assim respondeu minhas seis perguntas. A minha intenção era fazer uma matéria para o Rabisco que, por motivos que não cabem nesse texto, acabou não saindo.

 

Ver Guilherme semana passada no ônibus acabou me lembrando que eu não poderia, de maneira alguma, deixar de falar de Fabio Gouveia e do documentário. Achei que uma boa maneira de voltar com a Aquarela seria tratando desse assunto, até porque o filme é muito legal. Gouveia contou na entrevista que dois dos diretores, Antonio Ricardo e Ricardo Bocão, costumavam registrar campeonatos de surfe e possuíam um acervo legal da carreira dele. Por outro lado, o terceiro diretor, e também roteirista, Pedro Cezar, produzia vídeos sobre o esporte. Então, eles juntaram essa equipe e resolveram montar o projeto.

 

Fábio Fabuloso é o primeiro filme biográfico sobre um surfista brasileiro e ganhou esse nome por causa de uma brincadeira que os locutores australianos faziam com Fabio Gouveia chamando ? o de ?Fabio Fabulous?. Então, durante a construção do projeto, o pessoal tomou a palavra fabuloso, que é derivada de fábula, e decidiu contar a história do surfista com aquele jeitinho ?Era uma vez…?. A questão é que não podia ser de uma maneira qualquer. Era preciso ter alguma relação com o contexto social vivido por Gouveia. Eles, então, escolheram a narrar através do causo , das histórias contadas pelos trovadores populares nordestinos, que deram origem ao cordel.

 

A opção não poderia ter sido melhor. O roteiro traçado por Pedro Cezar pegou todo o encanto das fábulas nordestinas e levou para a tela, transformando Fábio Fabuloso em um documentário engraçadíssimo. Além disso, a estrutura mitológica da narrativa possibilitou uma liberdade para o roteirista, que pôde inserir animações, efeitos especiais, entrevistas e outros tantos elementos – como alternar imagens antigas com cenas das ousadas performances de Fábio Gouveia nos campeonatos de surf – sem que a história soasse absurda para os expectadores.

 

Pelo contrário, a gente se sente no terraço de casa ouvindo nossos avós contarem causos sobre os grandes atletas de suas épocas. Pedro Cezar, Antonio Ricardo e Ricardo Bocão fizeram, mais ou menos, esse papel dos andarilhos que circulavam pelos interiores do Brasil levando de uma cidade para outra as lendas que ouviam por onde passavam. O legal de tudo isso é que o personagem principal da narrativa deles é real, influenciou muitos outros bons surfistas no mundo e continua mostrando pelos campeonatos afora uma linha de surfe de deixar o queixo no chão.

 

Em tempo: eu acho que Guilherme nem lembra que nós estudamos juntos e muito menos imagina que eu ainda me divirto recordando essas vivências de sala de aula. Acho que vou imprimir esse texto e entregar para ele em um envelope da próxima vez que eu o encontrar no ônibus. Quem sabe ele ainda tem um adesivo de Tom Curren que eu vivia pedindo e queira me dar?”

 

Texto originalmente publicado no site Rabisco.

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