Soul surf

Lembranças do Guarujá

Visual lisérgico da praia das Pitangueiras, com a famosa ilha ao fundo. Foto: Silvia Winik.

Depois de meses, talvez anos, sem pisar nas areias mais finas do mundo (e olha que eu já rodei por 50 países e pelo menos 500 praias diferentes), na praia das Pitangueiras, Guarujá, resolvi dar um rolê pelo berço aquático do surf paulistano.

 

O descaso e/ou ineficácia das autoridades em relação a saneamento básico não conseguiu ainda estragar a beleza, a delicadeza e o caráter puro dessas areias e horizontes.

 

A ilha continua lá, cumprindo fielmente a função de criar e recriar bancadas diversas para goofys e regulares, além de ser uma referência poética.

 

Taiu Bueno, local hero do Guarujá, em anúncio da OP na época em que era patrocinado da marca. Foto: Reprodução.

Nem é preciso dizer que cruzei com figuras emblemáticas, carismáticas e até asmáticas no calçadão, na praia, no supermercado, dentro da água e nos apartamentos maravilhosos de frente para o mar sagrado onde me enfiei com prancha e tudo, pela primeira vez, em 1968.

 

Antes de Cristo, diriam alguns. Com certeza, digo eu: o Homem, se bem me recordo nessa época, vinha andando sobre as águas lá das Galhetas. 

 

O grande Egas, um dos melhores surfistas da época, já trocava de pé bem antes do Kelly Slater, foi um dos papos loucos e inteligentes da tarde. O Brito, compadre e músico dos mais afinados, desbravador das praias escondidas no Nordeste e na Central, me forneceu aquele arroz-e-feijão com amizade na hora certa.

 

O Serapião, figuraça maravilhosa e talento inigualável com as esculturas de resina passou dizendo que tinha acabado de falar com o Taiu. Lembro ter visto o Taiu, ainda moleque, nos anos 70, surfando com uma segurança incrível as morras de ressacas cabulosas na frente do meu prédio nas Pitangueiras. Eu observei aquele moleque dando batidas com o corpo inteiro e voltando sem vacilar, e me impressionei. Resolvi patrociná-lo. A Op foi o seu primeiro patrocinador, e do seu irmão, o Totó: os ?Irmãos brothers?.

 

Na praia cruzei o Ramirinho, o primeiro funcionário que eu tive na vida, quando ele tinha 11 anos e eu 17 e era sócio do Zé Roberto Rangel na fábrica de pranchas que confeccionou 14 bólidos e nos deu grana suficiente para viajar para o Peru e América Central.

 

Como disse meu amigo Renato Elkis, o Guarujá é ?lisérgico?. Concordo, só de sentir o cheiro combinado da maresia e das árvores que decoram com valentia a frente da orla e as travessas, é como se o cérebro desse um 360º sobre ele mesmo e revirasse todas as sensações passadas por lá as acumulando em alguns segundos intensos. Ali.

 

O coração tem que matar tudo isso no próprio peito, digerir e passar para a boca. Aí, não tem jeito: a voz fica embargada e tudo o que quisermos contar para os amigos encontrados por acaso fica exagerado, muito, apressado, demais para tanto volume de sentimentos.

 

Lembrei da vibe de ficar pela primeira vez em pé numa onda, em novembro de 68, na frente do Ed. Sobre as Ondas, entre as Pitangueiras e as Astúrias. Ainda sinto a sensação de arrepio por toda a espinha, o vento no rosto, o céu fugindo e a água passando rápida, rápida demais para o meu gosto da época, por debaixo da minha prancha recém comprada, da marca ?Induma?.

 

Tinha encontrado o Nirvana por acaso. Naquele momento eu sabia que nunca mais ia largar aquilo. A primeira a gente nunca esquece.

 

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Neco Caborne esbanja estilo nas ondas do Guarujá, um dos berços do surf paulistano. Foto: Rafael Sobral.

As ondas continuam amigáveis, compreensivas até. Saudosas? Ali elas te dão uma pequena margem de erro, ao contrário de praias mais severas. Ver o Neco Carbone deslizar trocando de borda nas merrecas do Morro do Maluf é aprender um pouco mais de surf a cada onda.

 

Um dos mais belos estilos que eu já presenciei. E olha que tenho toneladas de água salgada injetada nos ouvidos e nos olhos vermelhos pelo sol no decorrer dos anos.

 

Andando desencanado dei de cara com o Museu do Surf, administrado pelo surfista Pirata, que perdeu uma perna anos atrás num desastre de moto e hoje administra também uma escolinha de surf, surfa ondas de responsa ao redor do mundo e estava voltando de uma nadada ida-e-volta até a ilha (ufa!).

 

Ao entrar quase caí para trás: um pranchão São Conrado Surfboards que foi meu há 37 anos atrás pairava ali, novinho, recauchutado com primor! O Pirata disse que sabia que tinha sido minha, e que o Boi, figura das antigas, grande surfista do passado e boleiro/zagueiro dos mais competentes do famoso time de praia Pitanga Futebol Clube, lhe havia trazido recentemente.

 

Eu costumava empresta-la para o irmão dele, o Preto, meu amigo da época, hoje falecido, estilista no longboard, dono da famosa Surf Center no centrinho, que depois vendeu para a OP.

 

Eu acordava umas 7 horas e o Preto já estava saindo da garagem do meu prédio com ela embaixo do braço. ?Aí, Sidão. Vou pegar umas ondas e já devolvo?. Ok. Nessa época eu estava transitando para as mini models e só surfava com aquele long quando o mar estava pequeno.

 

Com o tempo ele foi ficando com ela, o que era muito justo, porque além de surfar muito melhor que eu naquela prancha eu deixava ela meio encostada. Vocês sabem: pranchas são entidades femininas, são energias vivas que tem que ser utilizadas com atenção e carinho, nunca relegadas a um segundo plano.

 

O interessante foi ela surgir do nada tanto tempo depois, na verdade a única das minhas pranchas antigas ainda ?viva?. Eu costumava dar, jogar fora ou vender. Nunca guardei nenhuma delas. Aí me aparece essa dentro do Museu do Surf do Guarujá!

Graças ao Preto. O meu presente para ele tornou-se um presente dele para mim.

 

Fiquei na casa do meu velho broder Thyola e rimos muito todo o fim de semana. Só para arrematar ainda tive a satisfação de ensinar a minha namorada, a Andréa, a pegar a sua primeira onda. Eu lembrei do Guarujá. Ela não vai esquecer.
  

 

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