Conheci o Edison “Lêdo” Ronchi quando tinha entre 6 e 7 anos. Não sei como, mas naquela época meu pai, considerado um governador de estado “conservador”, deixou um surfista tatuado cuidar de seu filho mais velho.
Obviamente, depois de duas décadas fica mais fácil de entender, mas naquela época não. O surf era muito mais marginalizado do que é hoje.
Graças ao meu pai eu pude, com o Ledo, conhecer os amigos mais antigos que tenho. Conheci também praias como Joaquina, Brava e Ferrugem, além de pessoas como Ícaro e Cícero Ronchi, Gunga, Rocehele, Tio Sérgio, Tia Jaque, Nono e Nona.
Também fiz vários outros amigos. Mas não poderia deixar de mencionar a família Piccoli Teixeira, especialmente Gabriel, Fernando e o Gustavo. Eles me fizeram ficar amigo dos meus próprios vizinhos. Sem o Lêdo quem sabe eu nem teria tido esta oportunidade.
Foi principalmente ele também que supriu em diversos momentos a ausência dos meus pais. Mesmo antes de ser pai, Lêdo me fez aprender e gostar do esporte que mais amo praticar, o surf.
Impossível não se lembrar dos dias no Beco dos Surfistas, que junto com a sua cachorra “Bali” eram demais. A minha primeira roupa de borracha foi feita em Garopaba, na Mormaii.
Tiramos as medidas juntos na loja do Centro e uma semana depois fomos à cidade. A viagem foi muito legal, a dúvida entre o amarelo e o verde fosforescente foi cruel. O verde prevaleceu e a volta com a roupa de borracha pronta e o pastel de banana que comemos juntos não consigo esquecer.
O dia em que viajamos juntos a Porto Alegre para o casamento do Lêdo e da Gunga também está na minha memória. O prédio onde minha mãe trabalhava pegou fogo, saímos correndo pela escada.
Chegando ao térreo o Ledão esperava no carro, uma Santana Quantum preta, com o Paulinho Caserão para a viagem. Outro amigo que conheci por causa dele.
Não tem como contar os Nasi Goreng (comida indonésia), as moquecas, as feijoadas e os churrascos com o costelão “janelão” que ele fazia como ninguém. Ou aquelas sessions em que ele ficava na areia berrando para nós, são inesquecíveis.
Era demais também as “pilhas” que colocava quando éramos pequenos para cair nos mares grandes: “olha lá, altas ondas!”. Quando víamos que tinha um tamanho amedrontador ele emendava: “vai me dizer que vocês não vão cair?”. E lá íamos nós com um medo enorme.
O Lêdo, além de me dar muitos conselhos, também pediu muitos. Às vezes fazia o papel de pai, outras de irmão mais velho e algumas de irmão mais novo.
Fizemos algumas apostas. A última que me lembro foi quando ele duvidou que eu e o Ícaro pudéssemos nadar até a Ilha do Francês, partindo da Ponta das Canas, já que o Daniel tinha feito o percurso uma semana antes.
Na quinta-feira, um dia depois da quarta-feira de cinzas de 2009, fizemos e completamos a travessia em torno de 1 hora e 40 minutos. O Ledão vibrou mais que nós. Depois de um carnaval bem “agitado” não foi nada fácil.
Não consigo me lembrar do Ledo para baixo. É impressionante os momentos que passamos juntos, regados a cerveja, vinho (ultimamente ele só queria vinho), risadas, palavrões e esporros também. Como ele me deu esporro nestes últimos três meses.
Uma semana antes da tragédia fizemos uma pescaria “sem querer” e selamos nossa reconciliação, já que tinha ficado triste pelos esporros seguidos. Ouvi do meu pai, no dia do velório, uma coisa que vou guardar para o resto da minha vida.
“Graças a Deus ele entrou na lancha e fizemos aquela pescaria”, disse meu pai. Naquele dia o encontramos na Marina e ele não quis ir no primeiro momento, mas não se aguentou e entrou na lancha.
“Vocês fizeram as pazes. Teve a chance com o Lêdo que não tive com o meu pai”. O outro recado foi: “Mataram a pessoa que primeiro perdoaria o criminoso”, completou meu velho.
É bom frisar que Lêdo foi o único que pegou peixes dignos de serem trazidos de volta – dois badejos e dois robalos em uma hora de pescaria. Eu e meu pai até pegamos alguns, mas não tinham tamanho suficiente para serem colocados na lancha e foram devolvidos ao mar.
Aí vem a justificativa para a “autorização” de um guri de 6, 7 anos poder andar com um surfista, tatuado de fala alta. O coração do Lêdo era enorme e deixaria qualquer pai tranquilo.
A mesma empolgação para os negócios, em especial para vender, um talento dele, fazia com que cativasse qualquer pessoa. De um pescador a um governador. E isso foi visto no dia do seu velório.
Ricos, pobres, brancos, negros, jovens e velhos foram lá dar força para a família e se despedir de um amigo que tratava todos da mesma maneira.
Fui apresentado a uma filosofia de vida, aprendi a ver a vida de uma maneira diferente. De repente, se eu não tivesse conhecido o Lêdo, não teria tido esta oportunidade.
Impossível não repetir antes das pescarias, ou depois de uma onda boa, uma frase que vai ficar como marca registrada e na lembrança de quem teve a chance de conhecer a pessoa que deu a volta por cima sem nunca mudar o seu jeito de ser.
Sou obrigado a repetir: “obrigado, Senhor; obrigado, Senhor; obrigado Senhor!”.
João Amin é vereador da cidade de Florianópolis (SC) e é filho de Esperidião Amin, eleito senador da República, governador de Santa Catarina por duas vezes e prefeito de Florianópolis também por duas vezes. João também é free surfer nas horas vagas. Para conhecer mais sobre seu trabalho, acesse o site João Amin.
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