Swell cascudo em Itacoatiara

Kiko bota pra baixo

Evaristo Kiko Ferreira doma outra bomba em Itacoatiara, Niterói (RJ). Foto: André Cyriaco.

Nos últimos dias 21, 22 e 23 de junho, os mapas de metereologia apontavam um mega swell na região Sudeste com condições de vento bem favoráveis a alguns picos do Rio.

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O big rider Evaristo “Kiko” Ferreira, que se encontrava em Floripa com a família, decidiu voltar ao Rio em vez de apostar na onda da laje de Jagua, que, por sua dificuldade de acesso, mobilizaria uma logística cara, com jet-skis e fotógrafos com equipamentos a prova d’ água.

 

Evaristo está mais motivado do que nunca. Recentemente, o atleta fechou apoio com a marca Bully´s, que vai bancar as passagens aéreas para o atleta ir em busca da onda que pode lhe dar a vitória no prêmio Greenish pela segunda vez consecutiva.

 

Kiko passa sufoco no big swell. Foto: André Cyriaco.

Ao notar o swell de 10 pés com período de 13,6 segundos para terça-feira, às 10 horas da manhã, Kiko não hesitou e partiu ao Rio às 7:15 horas da manhã do dia 24. No dia seguinte, foi até a casa de um fotógrafo que faz parte do seu time na busca da melhor foto e maior onda, o baiano Luiz Porto.

 

“Telefonei para todos os meus contatos, o Iuri Carvalho, o Luiz, o Arthur Toledo, André Ciryaco, Jacks Nery, entre outros que fazem parte da minha equipe, pois queria muito documentar tudo”, diz um confiante Evaristo.

 

Já em Niterói, Evaristo acordou às 5:30 horas da manhã e saiu de casa após um breve café e uma oração de 15 minutos em direção a seu objetivo: surfar a maior onda da temporada de 2007.

 

Porém, algo deu errado. O mar estava grande, mas não em seu auge ainda. Logo pela manhã, o atleta sentiu o poder da natureza naquele dia, pois demorou uma meia-hora para conseguir entrar no mar. A correnteza no costão, por onde todos entram nos dias grandes, estava animal e expulsando para fora qualquer desavisado.

 

As ondas não deixavam o surfista entrar e dificultavam bastante o começo do show. Depois de uns 27 minutos, Evaristo varou a arrebentação e conseguiu chegar ao outside. As ondas estavam com 8 a 10 pés, mas o mar ainda estava em ascensão. Era fácil perceber que ainda iria ficar maior, e foi o que aconteceu.

 

Entre 9:30 e 10 horas, o mar estava com 12 pés na série. Às 11 horas já estava bem grande, com algumas séries chegando aos 15 pés havaianos.

 

Foi nesse momento que Evaristo dropou sua única onda nesse dia, uma bomba que foi surfada com uma prancha 8’11 shapeada por Mauro Roxo, em Florianópolis. As outras pranchas de Evaristo foram quebradas no outro swell.

 

Mauro shapeou duas naves para o atleta: uma 8’11 e uma 8’6. Na hora de escolher a prancha para cair nesse dia, Kiko ficou mesmo com a 8’11, pois tudo indicava que o mar ficaria muito grande em questão de horas apenas.

 

Entre uma série e outra, chegou a hora de Kiko dropar uma bomba para a esquerda, que, segundo locais do pico que assistiam, teria fácil seus 15 pés de face. Porém, um humilde Kiko afirma que sua onda tinha uns 12 pés havaianos.

 

Kiko dropou a onda com a mão na borda de sua 8’11, soltou a borda depois de dois segundos e começou sua virada na base de uma morra de botar medo em qualquer marmanjo. Depois da virada, Kiko foi engolido por um tubo gigantesco e sumiu por uns trinta segundos, preocupando todos que estavam assistindo à façanha.

 

Os salva-vidas, que também são seus amigos, começaram a se preocupar e quase entraram na água, mas após um longo período de angústia dos amigos, Kiko sobe do caldo que, segundo ele, foi o pior de sua vida, pois havia ido para o caldo com pouco ar em seus pulmões.

 

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Big rider carioca luta pelo bi do prêmio Greenish. Foto: Luiz Porto.

“Quando eu caí no meio daquele tubo gigante, fui levantado pela onda e arremessado com toda a força de volta à bancada rasíssima de areia, e no ponto mais perigoso da praia, onde há o maior encontro de correntes de Itacoá, que é o Pampo (canto direito desta praia)”, revela Kiko. 

 

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“Bati no chão com muita força, perdi o ar com a pancada e fiquei rodando sem saber onde estava a superfície. Num momento em que quase apaguei, orei para que Deus não me abandonasse naquele instante. Vi meus filhos e minha mulher, minha mãe e do nada um turbilhão de espuma muito forte me ergueu daquelas trevas, do quarto mais escuro que já vi em minha vida”, explica.

 

Marcilio Bequinho também mostra disposição em Itacoatiara. Foto: André Cyriaco.

“As correntezas que estavam ali embaixo eram muito violentas e a espuma dessa onda se transformou em uma espécie de redemoinho. Dei mil voltas sob a água, mas o que mais me impressionou foi que aquela zona de impacto formada pela explosão da onda não se desfazia nunca. Eu, que já sou acostumado a lidar com esse tipo de situação, entrei em desespero, pois meu corpo inteiro começou a formigar e eu sabia que tinha apenas mais uns oito ou nove segundos antes de desfalecer”, continua o big rider.

 

“Naquele momento em que senti a espuma violenta me jogando para o alto após o caldo da minha vida, pude ter a certeza de que era a mão de Deus me levantando da escuridão e da morte. Com certeza esse foi o pior caldo da minha vida. Tomei mais cinco ondas menores na cabeça e saí da água muito fraco, quase vomitando. Tive de descansar por uns 25 minutos antes de voltar. Meus amigos salva-vidas puderam ver minha expressão de incredulidade no que havia acontecido”, fala Evaristo.

 

Hoje, Kiko pode dizer que não foi no Hawaii seu pior caldo e sim no Brasil, especificamente em Itacoatiara, na zona do agrião que é o canto do Pampo, numa onda de 12 pés toda torta e cheia de quebra-molas.

 

Como grande guerreiro que é, Kiko voltou pra dentro d’água e conseguiu varar de novo a arrebentação, só que por quatro horas mais. Ficou boiando e não dropou nenhuma onda, talvez seu psicológico tenha ficado extremamente abalado.

 

Ao tentar sair, Kiko tomou uma onda enorme na cabeça, quebrou sua 8’11 em dois pedaços e teve suas quilhas destruídas pela pressão da série de ondas que quebrou em sua cabeça. Kiko demorou mais meia-hora para conseguir sair do mar nesse momento e foi outro sufoco.

 

A carta náutica de Itacoatiara mostra 47 tipos de correnteza simultaneamente naquela praia. Nos dias em que as ondas passam dos 10 pés, é fácil morrer ali, muito mais fácil do que pensava.

 

“Com certeza esse não foi o meu dia. Não era eu que estava ali, tive um sonho dias antes de que eu estava me afogando em Itacoá e uma amiga minha teve o mesmo pesadelo. Ela é da mesma igreja que freqüento, foi um aviso de Deus para mim”, diz um Kiko bem impressionado com o acontecido.

 

O big rider fala que não está abalado e que o susto já passou. Kiko continua buscando o prêmio Greenish até conseguir seu objetivo, que é o de pegar uma onda com 18 pés de face no Brasil.

 

No dia seguinte, as ondas estavam clássicas, com 6 a 8 pés e séries de 10 pés. “Vi uma ou duas séries de 10 pés ainda. Uma delas foi linda, mas não consegui chegar na onda a tempo de dropar. Nesse momento estava com minha 8’6 e com certeza teria dropado essa onda se o oceano tivesse me dado ela, mas creio piamente que, nesse swell, papai do céu não queria me dar as ondas, mas me salvou da morte, disso eu tenho certeza”, comenta.

 

Kiko saiu da água com muitas dores no corpo, cabeça e pulmão. Resolveu ir pra casa, relaxar e falar com a esposa e filha pelo telefone. “Qualquer onda pode nos matar. Depende apenas de como você está no dia e onde está surfando. Abraço a todos os internautas do Waves.Terra e que Deus abençoe a todos”, conclui o big rider. 

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