Legítimo explorador da era moderna do surf, Kepa Acero vem acumulando experiências intensas e marcantes nos cantos mais remotos do planeta. Abaixo você confere uma entrevista exclusiva com o desbravador espanhol e um vídeo de uma de suas aventuras na Patagônia.
Por Fernando Iesca
Nascido no País Basco, Kepa Acero, 33, é o caçula de três irmãos, todos surfistas e pioneiros na profissionalização do esporte em seu país. Durante anos, ele viajou o mundo disputando competições, até que decidiu deixar tudo para trás e tornou-se um verdadeiro explorador, que viaja o mundo apenas com suas pranchas, uma mochila, um laptop e uma câmera de vídeo. O que não falta são histórias para contar de suas expedições aos lugares mais remotos, bizarros e improváveis do mundo. Enquanto você está lendo esta entrevista, ele pode estar surfando em uma laje na Patagônia, em um reef em pleno alto-mar no Alaska ou quem sabe entubando sem mais ninguém ao redor em um point break ao longo de um deserto na Angola.
Em janeiro passado, Kepa encarou uma de suas aventuras mais difíceis ao embarcar numa expedição à Antártica, onde enfrentou águas congelantes e surfou na companhia de pinguins. Nesta entrevista, concedida à FLUIR por e-mail, Kepa fala sobre o planejamento para suas viagens, a motivação que o leva a sair sozinho pelo mundo, as dificuldades, as recompensas e os medos na busca pelo desconhecido: “Viajar sozinho é uma experiência humana fantástica”.
Quando e como começou sua relação com o surf?
Foi por causa dos meus irmãos mais velhos. No final dos anos 80, houve um boom do surf em Algorta, no País Basco, e todo mundo começou a surfar. Meus irmãos também começaram nessa época. Eles se deram bem e conseguiram patrocínios, mas mesmo assim tinham poucos equipamentos. Eu estava na praia todos os dias e tinha isso à disposição. Então digamos que comecei a surfar, quase que por inércia, aos 8 anos de idade. Aos 18 fui campeão europeu Pro Junior e desde então essa é minha profissão.
Por que largou as competições e decidiu que seria freesurfer?
Passei muitos anos viajando pelo mundo, mas sempre limitado às praias onde estava competindo. Tinha a sensação de ter viajado o mundo todo, mas de não conhecer nada sobre ele. Por isso, há alguns anos cortei minhas raízes com as competições e embarquei em meu primeiro projeto solo, chamado “5 Ondas 5 Continentes”. Dei a volta ao mundo em busca das melhores ondas, esse era o principal desafio do projeto.
Comprei uma câmera, peguei minha mochila, minhas pranchas e fui para o deserto da Namíbia, simples assim. Buscava explorar, mas ao mesmo tempo conhecer gente e cultura, encarando todos os riscos e aventuras. Não foi somente uma jornada em busca de ondas. Vivi uma experiência humana que levou minha relação com o esporte a outra dimensão.
É possível viver profissionalmente como freesurfer?
Nunca ganhei muito dinheiro com isso (risos). Trabalho com imagens para os meus patrocinadores (Reef, Arnette, Patagônia, Pukas e Nixon). Viajo de uma maneira muito econômica e gasto pouquíssimo dinheiro. Nunca ganharei muito dinheiro com isso, mas me considero privilegiado por fazer o que gosto. Que riqueza pode ser maior do que isso?
Este lado explorador surgiu naturalmente?
Eu queria algo diferente, mas não sabia exatamente o quê. Naquele ano eu estava sem patrocínio e também perdi minha namorada, então todas as circunstâncias se uniram para que eu escapasse, fizesse as malas e fosse conhecer o mundo sozinho.
Quem te inspirou e o que despertou o desejo de partir em busca do desconhecido?
Meus ídolos são surfistas que saíram para explorar, como Gerry Lopez e aqueles do filme “Endless Summer”. O surf sempre teve um espírito de aventura e exploração, especialmente nos anos 70, quando muitos surfistas norte-americanos e australianos se lançaram ao mundo para explorar novas costas. Creio que ultimamente o surf estava perdendo a magia e o romantismo que sempre teve. Com essas expedições, eu queria recuperar esse espírito.
Prefere viajar sempre sozinho ou com alguém para dividir as decisões, as roubadas e as vitórias?
Na maioria das vezes viajo sozinho, mas uma vez eu quis compartilhar com um amigo e fiz uma viagem inesquecível com o Aritz Aranburu. Obviamente, você desfruta mais compartilhando com um amigo. Dividir uma sessão épica de tubos é indescritível. No geral prefiro ir sozinho, mas no Alaska fiquei tanto tempo isolado que chegou um momento que comecei a bater na porta de desconhecidos para poder me comunicar. Não sou daqueles que querem estar sozinhos por muito tempo. Gosto de interagir.
Quais são os prós e os contras de viajar sozinho?
Não vejo contras. Às vezes é duro ficar sozinho muito tempo, mas sua mente se abre e você conhece muito mais gente. Começa a conhecer a alma do povo, das pessoas e também a si mesmo. No meu caso, para não ficar sozinho, preciso conhecer mais gente, mais cultura, estar mais aberto e relacionar-me. Digamos que é como nascer novamente. Você aprende a desfrutar os bons momentos e agradecer de verdade quando alguém te ajuda e te introduz a novos universos e culturas. Viajar sozinho é uma experiência humana fantástica.
O que te faz sentir medo em viagens como essas?
O momento mais difícil é na hora de comprar a passagem de avião. Você sabe que terá que ir sozinho ao Alaska ou à África, por exemplo, e precisa aprender a controlar os medos da sua cabeça. Quando estou muito tempo sozinho sinto um vazio por dentro. É realmente interessante ver como esse vazio é preenchido quando me comunico com gente das comunidades locais.
Você possui algum tipo de rastreador para o caso de uma emergência?
Não tenho nada que indique onde estou. Quando você vai a uma ilha distante no Alaska, tem que pensar muito bem sobre os riscos e perigos que corre. Uma vez que decidir ir, tem que assumir todos os riscos e as consequências se algum acidente acontecer. Sempre que se luta por um sonho, tem que assumir riscos.
Há pouco tempo você esteve na Antártica. Como foi essa experiência?
Formidável. Fui no veleiro Pakea Bizkaia, do meu amigo capitão Unai Basurko. Ficamos um mês lá. É um universo de gelo, parece que você está em outro planeta. Muitos animais, baleias, orcas, focas, pinguins. Tive a oportunidade de estar na água com milhares de pinguins. A temperatura da água era de -2 ºC. Lá, você realmente tem a sensação de estar na natureza intocada pelo homem. Apesar de não encontrar ondas, foi inesquecível. ##
Conte mais sobre os projetos 5 Seas e Distant Shores.
O 5 Seas é um projeto baseado na exploração de costas desconhecidas. O sistema é muito simples e consiste em encontrar ondas pelo Google Earth, comprar uma passagem e ir ao lugar. Meus destinos foram Indonésia, Índia, Angola, Mar Mediterrâneo e, finalmente, a Antártica. Já o Distant Shores foi um projeto da “Surfer Magazine”, inspirado em pessoas que estavam fazendo coisas diferentes em relação à exploração de lugares remotos. O resultado foi um vídeo fantástico, que captou a experiência de uma nova visão de jovens aventureiros do século XXI.
Qual é a estrutura mínima e os itens básicos de uma trip solitária?
Levo de tudo que caiba na minha mochila e na capa das pranchas. Levo quatro pranchas, porque em ondas fortes elas podem quebrar. Duas roupas de borracha, uma vara de pescar, uma pequena cozinha, barraca e um bom saco de dormir. Gosto de viajar com tudo justo, somente com aquilo que posso carregar com meus próprios pés. Sempre me informo sobre o que é necessário antes de viajar a um país. Quando cheguei ao Alaska, por exemplo, fui informado que eu precisava de uma arma, então logo comprei uma.
Foi o lugar mais remoto que você já esteve?
Creio que sim. Conheci alguns pescadores que tinham um barco de pesca de salmão. Eles me levaram para algumas ilhas, longe, mas muito longe da civilização, onde só havia natureza selvagem e animais. Tínhamos que andar armados por causa dos ursos. Foi uma experiência muito intensa.
O que é uma onda boa para você?
Um tubo largo e oco. Uma onda dentro da qual se possa estar. É o momento em que o tempo para. Existe algo mais desejado pelo ser humano do que poder paralisar o tempo? Para mim, é a coisa mais fascinante do surf. Entubar é minha motivação máxima. Não me canso disso. Nós, surfistas, viajamos milhares de quilômetros para passar alguns segundos dentro das ondas. A sensação é indescritível, difícil de explicar, mas a motivação é sempre a mesma, tirar um tubo que te leve a outra dimensão.
Como você faz para registrar as sessions quando viaja sozinho?
Antes eu deixava uma câmera gravando na praia, enquadrada na linha final da arrebentação, além de uma GoPro que levava comigo para dentro da água, fazia o que podia. Também sempre conversava com os pescadores e pedia para me filmarem (risos). Era muito engraçado, porque as gravações e as fotos ficavam muito ruins, mas ao mesmo tempo eram muito reais. Agora tenho um tripé com um laser, que segue todos meus movimentos e grava toda a onda. É uma maravilha!
Qual a melhor maneira de passar adiante as experiências que viveu?
Eu uso todos os meios que estão à disposição de um viajante. Gosto de contar todas as histórias pelo meu blog (Kepaacero.com). Ali eu conto minhas histórias íntimas, edito vídeos e mostro fotos. Também estou escrevendo um livro. Compartilhar minhas vivências tornou-se algo tão importante quanto minha experiência pessoal. É gratificante ver que o fato de compartilhar isso tudo influencia outras pessoas. A internet foi uma descoberta incrível. Você pode compartilhar tudo quase em tempo real. Teve um vídeo que editei dormindo em um carro. Editei, publiquei e adormeci no carro. Quando acordei, já tinha 50 mil visualizações em apenas duas horas. Foi impressionante. Também tenho encontrado muitas ondas pelo Google Earth. Existem muitas coisas boas da tecnologia, se forem utilizadas da maneira correta.
Usar o Google Earth se tornou indispensável para planejar os picos a serem explorados?
Sim! É uma ferramenta muito boa, mas também pode te levar a cometer muitos enganos. Às vezes você acha que há uma boa onda, empreende uma aventura, chega ao local depois de dias de muito esforço e é uma onda muito fraca. Eu quero morrer quando isso acontece (risos). Felizmente, ainda falta muito nele também, senão todas as ondas já estariam descobertas. Mas, sem dúvidas, é uma ferramenta muito útil.
Qual é o seu quiver ideal?
Depende do lugar, mas sempre carrego uma prancha pequena e versátil, uma Pukas shapeada pelo Peter Daniels, tamanho 5’6”, com 18’ ½ de largura e 2’ ¼ de espessura, medidas que funcionam em todas as pranchas. Depois uma 6’3” e uma 6’6” para os dias mais potentes.
Como você lida com a responsabilidade de manter em segredo os lugares que descobre ou visita?
Essa é uma questão muito delicada, mas tento ser responsável. É muito fácil cometer erros e às vezes cometemos. A melhor maneira é basicamente omitir a localização. Tento compartilhar experiências, e não lugares. Meus vídeos são sobre um homem que descobre um lugar e as sensações que ele sente lá. Não importa se sou o primeiro, segundo ou o último, sempre deixo o local como encontrei, para que o próximo o encontre da mesma maneira.
Qual é a última fronteira em que um surfista pode chegar?
Creio que ainda há muito que explorar por aí. A Ásia e a África são quase virgens. De qualquer maneira, minha intenção não é chegar à última fronteira do ser humano. O que eu quero é cruzar meus próprios limites do medo. Toda vez que você encara uma nova aventura e enfrenta seus próprios medos, está atravessando sua última fronteira.

