
Em todos os esportes encontramos questionamento em relação ao julgamento. Os perdedores em geral sempre reclamam e algumas vezes com razão, mas, na maioria dos casos, é reclamação de torcida.
No surfe as coisas melhoraram muito em relação aos anos 70 e 80 e, no geral, os julgamentos dos campeonatos profissionais têm sido justos. Já em campeonatos por equipes, no caso o mundial da ISA, vivemos altos e baixos.
Nos últimos anos tivemos uma grande evolução no critério de julgamento, e os juízes passaram a prestar mais atenção à qualidade das manobras, a forma como é executada, em que parte da onda. Antes, o que contava era basicamente as manobras, não levavam muito em consideração a radicalidade e o grau de dificuldade de execução.
Temos o exemplo clássico da bateria entre Martin Potter e Dave Macaulay, na final do Rio Pro, no meio da Barra. O australiano Macaulay levou a melhor pela distância percorrida e pelo número de manobras, enquanto o inglês Martin Potter encantava toda a praia com aéreos, floaters e batidas super radicais.
Hoje, com esta mudança, a ASP direciona o surf para o espetáculo e para o improviso, e os surfistas passam a ter que arriscar mais, nos poupando do surfe burocrático. Outra mudança significativa é o fato de se computar apenas duas ondas, o que valoriza as notas altas e diminui o fator sorte, além de minimizar os problemas de táticas de marcação e da importância de se obter a prioridade.

Neste ano alguns surfistas brasileiros têm reclamado do julgamento nas etapas do WCT. Alguns alegam má vontade com o surf do Victor, outros dizem que caras como Sunny Garcia são muito pontuados – e que este até intimida os juízes.
Os surfistas têm que variar mais as manobras para surpreender os juízes. O programa de computador já corta o juiz mais bonzinho e o mais malvado automaticamente.
Na verdade, sempre foi difícil ganhar dos gringos, dentro e fora da água. Nós temos que ser claramente melhores para convencer, sempre foi assim, mas não acredito em marcação. Se fosse assim não teríamos ganhado os dois WQS da França este mês, ainda mais que não tinha nenhum brasileiro no palanque nem no quadro julgador.
Sou contra alguns vícios do julgamento. Para ser um bom juiz é preciso esquecer as características individuais e o passado dos surfistas e julgar só o que acontece durante a bateria. Mais importante que entender de surfe, é ter capacidade de análise para diferenciar uma manobra da outra, concentração e, no caso da ASP, experiência e independência para suportar a pressão dos surfistas e das decisões de títulos.
Sou contra os head-judges trocarem notas e não trocarem os juízes. No Brasil, durante muito tempo foi preciso trocar notas por deficiências técnicas. Hoje, basicamente só acontecem erros comuns ligados ao acúmulo de ondas surfadas ao mesmo tempo e devido ao cansaço ao final de oito horas de trabalho.
Tem sido raro um campeonato de surf ter seu resultado questionado, apesar dos erros que acontecem – e são inerentes ao julgamento de qualquer modalidade, principalmente o surf, um esporte bastante subjetivo.