Soul Surf

Jornada ao vento

Adrien Caradec vive pelo esporte em Florianópolis. Foto: Divulgação / OpenWinds.

Em 1997, quando o velejador Adrien Caradec saiu de São Paulo para viver na Lagoa da Conceição, Florianópolis, já contabilizava seis títulos de campeão nacional de windsurf. 

 

Muito antes disso, na década de 1980, patrocinei o Adrien ainda meio moleque, quando a OP Ocean Pacific, logo em seguida dos apoios dados ao surf, por instinto ou raça, enveredou pelos esportes radicais antes de o próprio termo existir.

 

Assim bem observou meu amigo Luis Roberto Formiga, outro amigo e patrocinado de longa data, considerado o atleta de esportes radicais mais eclético do mundo (terra, água e ar). Na verdade, o Formiga cavalga os três elementos e, com propriedade, brinca seriamente com o quarto.

 

Para trazer na bagagem este histórico que contribuiria para sua bem-sucedida escola de vela na Ilha, a OpenWinds, Adrien abriu mão de uma carreira empresarial que poucos deixariam para trás sem hesitação, mesmo com o apoio incondicional da família que, até hoje, acompanha os sucessos do atleta e primeiro empresário de kitesurf a conquistar a certificação do Programa Aventura Segura do Ministério do Turismo e ABETA no Brasil.

 

Esse impulso de “viver melhor”, ter a capacidade e a coragem de mudar do seu habitat “natural” (sim, as aspas não só soam como são irônicas, se pensarmos São Paulo como algo próximo do natural) para um lugar de ondas e ventos, idílico, como alguns amigos fizeram no decorrer das últimas décadas, numa diáspora do bem, sempre me causou um misto de inveja e motivação.

 

Ultimamente tenho a pretensão de ter conseguido apurar a minha capacidade de perceber as pessoas pelo semblante. Caráter não se remenda e não se constrói, é algo que nasce com a pessoa, parte da estrutura do seu espírito, e pode variar alguns graus para a esquerda ou para a direita, conforme os ventos da vida sopram, mas mantém uma integridade ou fragmentação palpável.

 

A origem é sempre clara. Quando vi o Adrien pela primeira vez, já saquei que o cara era do bem, íntegro. Confirmei reiteradamente a minha primeira impressão durante nossos encontros posteriores. Quando lhe perguntei, no casamento do mesmo Formiga com a nossa querida Carol, há alguns anos, se ele se arrependia de ter se mudado para a ilha, a resposta foi rápida e direta, embora suave: “devia ter vindo antes”.

 

Já residente em Florianópolis e à frente da OpenWinds, Adrien ainda conquistou novos títulos em Windsurf e Kitesurf mas, para ele, viver do esporte era e é bem mais do que disputar e vencer campeonatos: a idéia era compartilhar o prazer do vento e da água com amigos e com quem quisesse aprender o ofício da vela. 

 

E foi na Ilha que ele cumpriu estas metas ao velejar com os amigos Wilhelm Schurmann, o campeão mundial Kauli Seadi,  e muitos outros. Presenciei uma velejada do Morro das Pedras até praia Mole, de sei lá quantas horas, que o Adrien, acompanhado do Dudú e do Formiga, fizeram. Para quem não conhece, posso garantir que é longe pra dedéu. Lá fora o vento estava pauleira, e lá dentro e no fundo uma vozinha ficava soprando: “porque não aprendeu a velejar?”. 

 

Eu e um amigo os acompanhamos por terra, numa pick-up que pulava que nem cabrito esquizofrênico pelas ruas de terra e dunas e vielas do Campeche, Joaca, entre outras, num percurso um pouco menos prazeroso e mais acidentado que o do time de aventureiros. Registramos cenas da aventura e das paisagens em vídeo, inclusive algumas impublicáveis, das nossas próprias caras ainda mais deformadas pelo vento Sul, tentando fazer a “cabeça” da matéria, tentando falar com a boca cheia de vento.

 

Na minha imaginação, foi como se eu tivesse pego uma carona nesse mesmo vento, embora os amortecedores e o torcicolo não me deixassem esquecer que eu estava em terra.

 

Como instrutor, Adrien também teve o prazer de ver saírem da OpenWinds velejadores de várias partes do mundo que, com ele, aprenderam a entender melhor a linguagem do vento e das ondas, que carregam nossas vidas e prescindem das palavras.

 

Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos, fundou a OP Ocean Pacific no Brasil, viajou por 50 países e quer mais. Autor dos livros Almaquatica (Fnac) e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura).

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