Da F-1 para os ondas

Da F-1 para os ondas

Depois de aprofundar as questões que envolvem os limites entre o surf de remada e o tow-in na edição passada, voltamos ao tema para mostrar que existe uma revolução ainda silenciosa em curso, que pode mudar totalmente a relação do surfista com a onda: a prancha motorizada.

Por Bruno Lemos 

Quem acha que o surf motorizado se resume ao jet ski está redondamente enganado, as possibilidades não param por aí. Uma novidade no mínimo interessante foi testada e colocada à prova pelo big rider Everaldo “Pato” Teixeira na melhor pista de testes do mundo quando o assunto é surf, o Hawaii. Imagine uma prancha com design futurista, presa aos pés do surfista por alças, como as pranchas de tow-in, mas que possui um cabo que fica nas mãos do piloto e muda totalmente a lógica do que conhecemos por “acelerar na onda”.

O Jet Surf é um híbrido de prancha e máquina, desenvolvido por um engenheiro da F1 que abusou de toda tecnologia futurista aplicada à velocidade em prol do surf. Construído com fibra de carbono, o equipamento pode chegar a uma velocidade de 60 km/h e tem autonomia para uma hora e meia de diversão.

Logo em seu primeiro contato com o equipamento, deu para sacar que Pato teria um grande desafio pela frente. De cara percebemos que a prancha era desenhada para andar em águas calmas, como lagos e represas. “Este é o meu principal papel dentro dessa empresa. Tentar evoluir o design dessas pranchas para que em um futuro próximo possamos surfar ondas grandes de verdade sem o auxílio do jet ski”, explicou Everaldo Pato, referindo-se àquelas ondas que excedem o limite humano da remada.

Antes mesmo de entrar na água, o primeiro obstáculo surgiu. Foi necessário convencer o oficial do Department of Land and Natural Resources a deixá-lo entrar na água. O DLNR é o órgão que supervisiona e regulamenta todas as atividades relacionadas ao oceano no Hawaii e, de acordo com as leis havaianas, qualquer equipamento com motor deve ser registrado e ter autorização da prefeitura para rodar na água.

Mas, depois de alguns minutos de conversa e graças às semelhanças do povo havaiano com o brasileiro, não demorou muito para que Pato estivesse na água testando a máquina pela primeira vez no oceano Pacífico.

No primeiro dia as ondas não passavam de 1 metro, o que foi um fator positivo para a prova inicial. Era difícil imaginar a possibilidade de surfar bem as ondas com um shape daquelas dimensões, mas não demorou para nosso piloto de teste comprovar exatamente o contrário. Bastaram poucas tentativas e logo ele já estava mandando cavadas, cutbacks e até um floater.

Se o desafio era domar as ondas numa prancha com quase 1,80 metro, 15 quilos e uma borda com mais de 12 centímetros, Pato provou estar em total sintonia com o equipamento. “A prancha anda muito. Se conseguirmos ajustar alguns detalhes no design, em breve teremos um excelente brinquedo, propício para o surf”, disse o big rider, bastante empolgado com a experiência.

O inventor da máquina, Martin Sula, também se empolgou com a sessão e garante que sua empresa quer colocar no mercado o melhor produto possível para surfar ondas grandes. “O que vimos por aqui foi muito satisfatório. Inicialmente essas pranchas foram desenhadas para andar em águas paradas, mas Pato nos provou que é possível expandir a diversão também para as ondas”, confirmou Sula, que é nativo da República Tcheca e veio ao Hawaii para acompanhar de perto o test drive.

Com a entrada de um novo swell prevista, Pato teria chances de testar o equipamento em ondas maiores. Os gráficos apontavam que o vento estaria forte e as ondas beirando os 8 pés. Na manhã seguinte alguns dos outside reefs de Oahu já estavam quebrando. Apesar do vento forte, Everaldo resolveu encarar as ondas de Avalanche. Antes mesmo de gastar os 3 litros de gasolina que ativam o motor de 100 cilindradas, ele consegui surfar mais ondas que eu e você conseguiríamos juntos em um dia inteiro de surf. Sem exagero!

Com as ondas crescendo cada vez mais, Pato resolveu ir até o outside de Hammer Heads e desafiar uma onda bem mais cavada que a anterior. A direção da ondulação combinada com o ângulo do vento deixava as condições difíceis. Mesmo assim ele se arriscou em algumas ondas da série e o resultado foi dos melhores. “Achei que pelas condições do mar acabaria destruindo a prancha, mas consegui dropar e passar pelas seções mais cavadas”, falou Pato depois da session.

Depois de mais alguns dias de testes ficou claro para todos que existe um grande potencial nessa nova tecnologia. Obviamente muitas críticas virão em relação ao uso desse equipamento para surfar, mas, como tudo, ao final sempre haverá aqueles que ficarão contentes em ter um brinquedinho desses no quiver.

No vídeo abaixo você confere um pouco do que rolou durante o test do Jet Surf  feito por Everaldo Pato no Hawaii.

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