
O dia estava nublado. Logo cedo a gelada brisa vinda do sul, ainda suave, anunciava a chegada de mais uma frente fria. As folhas das árvores balançavam, o tempo estava seco.
A textura do mar era lisa e grandes ondulações vinham de longe, umas atrás das outras, e quando chegavam próximo da praia cresciam ainda mais e explodiam com muita violência.
Minha camisa estava molhada de tanto suor depois da longa caminhada, a mochila nas costas pesava. Minha respiração ainda estava um pouco ofegante, e na minha cabeça vinham muitas emoções confusas.

Um pouco de angústia pelo que passara nos últimos meses e um certo conforto oferecido pela maresia e o barulho das ondas. Estava perdido como nunca, meus sentimentos eram confusos e quase não conseguia mais distinguí-los.
E mais uma série de ondas surgia no horizonte, desta vez fez espumar os bancos de areia situados a quilômetros da costa, o que indicava a maior série de ondas desde que eu havia chegado ali.
Após cerca de três minutos elas chegavam na praia, cinco ondas perfeitas. Pareciam pinturas, lisas, arremessando suas cristas longe, tinham cerca de 7 pés. Todas foram muito tubulares e com fortes baforadas.

A ondulação e a corrente vinham do sul, deixando a água muito clara. Os golfinhos sempre presentes naquela região, por ser um ponto de acasalamento, com correntes fortes e regiões profundas, pulavam, brincavam em seu eterno ritual. E também se divertiam nas ondas.
Os pescadores no outro lado da praia, local mais protegido, desistiam da pesca neste dia e subiam nas pedras do morro para assistir ao espetáculo das ondas, que cresciam sem parar.
Tudo isso fazia despertar algo inexplicável dentro de mim, me motivava muito, mas o sentimento não era o mesmo de alguns meses atrás. Talvez eu tivesse amadurecido, algo realmente havia me marcado. Fui logo me trocando para entrar no mar e aproveitar aquelas condições.

Minha prancha estava velha e já não permitia minha melhor performance, mas numa condição daquelas qualquer pedaço de madeira que boiasse iria se tornar uma prancha.
Pulei um pouco mais para o meio da praia, as ondas começavam a quebrar atrás do costão direito, passando por trás das pedras e terminando na praia. Aquelas condições não eram para qualquer um, pois as ondas quebravam a cerca de 2 metros das pedras, eram rápidas e as ultimas da série balançavam muito devido aos back washes gerados pelas primeiras.
O único caminho da onda era por dentro, e sem cometer erros, pois tudo indicava que ela certamente jogaria você na pedra. Bons triângulos também quebravam mais para o

meio da praia. Naquela altura eu já remava fissurado, tomado pelo impulso de aproveitar logo aquelas condições.
Cheguei e já veio logo uma lateral juntando com uma da série. Desci o mais atrasado possível, por trás do triângulo, vendo aquele visual da onda crescendo, cavei com muita vontade e apenas olhei a cortina caindo do meu lado, aquele barulho, quando senti o spray me cegando, abri os olhos e já estava na boca do tubo, quase saindo, e mandei mais uma cavada e um backflip.
Foram algumas horas lá dentro aproveitando aquelas condições, junto aos golfinhos que eu admirava no intervalo entre as séries, e mais um dia alucinante de surf. Saí da água morto de fome e muito cansado…

O final de tarde estava frio, o vento agora soprava de oeste, vindo do continente. Era seco e gelado e parecia cortar minha pele. O visual do mar era surpreendente, as ondas já tinham cerca de 10 pés e ainda eram perfeitas…
A noite já havia caído e os únicos sons presentes eram do mar e do vento balançando as árvores e passando pelo meu rosto. Eu tinha uma longa caminhada pela frente e precisaria de algo para iluminar o caminho cheio de pedras e com descidas íngremes.
Para minha sorte, a lua já havia mostrado a cara, grande e totalmente cheia. Sentei na areia, peguei alguns pães e iogurtes que guardava na mochila e comecei a comer, enquanto admirava a lua nascendo. Sabia que logo ela estaria alta e iluminaria a trilha de volta.