Uma invasão silenciosa está tomando conta dos ecossistemas das costas brasileiras.

 

Trata-se de um pequeno mexilhão oriundo do Caribe, o bivalve Isognomon bicolor, que está se espalhando numa ampla faixa de costões rochosos do litoral brasileiro, desde o Rio Grande do Norte até Santa Catarina, gerando impactos ambientais ainda imprevisíveis.

 

Pelo menos essa é a conclusão do estudo conduzido pelo surfista carioca André Breves Ramos, 29 anos, 15 de surfe, duas viagens ao Hawai e presença certa nos grandes dias do Pontão do Leblon.

 

André Breves, que se considera um pupilo do fashion big rider Marcelo Biju, desenvolveu seu

trabalho no Laboratório de Benthos do Instituto de Biologia da UFRJ e monitorou a presença desse mexilhão invasor em diversos pontos do litoral brasileiro nos últimos anos.

 

André, com mestrado em Zoologia pelo Museu Nacional e professor na Fundação Oswaldo Cruz, avalia que este molusco invasor provavelmente tenha sido introduzido acidentalmente no país, por plataformas de petróleo, cascos de embarcações ou através da água de lastro dos navios.

 

Milhares de organismos podem ser transportados involuntariamente de um local para o outro dessas maneiras.

 

Estima-se hoje que, anualmente, cerca de 10 bilhões de toneladas de água de lastro são transportadas entre as regiões do globo, aumentando a possibilidade desse transporte involuntário.

 

Com isso, a diversidade marinha do planeta está sendo rapidamente homogeneizada, aumentando a distribuição de espécies fora de sua extensão natural. No novo ambiente, as espécies invasoras geralmente estão livres de inimigos naturais que poderiam normalmente controlar a sua abundância.

 

O resultado é uma densidade populacional extremamente alta destas espécies no novo ambiente, tornando-se uma ameaça ao equilíbrio do ecossistema local.

 

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Segundo André, a chegada do Isognomon bicolor ao Brasil provavelmente ocorreu entre as décadas de 70 e 80 e sua expansão populacional deve ter ocorrido durante a década de 90. O primeiro registro desta espécie no país foi no litoral de Santa Catarina em 89.

 

Em 94 foi realizado um novo registro de I. bicolor para o litoral do Brasil, a partir de populações localizadas no litoral de São Sebastião (SP).

 

A presença de I. bicolor no município de Arraial do Cabo (RJ) foi inicialmente detectada no ano de 96, contudo, trabalhos anteriores

realizados em 90-91 não registraram a ocorrência desta espécie.

 

Nesta região, de 96 a 2004, houve um aumento de mais de 30% na abundância de I. bicolor, sendo considerada uma espécie bem estabelecida.

 

Em 2003 foram realizados estudos em diferentes costões do Estado do Rio de Janeiro e foi observada uma alta concentração de indivíduos, tendo sido detectada uma média de 800 indivíduos por 100 cm2.

 

Em diversas áreas estudadas, na faixa do costão antes amplamente ocupada por espécies nativas (ex.: cracas e outros mariscos), o I. bicolor vem dominando.

 

Os estudo sugerem uma possível interferência de I. bicolor sobre algumas espécies nativas, inclusive os mexilhões (Perna perna), que possuem importância comercial.

 

Ainda não foi constatado nenhum benefício sócio-econômico de I. bicolor no Brasil, mas é provável que este organismo venha a ser explorado como fonte alimentar nas regiões onde outros bivalves comestíveis estejam escasseando, contudo mais estudos da biologia desta espécie são necessários.

 

Caso você queira observar se o Isogomon bicolor está instalado no  pico onde você costuma surfar, André dá a dica para o reconhecimento da espécie: “Ele se caracteriza por apresentar uma concha bem irregular,  de cor branca-acinzentada. Internamente a concha possui uma região dita nacarada, de cor perolada, semelhante às ostras que produzem pérolas”.

 

O tamanho dos indivíduos varia de 0,5 a 40mm de comprimento máximo – quando adulto é menor que os grandes mexilhões. O Isognomon bicolor geralmente ocorre nos costões menos batidos e pode ser facilmente observado nas marés baixas, em altas densidades, mas ocorrendo junto com outras espécies.

 

Para obter mais informações sobre o trabalho de Nadré Breves envie mensagem para [email protected] .

 

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