Leitura de Onda

Interferência ou farsa?

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Para Tulio Brandão, nem Gabriel Medina nem sua prancha encostaram em Glenn Hall, que se jogou da prancha ao perceber a possibilidade de gerar o dano ao brasileiro. Foto: Luciana Pinciara / Motion Photos

O status de campeão mundial jogou Gabriel Medina de uma maneira cruel no centro do palco, sob a luz dos holofotes. Cada movimento seu é rigorosamente estudado, comparado. Cada deslize, ostensivamente criticado. Suas derrotas são, por vezes, pateticamente comemoradas como vitórias, por surfistas menos capazes. É o preço de ser grande, de ser um fora de série. Absolutamente natural, outros passaram por isso. 
 
Na fase 3 da etapa de abertura da World Surf League, depois de uma estreia perfeita, quando fez a maior média da fase e mostrou ao mundo que está na ponta dos cascos para a temporada, Gabriel pegou o irlandês-australiano Glenn Hall num mar absolutamente incapaz de servir de arena para uma disputa séria de mundial. 
 
Perdeu precocemente, numa bateria polêmica, com direito a uma interferência questionável no adversário. Depois, soltou o verbo em entrevista oficial à WSL. Virou a notícia mais lida do evento, até Filipe Toledo ajudar a encerrar a polêmica com uma apresentação magnífica no último dia de competição. 
 
Decidi, a pedidos, descontruir o episódio em pílulas para entender melhor as coisas. 
 
Gabriel Medina estava no auge da forma. Forte, rápido, mais preciso e contundente, ele está surfando mais que no início de 2014. Para desespero de seus críticos, o campeão mundial ainda está em franca evolução técnica e física. O novo dia será sempre melhor que o que passou. Por enquanto, não há limite à vista.
 
Glenn Hall pode até ser um cara legal, mas seu surfe não. Com zero pressão e zero uso de borda, ele passeia com agilidade pela superfície da onda usando basicamente o fundo da prancha. É muito pouco para disputar a elite do esporte. Nesta temporada, ele entrou na vaga de contusão. Surfa pela bandeira da Irlanda, o que lhe dá uma representatividade dentro da WSL, que tem interesse em ver europeus no circuito. 
 
Na bateria, Hall indiscutivelmente surfou as ondas de melhor qualidade. Isso não quer dizer, definitivamente, que ele tenha vencido. Há um enorme abismo entre os dois atletas, que não poderia ter passado despercebido nas notas, mesmo antes da disputa que culminou com a eliminação. Sua nota na casa de 6 foi muito forçada.
 
A interferência, gerada pela pressão em cima de Gabriel, foi ostensivamente “cavada” por Hall. Nem Gabriel nem sua prancha encostaram no irlandês, que se jogou da prancha ao perceber a possibilidade de gerar o dano ao brasileiro. Jeremy Searle, do Inertia, foi contra a onda de críticas ao brasileiro e chamou o episódio de “Dropingate” lembrando o futebol, com suas faltas simuladas. A WSL comprou a versão de Hall.
 
Ainda que tivesse razão, na disputa da onda, Gabriel, conhecido por sua extrema inteligência competitiva, desta vez não foi feliz. Estava perigosamente perto de seu adversário, e a WSL pode ter considerado o risco de choque. Fora da água, talvez o único ingênuo pecado do brasileiro tenha sido repetir a palavra “fuck”, ao vivo.
 
Nada que muitos outros surfistas não tenham dito 547 vezes. 
 
Na areia, Gabriel ainda questionou o novo regulamento – feito, aliás, para neutralizar uma tática utilizada muitas vezes por bons competidores como Gabriel ano passado. A nova regra anula a prioridade se o surfista quiser entrar no onda do adversário fora do pico. A lei, antes de tudo, se tornou mais subjetiva, facilitando interpretações duvidosas. 
 
Hall estava posicionado no pico? Em caso positivo, qual é a distância mínima para se aplicar a regra? Não há nada escrito.
 
A decisão de puni-lo levanta ainda outra polêmica. Se não houve toque, como o próprio Hall admitiria mais tarde, deve haver uma distância mínima entre os surfistas para evitar que se caracterize uma interferência. No caso em questão, ainda há um agravante desfavorável aos juízes. Além de não encostar no adversário, Gabriel se aproximou pela esquerda de Hall. O irlandês surfaria a onda para a direita.
 
Bom para o Brasil – e para Gabriel – que a polêmica durou um dia. Ele se retratou, convidou o irlandês para comer um churrasco no Rio e encerrou o caso.
 
Muita gente quer eliminar precocemente o campeão, e essa pressão é natural contra líderes. Gabriel terá um ano difícil, mas pode tranquilamente superar as resistências previstas. Transborda técnica e talento, além de conhecer bem o caminho para entrar em modo de concentração máxima. Já fez isso muitas vezes – a última foi em Pipeline, em 2014. E o melhor é que, quando provocado, costuma ser duas vezes melhor que sua versão original, para desespero de seus críticos. 
 
Alguém duvida de que ele seja capaz de domar a difícil onda de Bell’s Beach? Não ouse.

 

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