África do Sul - 1985 - República Tcheca – 2002

Impressões de um surfista III

África do Sul, um lado esquecido do mundo que possui altas ondas. Foto: © ASP / Cestari.

África do Sul – 1985

Eu tinha que conhecer um dos principais palcos de Endless Summer I, o filme icônico produzido em 1966 por Bruce Brown, mas que chegou ao Brasil por volta de 1968.

A interminável onda de Cape Saint Francis não saía da minha cabeça desde que vi o filme pela primeira vez quando tinha 13 anos. Saíamos alucinados do Cine Praiano, no Guarujá, naqueles verões super-mega flat e caíamos na água na praia das Pitangueiras achando que estávamos a milhão em Waimea, Hawaii, fechando o canal. O que é a pilha aparentemente infindável da molecada aliada à imaginação adolescente!

A música do grupo “The Sandals” ao fundo reverberava na minha mente desde então, non-stop. Ainda hoje a melodia me persegue dentro da água (“Mobile”, do The Who, compete dentro dos mesmos neurônios e sinapses sonoras).

Programei com a minha primeira mulher, e partimos sem muitas nove horas. Sabia que a friaca ia rolar. Johannesburgo. Do avião, podíamos ver, lá embaixo, as ruas que formavam os quarteirões. Pareciam malhas de uma imensa rede que, ao invés de capturar peixes no mar, prende pessoas, casas, árvores, vidas ao chão.

As águas dos dois lados do Cabo da Boa Esperança – que eu viria a dobrar pelo viés etário somente décadas depois – são muito confortáveis para pinguins. Para ossos acostumados aos trópicos, menos. Ponto gélido. Na vila de Jeffrey’s Bay dei de cara com o Shaun Tomson que eu conhecia do Hawaii. O fato de ele ter adotado uma atitude levemente xavequenta em relação à minha companheira não tornou o encontro tão prazeroso como era de se esperar, mas, enfim,neoprenes hormonais do ofício!

O mar não estava tão bom, então fomos para Durban, com água bem mais quente e umas boas ondas, apesar da existência da tal “rede de proteção contra tubarões”, algo de que eu nunca tinha ouvido falar e que soava meio ineficaz contra um Great White que realmente estivesse afim da nossa pele brazuca.

Entre idas e vindas de Johannesburgo, um fabuloso breakfast, narizes de crianças negras escorrendo, o apuro dos ouvidos para entender o sotaque e uma suave e indefinível sensação de insegurança no ar, demos uma chegada em Soweto, bairro símbolo da resistência anti-racista. Lá, em 1976, 500 adolescentes negros foram massacrados pelo governo do apartheid por não concordarem com a lei que os obrigava ao aprendizado da língua dos colonos holandeses, o afrikaner. 

Com a libertação do líder Nélson Mandela, em 1990, abriu-se o caminho para a emancipação da maioria negra e a instituição da democracia plena na África do Sul, com eleições e direitos iguais a todos os cidadãos. Em Soweto eu vi a real de pelo menos 80% da África do Sul, abaixo do enganoso verniz já enraizado das colonizações holandesa e inglesa. É notório: a África é o primo pobre, paupérrimo, do mundo, é “o continente esquecido” de fato. Uma ignomínia dentro da própria raça humana, ainda notória e aparentemente sem solução.

República Tcheca – 2002

Minha filha mais velha foi estudar fora, e quando acabou o curso, seguindo o meu impulso de conhecer o que for possível desse quintal redondo enquanto ainda estou por aqui, eu lhe perguntei se ela gostaria de aventura. Sempre pilhada (olhar o parágrafo acima sobre energia adolescente) em oportunidades de conhecer o mundo, topou na hora.

Pegamos um avião em Londres e desembarcamos em Praga, República Tcheca, em função da ótima indicação de um amigo dela. A ideia era pegar um carro e sair pelo país afora para ver no que ia dar, e, de quebra, incrementar o conhecimento pai-filha.

É claro que, como escritor, a presença do espírito de Franz Kafka pelas belas ruas e construções da incrível cidade me atazanava ao mesmo tempo em que estimulava a mente. Ficava imaginando onde o cara tinha sentado para escrever, onde tinha se inspirado, o que tinha sofrido, se tinha amado, se andava apressado ou mancava, se era reconhecido pelas vielas ou se costumava se entrincheirar no fundo de um boteco tomando absinto para virar uma barata gigante no dia seguinte.

A onda era outra. Atravessamos a Ponte Charles. Uma ponte que é, por si só, inteira e em cada detalhe, uma obra de arte ao ar livre. Pintores e performers do mundo coloriam ainda mais o ambiente com suas alegrias, gestos e trapos, e faziam daquelas pedras uma coisa viva e pulsante.

A música nos perseguia a cada curva. Poucas vezes estive tão a Leste do globo, a circunstância étnica é tão interessante quanto forte. Percebi uma alegria contida, mas alegria. Uma transição entre o ocidente pleno – Europa -, e o Oriente próximo.

Pegamos o carro e flutuamos pela paisagem definitivamente Rembrandtiana (ou seria Monetiana?) do interior do país. Seriam aqueles campos, árvores e horizontes naturalmente divinos ou foram esculpidos por patriotas de extremo bom gosto?

A língua não era um obstáculo, mas mais um motivo de interação e necessidade de focar no outro, nos mínimos gestos e olhares, naqueles quase impenetráveis semblantes eslavos, para tentar entender. Paramos no Castelo de Lednice a caminho da Hungria, mas eu vacilei: o visto tinha vencido dois dias (!) antes e não nos deixaram entrar no país. Os húngaros perderam uns dólares – que eu levei para a Áustria -, e nós perdemos o quê, exatamente? Vou saber na próxima viagem para lá e depois conto.

Sidão Tenucci é escritor e diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou o livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e o livro de aventuras zen “O Surfista Peregrino” (Livraria Cultura). Lançará em setembro o seu terceiro trabalho, “Poentes de Amor”, ilustrado por 55 artistas plásticos. Viajou por 52 países conhecidos e algumas periferias remotas.

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Doutor Guilherme Vieira Lima, explica como a estabilidade do core define a potência das manobras e protege o corpo de lesões crônicas.