Omar Docena

Imaginação em bloco

Natal de 1996. Ganhei de presente do meu pai minha primeira prancha de surfe. Era uma velha Hidrojets amarela com mais furos do que uma peneira, mas que foi o suficiente para aprender a ficar de pé e não parar mais.

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O tempo passou e fui aprendendo algumas coisas. No entanto, depois de quebrar e perder o bico de uma prancha comprada do aussie Richie Lovett anos atrás (aquele mesmo que lutou recentemente contra um sério câncer no quadril), percebi que algo novo tinha acabado de acontecer.

A descoberta Aquela 6’1” legalzinha, mas já meio pisoteada e sem bico, sem querer, tinha ficado boa pra caramba. O que teria acontecido?

Fiquei me indagando a respeito disso, e acabei chegando à conclusão de que o formato das pranchas que sempre usei nunca mudara, à exceção de tamanhos e rabetas.

Muito provavelmente, isso era reflexo do fato de ter começado a surfar numa época em que a “Thruster” já era consolidada como a última tecnologia em pranchas de alta performance. Outra grande influência foi o convívio com meu primeiro shaper “interino”, o carioca Braz Barros, um dos poucos artesãos remanescentes de uma época em que as pranchas eram feitas totalmente à mão, e que tem como especialidade justamente pranchas de linha com essa característica.

Primeiro contato com outros shapes
Passado um tempo, fiz minha primeira surf trip internacional para o Peru, país vizinho e de fácil acesso. E foi exatamente lá que tive minha primeira experiência com outras formas de prancha.

Em Señoritas, tinha um cara quebrando muito com uma fish biquilha. O sujeito fazia a linha da onda tão rápido que parecia estar literalmente voando.

Isso me influenciou tanto que, logo que voltei ao Brasil, pedi ao Braz que fizesse minha primeira prancha diferente. A prancha remava muito, era veloz e solta, mas rendeu bem menos nas fechadeiras de Ipanema do que nas longas linhas peruanas. Era exatamente o que eu precisava para me motivar ainda mais!

Hawaii das muitas pranchas A minha real revolução das pranchas se deu quando fui morar na Meca e berço do surfe: o Hawaii. Lá, vi de tudo um pouco.

Havia uns “coroinhas” que faziam a mala da garotada em Sunset com gunzeiras monoquilhas. Tinha também uns doidos surfando Waimea e Pipeline com pranchas de madeira, além dos caras da Lost filmando o “Redux” com pranchas do tamanho de bodyboards. Eram tubos surfados com pranchas sem quilha, pranchas de remada, que também serviam para longas travessias nos dias flat de verão. Enfim, valia de tudo.

O importante era estar na água, curtir mesmo sem prancha e embarcar ao máximo naquela experiência.  A cultura surf no Hawaii é tão grande que absorvi bastante informação sobre diferentes tipos de prancha.

Quiver dos sonhos Com bastante trabalho consegui ter acesso a um quiver bem sortido, e entender que cada condição tem seu equipamento mais indicado. A oportunidade de ter pranchas fora do convencional faz toda a diferença em determinadas situações, além de ser a melhor resposta para o surfista inconformado com a mesmice do dia-dia. É o alimento pro surfe e pra alma também.

Experimentar pranchas “doidas” foi responsável por uma evolução tremenda. Testar bordas, fundos, rabetas e materiais diferentes como o isopor e a resina de epoxy me tornaram muito mais consciente do meu surfe. Saber que a área de uma prancha pode ser redimensionada traz todo o entendimento para ter uma prancha que renda muito mais.

Não tem preço perceber que, após alguns anos, aquela prancha sem bico não ficou “melhor” por simples crença! Sem uma área significativa todo o seu funcionamento foi refeito assim como seu peso, remada e pisada.

O papel das quilhas Não esquecemos também das quilhas, que são os lemes da prancha! Há um ano venho utilizando Future Fins e achei nesse sistema, consagrado lá fora, principalmente no surfe em ondas grandes e gigantes, a maneira mais fácil, rápida e sólida de testar diferentes “sets”.

Com jogos de todos os tipos para as mais diversas modalidades de pranchas se consegue testar uma gama enorme de combinações em um mesmo equipamento. É essencial para entender porque “quads” são mais rápidas, quilhas centrais mais presas e assim por diante.

Quanto mais surfamos ondas diferentes mais evoluímos, mas, na falta de tempo e dinheiro, uma simples mudança de equipamento pode se tornar o fator determinante para a evolução e satisfação, pelo menos foi o que aconteceu comigo.

Estar aberto às novidades e também às antiguidades sem medo de ousar foi o maior diferencial em todos esses anos de surfe. Aproveitar a presença de shapes gringos e de referência mundial, como Tokoro e cia., aqui em terras tupiniquins; observar que não necessariamente o que vem de fora é melhor ou pior, mas apenas diferente, e instigar meu shaper predileto a fugir da squash triquilha 6’0” de sempre e revolucionar, é o maior aprendizado possível!

O vídeo de link acima mostra uma rápida session no Grumari com a réplica de uma “Simmons” biquilha shapeada por Careca, da Shine Surfboards.

Bom surf e boas vibrações a todos!
 
Agradecimentos à Ipanema Pilates Studio (0xx21 3285-0532).

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