Sempre que faz frio acordo com dor no pescoço e isso me lembra o Tahiti, pois este problema teve origem por lá.
Na verdade, de madrugada aquela dor já começou a me incomodar e então junto com ela me vieram algumas recordações.
Nos últimos 10 anos troquei minhas temporadas havaianas por temporadas em Teahupoo, onde já me sinto membro da família Tearamano.
Além de Teahupoo, a redondeza oferece uma boa variedade de ondas, mas é preciso ter um barco e explorar a ilha.
Teahupoo é sem dúvida a onda mais perigosa do Tour, pois diferentemente de Pipe e do imenso tubo a quantidade de água sobre os corais afiados é ínfima.
Como presenciei várias vezes os tops por lá, vi o enorme respeito que todos têm para com aquela onda. Estava lá quando aconteceu com o Neco aquele sufoco e me recordo bem da expressão dele após o incidente. Estava escrito em sua cara que a morte chegou bem perto.
Porém, hoje pela manhã dei risada com algumas lembranças de fatos que aconteceram por lá e de ver como o mundo dá voltas e às vezes mais rápido que imaginamos.
Certa vez, ao chegar do Brasil durante a noite na casa dos Tearamano, um dos surfistas que se encontravam na casa veio me avisar que o outro fotógrafo que estava lá havia determinado que eu não poderia ir com eles no dia seguinte no mesmo barco, pois alegava que nossas revistas eram concorrentes e estaríamos no mesmo ângulo e blá blá blá.
Chateado, vi todos partirem bem cedo, e então me vendo triste por ter ficado sem um apoio dos amigos brasileiros, o patriarca da família me ofereceu seu pequeno barco com motorzinho de 15 hp para que eu fosse sozinho.
Perfeito! Marinheiro experiente e habilitado, parti para o pico 30 minutos depois da galera e fiz meu trabalho numa boa.
O mundo deu uma volta muito rápido e no dia seguinte qual não foi minha surpresa quando veio a notícia de que o barco que a galera usava havia quebrado, estava com problemas no motor. Rapidamente os surfistas que não são bobos me promoveram de marinheiro a Capitão e se escalaram pra embarcar no meu pequeno bote.
O resultado foi surpreendente já que seis surfistas e mais umas dez pranchas conseguiram se acomodar naquele pequeno espaço.
Bem, eu e meu coração mole não resistimos ao ver aquele fotógrafo que havia me boicotado no dia anterior parado ali sentado em cima da sua mala cheia de equipamentos e acabei pensando que eu não era igual a ele e portanto eu o convidaria para vir ao MEU barco e fotografar no MESMO ângulo que eu.
Partimos, bem devagar, pois com uma marola aquele barco iria para o fundo. As ondas estavam com um bom tamanho, o que sempre deixa os surfistas apreensivos, mas mesmo assim foram todos para a água.
Séries após séries e o fotógrafo reclamava da atitude dos brasileiros e as críticas aumentavam a cada onda mal aproveitada ou amarelada. Em dado momento parei de fotografar e comecei a filmar, o que fiz até o fim da tarde totalizando umas dez horas de trabalho no canal.
Todas as noites eram de praxe que os atletas botassem aquela pressão para assistir aos vídeos, mas aquela noite o clima ficou tenso pois para cada onda que eu havia filmado havia um comentário maldoso gravado pelo microfone sobre o desempenho de cada um deles. O meu coração foi mole, mas Deus foi implacável.
Em outra ocasião estava eu no canal de Teahupoo, já com meu consagrado barquinho, quando outro barco se posicionou bem na minha frente, então gentilmente eu sorri para a namorada do fotógrafo americano da Surfing e pedi a ela, uma francesinha bem bonitinha, para que chegasse mais para o lado. Era só dar um toque no barqueiro enquanto seu namorado estava fazendo várias seqüências e nem olhava pra trás.
Ela me olhou, deu uma risadinha de deboche e me ignorou. Beleza, liguei meu motor e me desloquei mais para o lado.
De volta ao Brasil, um mês depois recebo a Surfer magazine com uma página dupla e uma legenda bem curiosa que dizia o seguinte: ?Você deixaria sua namorada num barco que vai se arrebentar nos corais para pular na água e salvar seu equipamento? Pois é, o fotógrafo da nossa concorrente fez isso!?. As fotos são impressionantes, uma onda enorme e aquele barquinho vindo com duas pessoas dentro.
Teahupoo tem uma coisa, de repente vem uma onda maior que todas e por isso todos têm que estar bem espertos. Infelizmente o barqueiro não teve tempo de fugir, nem a francesinha. Graças a Deus aquilo só resultou num estado de choque e um fim de namoro.
Quanto a mim, fiquei achando que tinha alguns poderes que eu não controlava…
Em outra temporada, apareceu um francesinho, narigudo e metido, que circulava sempre por ali e, ao contrário dos taitianos, não gostava dos brasileiros.
Naquele dia, depois de se estranhar conosco vários dias seguidos, ele chega ao pico com ninguém menos que o terror dos brasileiros na época ? o havaiano Johnny Boy Gomes.
Neste exato momento aparece o Daniks Fischer nadando e dizendo que sua prancha tinha ido para o reef e pedindo o jet ski que estava à nossa disposição ao lado do barco para pegá-la.
O que aconteceu em seguida foi hilário, pois Daniks nunca tinha pilotado um jet e, ao acelerar, arrancou a mil fazendo uma curva e levantando uma cortina de água, dando um banho no J Boy Gomes, que estava urrando para uma série que levantava, daquelas que sugam a água toda de baixo do pico.
O pior foi que o Daniks não viu e nós tivemos que nos abaixar no barco porque alguns estavam quase chorando de tanto rir. Então, já recompostos e apenas a uns 3 metros do barco deles, começamos a ouvir os berros do francês e do Johnny irados e ficamos imaginando, já vendo o Daniks voltando, o que poderia acontecer.
Ainda rindo muito e com o barco deles se aproximando explicamos rapidamente ao Daniks o que havia acontecido e ele rapidamente começou a se explicar.
Graças a Deus, nada de mais aconteceu porque éramos uns dez e eles apenas dois, então rapidamente Johnny falou: ?I accept your apologises? (Eu aceitei suas desculpas). Ele é grande, mas não é burro e pelo menos sabe contar.
E foi assim, com meu pescoço doendo, que acordei hoje lembrando daquela vaca horrível de quando torci meu pescoço. Mas ao mesmo tempo lembrei de outras histórias que me fizeram esquecê-la e dar boas risadas na cama ao lado da minha mulher.
Faz o bem e deixa o resto com Deus.



