Quem não ouviu falar naquelas histórias de surfistas na beira da praia, de que no Hawaii, você pode acordar com o mar flat pela manhã e, de repente, à tarde, estar surfando Waimea? Ou estar em Sunset com sua prancha pequena, curtindo com os amigos, ser pego por uma onda de 12 pés, e tomar aquele caldo?
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Pois é, isso não é história. Acontece e tudo mundo sabe. Porém, o que aconteceu no ultimo dia 13 de março, vai ficar para sempre na memória de quem presenciou, como um dia histórico. Eu mesmo nunca imaginei que poderia ver aquilo ainda nesta temporada.
As previsões eram de um bom swell, com ventos calmos. E o pico do swell seria à noite. Eu apostava todas minhas fichas em Pipe. Achei que seria o melhor Pipe da temporada devido à grande infuência de Oeste.
Acordei na terça-feira e fui dar uma olhada no mar. Estava completamente flat. Um pouco mais tarde, voltei a Rocky Point e pude perceber uma pequena mudança no mar, o que me fissurou para testar uma prancha nova, 4 quilhas Stretch, ideal para aquelas condições.
Cai no mar por volta das 10:30 e as ondas não passavam do meio metro, porem perfeitas como um desenho. Na água, apenas uns japoneses e alguns outros surfistas que não passavam de 10.
Surfei por umas duas horas sem perceber nenhuma reação no mar. Até que depois de mais ou menos 12:30, o mar começou a reagir rapidamente, com uma onda por cima da outra e alguns tubos incríveis!
Foi a hora em que Lian MacNamara entrou na água e me falou que a bóia marcava 23 pés, com 17 segundos de intervalo entre as séries.
Para quem não sabe, isso significa ondas bem acima dos 20 pés. E me disse ainda que já havia um tempo que estava assim.
Surfamos algumas ondas bem pesadas para Rocky Point e sai do mar para me preparar para um possível Pipe ou até um tow-in, caso o mar permitisse.
Foi o tempo de almoçar. Em pouco tempo, Romeu Bruno me ligava para combinar uma sessão de tow-in. Perguntei se ele tinha checado Pipe e ele me disse que já estava fora de controle.
Então, não tinha mais o que pensar. Era pegar o jet e partir para a água, pois como a temporada estava fraca de ondas grandes, eu tinha muitas pranchas novas de tow-in para testar, seria uma ótima oportunidade.
Meu parceiro tinha voltado ao Brasil no dia anterior e eu faria parceria com meu grande amigo Anderson, mais conhecido como Mameluco, que já fazia mais de um ano que não saia de jet ski.
Formamos um time com Romeu Bruno, Luiz, Daniel e Buzzy e saímos do harbor de Haleiwa imaginando uma session de ondas não tão grandes porém perfeitas, já que as condições eram muito boas.
Não havia vento, o mar aumentava a cada série e tínhamos a sensação de estar indo para um parque de diversão com ondas.
Checamos alguns picos e paramos para surfar uma onda entre Himalaias e Police Beach, uma esquerda perfeita, porém um pouco cheia para as nossas expectativas.
Meu amigo pegou algumas ondas, Daniel também, e resolvemos checar outros picos. Eu podia sentir que Phantons estava perfeito.
Falei para a galera que íamos checar e foi aí que nosso time se dividiu, infelizmente. Apenas eu e o Mameluco partimos na missão de pilotar até Phantons já por volta das 16:30.
Levaríamos mais uns 20 minutos e pouco tempo para surfar, mais valeria a pena. Porém, não contávamos que haveria ondas em Log Cabins, o pico famoso onde Ken Bradshaw pegou aquela onda gigante no inesquecível Big Wednesday.
Paramos no canal e Garret MacNamara estava com sua gunzeira e com apoio de alguns jets, para tentar pegar uma onda na remada.
Na verdade, chegamos minutos depois de ele pegar uma onda enorme, segundo ele de mais de 20 pés. Acompanhado de um fotógrafo, ele tentava pegar algumas ondas para concorrer ao prêmio de maior onda na remada do XXL.
Pena que o fotógrafo não conseguiu registrar. Garret fez o trabalho dele, segundo todos que estavam por ali. O big rider João Jabour viu da praia e falou que a onda era enorme.
Era mais uma onda que entrava para a história do Hawaii. Mas, o dia não acabaria apenas com essa historia. Não imaginávamos o que nos aguardava.
Falamos com Garret e ele pediu pra gente esperar mais uma série. Ele pegaria mais uma e começaríamos a fazer o tow-in. As ondas estavam iradas.
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Preparei minha prancha, uma 5.6 Strecth 4 quilhas e saímos surfando. Onda após onda eu sentia que estava com o equipamento errado.
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As ondas já estavam muito grandes para a prancha, ainda testei outra 5.10 nova, porém não aprovei e voltei para a 5,6 mesmo.
Naquele momento, várias duplas já dividiam o line up: Dan Moore, Ken Bradshaw, Mark Healey, Garret Mac, Dane Keloaha e Buttons Kaluhiokalani, que fazia tow-in pela primeira vez. Ele mesmo, o Buttons, dos anos 70, aquele que fazia o S mais perfeito da época.
Eram seis jets e surfamos ladeiras simplesmente perfeitas. Eu apenas sobrevivia em minha pequena prancha, pois a onda parecia meio cheia, mas corria a uma velocidade inexplicável.
Todos ali pareciam não acreditar no que estava acontecendo ? a maior session de tow-in dos últimos nove anos feita em Oahu.
Eu mesmo não tinha surfado ondas daquele tamanho em Oahu, já que sempre vamos a Jaws quando o mar cresce.
Foi incrível. O mar subia a uma velocidade nunca vista por nenhum dos surfistas presentes.
Perguntei ao Dan Moore e também ao fotógrafo Alan Mozzo se eles tinham visto algo assim antes. ?Não destee jeito. Levei minha filha à escola pela manhã e o mar estava flat. Quando fui buscá-la à tarde, o mar já estava bem consistente e agora estamos vendo ondas desse tamanho. Isto é incrível?, disse Alan Mozzo, único fotógrafo a registrar a session.
?Nunca vi Log Cabins desse jeito, estava o mais perfeito que já vi?, comentou Dan Moore.
Era quase noite e, de cabeça feita, resolvemos ir para o canal e ver a última série antes de voltarmos para o harbor.
Estava simplesmente animal, alucinante. Não consigo colocar em palavras o que vimos ? duas ondas gigantes. Na primeira, Dan Moore descia uma ladeira que parecia não ter fim.
Posso garantir, tinha uns 30 pés fácil. E, na segunda, Dave Wassel, salva vidas e tube rider casca grossa do North Shore, simplesmente colocou para dentro do maior tubo que já presenciei na vida, uma besta, um monstro. Sei lá o que era aquilo!
Infelizmente as fotos não mostraram o que realmente aconteceu, mas para quem estava no canal e, principalmente para ele, foi algo chocante, memorável.
Um fato histórico no tow-in. Mas a história não acabou por aí. Dan Moore simplesmente não conseguiu passar a última sessão da onda, assim como Dave, e tomou a bomba na cabeça, além de outras duas.
Três jets partiram na tentativa de resgata-lo e nenhum conseguiu. Era muita água branca e não dava para ver onde ele estava.
Fui o último a tentar resgatá-lo e, quando o encontrei, ele não tinha mais forças nem para subir no sled.
Mameluco tentou então segurá-lo pela mão para chegarmos ao canal, por isso eu tinha que ir muito devagar.
Fomos engolidos pela espuma e perdemos não só o Dan Moore como o jet. E ainda tomamos um caldo animal. Naquela altura, quase noite, o parceiro do Dan conseguiu resgatá-lo, outro jet pegou o Mame, e ainda um terceiro me pegou.
Nosso jet tinha sumido e a única coisa que avistei foi o sled boiando no canal. Pedi ao meu piloto para buscar o sled e me deixar na praia, porém me esqueci de como estaria o shore break de Log Cabins.
Bombas de 12 a 15 pés explodiam entre pedras e areia, algo animal. Os pilotos nos deixaram antes do inside e, para sair, Mame e eu teríamos que pegar uma onda daquelas!
Adrenalina pouco é besteira, tenho de confessar, foram momentos de muita adrenalina. Acabei tentando pegar uma onda e, quando ia descer, vi que era grande demais.
Resolvi voltar mas não deu. Fui arremessado lá de cima, tomei um caldo enorme e quando vi estava batendo no muro das casas de Log Cabins.
As ondas explodiam nos muros das casas, lavavam as estradas. Já era quase noite e o mar estava fora de controle. Só então vi que o Mame também tinha sido cuspido com eu, e o nosso jet estava em frente ao posto salva-vidas, sendo amarrado por um deles, Johnny Angel.
Este nome não foi por acaso, ele realmente foi um anjo, segurando o jet e não deixando-o voltar para o mar.
Mais tarde ele falou que não sabia como o jet veio surfando uma onda enorme, de um lado para o outro, sem capotar até a praia.
Ele apelidou o jet que vinha sozinho de Ghost Rider e demos muitas risadas, já que estávamos todos salvos e sem nenhum arranhão, e com o jet em perfeitas condições.
Ainda encontrei o sled, também perfeito! Coisas de Deus, não tem outra explicação. Sem dúvida, foi a maior história de surf de nossas vidas.

