Leila Alli prepara o tubo durante Rockstar Games Pipeline Pro. Foto: Arquivo pessoal LA.

Minha experiência no último mundial de Pipeline foi muito intensa, diria memorável. Por isso senti vontade de compartilhar nesse texto o que aconteceu por lá. Não corri o tour em 2006 e entrei no campeonato no primeiro round da triagem. Primeira bateria do primeiro dia, as oito horas da manhã.

 

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Andei pela praia de Rock Piles até Pipeline, checando as ondas no caminho. O mar tinha uns dois pés, meio mexido. A ondulação de Norte misturava-se com uma de Oeste que chegava. Sentada na frente do pico, olhando as marolas, tentando entender porquê fui entrar

Leila Alli atua no papel de mãe nos intervalos entre as baterias do Rockstar Games Pipeline Pro. Foto: Arquivo pessoal LA.

nesse campeonato. Paguei 200 dólares do próprio bolso na inscrição e fui competir num mar muito mais parecido com o meio da Barra do que com Pipeline.

 

Dois dias antes, caí em Pipe com mar pequeno e muito crowd. Fiquei um tempão boiando. As meninas na água treinando com seriedade e eu pensava: Que faço aqui? Saí do mar com uma conclusão: Não dá mais para mim! Não tenho mais essa garra toda de competir, nem vontade de cair em mares desse tipo para treinar. Quero mais é curtir meu tempo livre e surfar sem estresse. Um tempo que é curtíssimo e só rola entre arrumar, lavar, cozinhar e cuidar do bebê – nos EUA não tem doméstica, babá, diarista. É tudo com a gente mesmo! Ainda acho tempo para filmar e editar meus vídeos.

 

A única razão para estar ali é Pipeline. Um campeonato onde a inscrição dá privilégio de surfar com mais três pessoas na água. Normalmente, o crowd de havaianos, surfistas Pro, bodyboarders e curiosos, é insuportável. Em condições perfeitas, pode-se contar mais de 80 pessoas na água.

 

Chegando ao Ehukai Beach Park, onde estava o palanque, ouvia os comentários debochados: E aí Leila, vai pegar tubo para direita e para esquerda hoje? Só tinha na lembrança o campeonato com ondas clássicas que tirei duas notas dez unânimes. Um tubo para Pipeline e outro pra Backdoor. Passei pelo Bob Thomas – cara que decide se o campeonato rola ou não. Pensei em perguntar porque começar a prova naquelas condições se ainda tínhamos cinco dias de janela. A vontade era de pedir meu dinheiro de volta, mas fiquei quieta e fui pegar a camiseta de competição.

 

Um swell grande de Oeste era esperado, só não haviam sinais dele estar chegando. Com isso caminhei para minha bateria, desolada. Tudo que esperava – eu e a torcida do Flamengo – do evento em Pipe, eram ondas de pelo menos dois metros e tubulares. Mesmo destreinada nessas condições, teria mais chance em ondas maiores.

 

Justin (o maridão) falava para passar a primeira bateria que, na segunda fase, o mar estaria maior. Consegui a vaga vencendo a bateria e as ondas cresceram para mais de um metro e logo na primeira onda, o lip grosso de Pipeline bateu em cima do joelho. A gente se acostuma com o Hawaii e esquece da força das ondas daqui. Senti na hora que era coisa seria. Senti dor da pancada e depois meu joelho parecia solto, mole como geléia.

 

Voltei pro pico e disse à Dani: Me machuquei sério! Estava em último lugar na bateria com apenas uma onda e esperava por qualquer uma para sair do mar. Nos 30 segundos finais, uma onda perfeita subiu pra mim, exatamente onde eu estava e, semmuito esforco, consegui virar o resultado e avancei mais uma. Pedi ajuda ao salva-vidas para sair do mar e quando cheguei na areia, outro bombeiro esperava por mim com gelo e a motinha para dar uma carona. 

 

Com os músculos quentes, não sentia muita dor, mas aquela perna não tinha mais força. O mar chegava aos 2,5 metros sólidos. Me perguntei: Como vou competir assim? Tem uma expressão que diz: cuidado com seus desejos, eles podem se realizar. O mar subiu, mas agora estava subindo demais e eu com o joelho machucado em condições que pediam bracos, pernas e tudo mais funcionando 100%.

 

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Leila Alli, Rockstar Games Pipeline Pro. Foto: Arquivo pessoal LA.

Quando o corpo esfriou, a dor voltou. Tomei dois Tylenol e arrumei uma joelheira para segurar um pouco. Resolvi continuar na competição, afinal estava nas quartas, com três boas atletas, uma delas Stephanie Pettersen, algumas vezes campeã em Pipe. Entrei na disputa com tudo que tinha, batendo uma perna só. A estratégia seria esperar a boa, não dava para pegar muitas ondas. Aí veio essa onda, grande e perfeita.

 

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Fui! Remei sem dúvida e fui convidada a entrar nela. Como uma fadinha que se transforma em

Leila prepara-se para mais uma bateria junto ao marido Justin e Yasmin. Foto: Arquivo pessoal LA.

demônio, logo depois que te pega. A onda emburacou forte, despenquei num drop aéreo e não deu pra segurar a onda (literalmente). Bati com a cabeça, costas e, para arrematar, dei com o outro joelho no coral.

 

Meu estrepe soltou do braco, perdi a prancha e fui varrida pela onda seguinte. Peguei a prancha na areia, depois da torre dos salva-vidas no Ehukai – bem longe do pico. Tentei remar por ali mesmo, seria mais facil que andar na areia com o joelho reclamando. Não deu. Saí novamente do mar e, com ajuda do Justin, voltei correndo devagar até o ponto certo para entrar. Nessa corrida, eu estava meio num transe. A cabeça doendo da pancada no coral e Justin disse: Lei, está bom! Não entra mais, não dá mais para voce. Guardando forças respondi com um não, curto e direto. Ainda tinha uma força dentro de mim.

Peguei mais duas ondas e ganhei a bateria! A próxima era semifinal. Saindo do mar, a platéia na areia aplaudia e gritava. O salva-vidas deu uma carona na motinha e disse que a onda parecia ter uns 20 pés de tão cascuda. Perguntou meu nome e deu os parabéns pela atitude. Aussie Andrew Lester gritou: Go, Leila! Enquanto passava, o locutor pediu uma salva de palmas e não consegui olhar para ninguém, permanecia em um estado surreal, meu corpo e minha mente em níveis de consciência diferentes.

 

Na sequência entrei na semi e fui a última a varar a chegar lá fora. A estratégia permanecia: esperar pela onda boa da série. Definitivamente não queria mais me machucar e o mar tinha uns quatro metros. A boa só veio nos últimos minutos da bateria. Peguei um tubo limpo e foi isso. Passei para final com uma onda apenas. A nota dessa onda foi maior que as duas da campeã mundial Marina Taylor.

 

Competi na primeira bateria e agora entrava a última bateria do dia. Nesse percurso machuquei o joelho, bati de cabeca no fundo e surfei ondas enormes. Após a maratona de bateria, estava acabada. Kira Llewellyn, Aoi Koike e eu fomos para fora, enquanto a Dani Freitas esperava ondas menores mais no inside. Nesse momento as bombas quebravam no segundo reef e tinham entre três e quatro metros. A galera da praia começou a assoviar, avisando que uma série enorme estava vindo. Remamos com muita vontade. Aoi, mais para o lado, virou na primeira da série e salvou-se de tomar na cabeça o resto das morras. Kira estava mais para fora e conseguiu passar. Esqueci do joelho ruim, colei a cabeça na prancha e remei com todas minhas forcas para outside, mas nao deu. Tomei a série na cabeça, no pior lugar, mais para Backdoor do que para Pipe.

 

No caldo, a espuma grossa jogava meu corpo como boneco para todas direções. O estrepe no antebraço enrolou no pé-de-pato e eu não conseguia subir para respirar. Lutando para me livrar do estrepe e sem ar, o campeonato passou na minha cabeca como um filme. Lembrei da força da onda que machucou meu o joelho, depois lembrei do drop e também de ter batido a cabeca no coral. Pensei pela primeira vez na vida que poderia morrer ali.

 

Cheguei até a final e vou ficar aqui embaixo d’água? Será esse o clímax trágico de tudo que rolou durante o dia? Lembrei da minha filha, puxei o estrepe com mais forca e dobrei a perna para me soltar. Peguei um pouquinho de ar e afundei de novo. A segunda onda da série já quebrava em cima de mim e fui varrida. Recuperei as forças e entrei novamente no mar. Restavam apenas dois minutos e não vieram mais ondas.

 

Saí do mar, com um mix de desapontamento por não ter pego nenhuma onda e, ao mesmo tempo, com um sentimento de humildade e contentamento com a vitória do mar. Esqueci a competição, só pensava no mar, nas ondas. O joelho não respondia mais e o corpo muito moído. Vi de longe, Justin segurando a Yasmin no colo. Ela tava nem aí pro que havia acontecido comigo durante o dia. Pulou no meu pescoço e apertou exatamente no ombro cortado. Doeu, mas foi uma delícia de abraço.

 

Estas foram as maiores ondas da história do campeonato feminino de Pipeline. Surfistas, bodyboarders e o público em geral, assistiu e aplaudiu performances impressionantes de muitas meninas, que droparam morras sem medo, com garra e segurança. As bodyboarders adquiriram, com certeza, o respeito merecido depois deste campeonato.

 

Agradecimentos ao site banzaibetty

 

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