
Domingo, 25 de maio de 2003. O mar já estava grande em todo o litoral de São Paulo. No Quebra-Mar, em Santos, as ondas passavam dos dois metros. Infelizmente o vento não dava trégua e poucos lugares estavam surfáveis.
Na internet a previsão mostrava que o mar iria subir ainda mais. Eram aguardadas ondas de mais de três metros e, nessas condições, só há um lugar onde o surf é garantido: a Garganta do Diabo.
O pico é o que melhor sustenta as maiores ondulações na região e recebeu esse nome devido à enorme quantidade de barcos que virou e de vidas que já engoliu.

São comuns os acidentes em dias de ressaca, tanto com barcos que teimam em atravessar a arrebentação, como surfistas que vão para a Porta do Sol e são subitamente tragados para a arrebentação da Garganta.
No dia 26, segunda-feira, o swell havia subido como o previsto. À tarde seria “dia de Garganta”! Poucos corajosos se aventuraram a entrar na água: os locais e big riders Daniks Ficher e Luciney Mallas, os profissionais Jair de Oliveira e Marcos Quito, os locais Ricardinho e Índio e mais dois surfistas não identificados.
Os quatro primeiros estavam totalmente à

vontade no pico, com destaque para Daniks, que dropava as grandes e ao chegar no rabo manobrava forte como se estivesse numa merreca.
As ondas chegavam a 12 pés no drop em algumas séries, mas quebravam tão longe que ninguém pegava. Quando o swell é grande funcionam bancadas a mais de 500 metros para trás da Ilha Porchat, o que equivale a cerca de 1 quilômetro da praia.
A galera ficou mais no “inside”, já dentro na linha da Ilha, onde tinha entre 8 e 10 pés e balançava menos.

Todos os surfistas do pico foram arrastados por mais de 300 metros para fora pela forte vazante, sendo obrigados a remar em qualquer espuma para não serem lançados para fora de vez. Por ser saída do estuário a correnteza é sempre muito forte.
O surf na Garganta em si não é difícil, mas o contexto todo é bastante tenso. Não há referência de praia, pois as ondas quebram no meio do mar.
Mesmo acompanhado dos amigos o surfista fica praticamente sozinho, pois demora muito para

voltar para fundo.
E se a cordinha arrebentar é preciso estar preparado física e psicologicamente para nadar cerca de duas horas até chegar na praia do Itararé.