Forte vento assusta Kitesurfer em Oahu

Seria mais um dia no meu cotidiano. Ondas de seis pés nas bancadas do North Shore até depois do almoço quando um vento lateral entrou e a galera  troca as pranchas de surf pelas pipas de kite. Eu nem imaginava a roubada que ia passar.

 

Fui para Mokuleia onde uma direita quebra perfeita para a modalidade. No estacionamento o surfista local do Backdoor, Kahea Hart já enchia sua pipa. O vento com cerca de 12 knots necessitava de um kite de cerca de 16m para um bom velejo, ele estava somente com um 13m e estava na duvida se entraria ou não. Eu saquei meu 14m e na fissura o coloquei no ar. Nessa hora, ninguém na água e quem estava desde
cedo já tinha saído.

 

A verdade é que a fissura batia em meu corpo, com um kite novinho Gastra 14 atica qualquer mortal ficaria. Levantei e abaixei o kite umas três vezes.

 

Precisava ajustar as novas linhas e o capitão dos salva-vidas em Oahu Tom, me ajudou no trabalho. Ele começou na mesma época que eu uns dois anos atrás e virou parceiro.

 

Nesse meio tempo o vento apertou e eu fui para a água. Cerca de uma hora depois mais dois kites vieram dividir as perfeitas ondas. O vento começou a apertar e eu fui puxando o sistema

de freio aos poucos e em cerca de
30 minutos ele já estava puxado no máximo. Quando me toquei um kite já tinha saído e o outro se movia para a praia. Pensei ”É hora de sair, esse kite está muito grande”.

 

Fui me deslocando para a praia e comecei a ser arremessado que nem um saco de chá para cima e para baixo. Tentei manter a calma e fui literalmente arrastado para a praia. O vento já batia com cerca de 25 a 30 knots e o pior de tudo é que ficar sem  controle na água é uma coisa, mas assim que cheguei a terra (praia) o visual foi de terror. O dito cujo que saia na minha frente levantava para o ar e para a terra cerca de dois metros sem nenhum controle de seu kite e foi voando em direção a rua quando Peter, um cara de uns 90k que foi o primeiro kite a sair ainda em segurança, se pendurou nele para ajudá-lo.

 

Uma rajada fortíssima levantou os dois e eles voavam rolando pela grama em direção a rua. Foi sinistro!!!. O rapaz puxou o sistema de segurança para desprender o kite do corpo – muito tarde. O kite voou para a rua e foi parar em cima das árvores do outro lado. Tom correu para tentar salvar o kite, pois ele não parecia que ia subir para a árvore, e sim ir bater de frente a uma família que acampava do outro lado da rua.

 

Nesse meio tempo essa rajada tinha me jogado da praia para cima da grama do mesmo modo que havia feito com o outro kitesurfista, cerca de dois metros do chao. Peter vendo que por mais machucado que estava o cara não passava mais perigo – correu em minha direção. Ele também pulou por cima das minhas costas e os meus 82k mais os 90k dele voaram para o céu, como se nada estivesse acontecendo. Uma placa apareceu em minha frente e ele gritou para que eu me segurasse nela. Passei meu braço direito nela e paramos de levitar. Ele gritou que ia me soltar e que eu tentasse abaixar o kite para ele em suas maos (As linhas de 30m necessitam que ele se desloque a essa distância).

 

Antes que uma nova rajada entrasse, com frio na barriga eu gritei ”ok”. Rezei fortemente naqueles instantes. Se uma rajada entrasse, ou eu quebrava meu braço segurando o poste, ou voaria sem controle. Graças a deus desci o kite e nenhuma rajada entrou naquele instante.

 

Que experiência… Não sei se é melhor ficar ”overpowered” no kite ou tomar uma bomba de 30 pés na cabeça. Somente sei que esse frio que em minha barriga eu só tinha sentido uma vez na vida, quando entrei no Big Wednesday com 80 pés de onda, sendo um Novato na modalidade em 1998.

 

Agora o que é pior, se esborrachar na rua puxado por um kite incontrolável ou tomar  uma bomba gigante na cabeça? Sei lá eu… Acho que a água é mais agradável. Graças a deus ninguém se machucou, somente arranhões. Peter foi o herói e Tom um verdadeiro salva-vidas.

 

Fui para Backyards junto com Tom checar as condições. Uma forte chuva entrou e mesmo assim tinham dois kites na água. Assim que pisamos na praia um deles fez sinal desesperado para que segurássemos seu kite. Era um seis metros e o garoto profissional patrocinado pela Gastra estava no maior perrengue. NA seqüência Will James (Renomado atleta da North) saiu com seu nove metros e ele usava linhas de 20 metros, em vez das normais de 30m para a pipa perder potência. Esse é o menor kite que a marca produz e ele disse que usaria facilmente um sete metros, ou no máximo oito metros com essas linhas. Ambos comentaram que não se sentiram bem no mar. Mesmo com os kites com a metade do tamanho dos nossos, linhas menores, e sendo profissionais renomados.

 

Depois de ver essas cenas, eu e Tom desistimos de entrar. Mais uma vez a natureza venceu. O vento estava com 30 knots e rajadas de 35. Nunca vi nada parecido.

 

A lição que eu tomei é que o vento pode subir de 15 knots para 35 em cerca de 10minutos. É necessário usar um dos sistemas de segurança em que você possa abandonar o kite. Como nunca tinha passado por uma situação dessa tinha tirado os sistemas dos meus kites, pois achava um ”trambolho” a mais.

 

Não me importaria de perder os U$$ 1mil de equipamentos desprendendo o kite e me salvando. Um braço quebrado, ou algo parecido custa muito mais caro.

 

Depois dessa usarei com certeza algum sistema de segurança e recomendo a todos que praticam a modalidade fazerem o mesmo. O que eu vi hoje é que o kite na minha opinião é um esporte seguro, se você o praticar com os equipamentos necessários, de outra forma pode se tornar um pesadelo.

 

aloha,

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