Tenho meus 50 anos e pego onda desde os 14. Frequento praias do litoral de São Paulo e já passei algumas temporadas em Santa Catarina e Rio de Janeiro.
Cito estas experiências para mostrar que, apesar de não ser um ex-surfista profissional, não sou nenhum leigo no assunto.
Certa vez, assisti a um Waimea 5000 no Arpoador, Rio de Janeiro (RJ), e vi uma bateria de Picuruta Salazar, ídolo nacional da época. Naquele dia, ele enfrentou um havaiano chamado Dane Kealoha.
Naturalmente, a torcida local era toda do brasileiro. As ondas fortes e relativamente grandes, pelo menos no meu entender, vinham de trás da pedra. O havaiano surfava com uma linha, uma fluidez e numa velocidade que não se perdia entre as curvas e manobras potentes. Estes movimentos, eu não conseguia ver entre os surfistas brasileiros.
O tempo passou e, em 1987, eu acho, fiquei uns cinco meses numa temporada de inverno no Hawaii. Num dia lindo, no meio da semana, surfei em Off-The-Wall. Nem estava grande, mas as ondas eram perfeitas.
No meio da tarde, o mar começou a subir e notei uma movimentação fora da água. Câmeras, agitação e daqui a pouco entra um gringo cabeludo na água. Era o Matt Archbold. O cara pegou uns tubos irados, soltava uns laybacks animais e jogava água para todo lado, destoando totalmente do crowd.
Resultado, boa parte do pessoal, inclusive eu mesmo, saiu do mar para assistir o cara.
Dias depois, Banzai Pipeline quebrava com 5 metros e estava um baita crowd na primeira bancada. Fiquei sentado na praia, olhando o show. Logo, três caras ao meu lado começaram a se preparar para entrar na água e, bem como dois fotógrafos, um gordinho e outro japonês.
Reconheci os surfistas. Tratava-se de Ronnie Burns, Derek Ho e Lian Mcnamara. Eles entraram pelo canal, passaram pelo crowd e foram lá para trás, onde ninguém estava e ficaram à espera das morras.
Um drop eterno, botton turn cavado e longo e tubos secos, profundos. Saiam ilesos, tranquilos e voltavam ao pico pelo canal. Simples assim! E a outra turma continuava “se matando” no segundo reef. Lembro de tudo isso, pois assistindo ao Volcon Pro Fiji 2013, tive a mesma sensação daquele dia no Hawaii.
Os dois últimos dias deste campeonato foram os mais impressionantes que já vi. As ondas passavam fácil dos 2,5 metros mencionados na reportagem da Waves. É só ver uma das fotos estampadas na matéria. Kelly Slater de abraços abertos saindo do tubo.
A onda é no mínimo o dobro do tamanho dele. A linha de surf de caras como Kelly, Mick Fanning, Joel Parkinson, John John e Jordy Smith foi impressionante. Drops insanos, rasgadas descomunais, bombas no lip, cut backs com retorno e bomba no lip de novo e tubos.
Foram tubos espetaculares em ondas cavernosas, rápidas e grandes. E algumas acima de 3,5 metros, surfadas de maneira brilhante. Cito isso tudo, pois apesar de ser brasileiro, também sou fanático como a maioria e torço para um brazuca ser campeão mundial.
Não posso deixar de reconhecer que a linha de surf destes gringos, quando o bicho pega, é bem diferente. Quando numa onda regular, um destes caras pega uma onda parecida com a de um brasileiro e os juízes gringos ou até brasileiros dão uma nota um pouco maior para eles, será que eles não estão lembrando um pouco disso?
Aí, vem aquele complexo de vira-lata e começamos a criticar a moçada.
Acho que estamos no caminho certo. Nossa nova geração está pegando cada vez mais estes mares casca-grossa e se acostumando ao power, desenvolvendo esta linha.
Mas, pelo que pude observar ontem, ainda temos muita lenha pra queimar.
Enquanto o Tour priorizar estes melhores picos, nas melhores condições, vai ser difícil batermos os gringos. Aguardo ansioso pelo dia de ver um brasileiro com a linha de surf que vi em Fiji.
Claudio Vieira, mais conhecido como Caco, é engenheiro químico e local de São Paulo (SP).