Futebol mundial sofre crise de credibilidade depois das safadezas veladas da Copa desse ano. Aboli o artigo definido masculino singular “o”, por estilo. Estilo, por outro lado, você não compra em farmácia, nem estuda, nem entende – muito menos reconhece -, se não houver um mínimo de leitura nas costas.

 

Nunca fui muito amigo do Celso Cunha. Comecei o texto me referindo à falta de credibilidade crescente das federações, associações e confederações que regem o mais popular esporte do planeta.

 

Duas partidas na Copa foram patentes pro levantar, desconfiado, das sobrancelhas fanáticas – quem gosta de futebol sabe quais são, para quem não simpatiza, não faz a menor diferença. A FIFA, com o seu dotô Joseph Blatter, vem realizando artimanhas do arco da velha.

 

Milhões de vezes menor, e menos importante globalmente, a ASP nos últimos anos vêm, pro melhor e pro pior, se distanciando cada vez mais do seu público alvo: o surfista.

 

Mas, não se animem ainda! A sua associação, amadora ou profissional, ISA ou APSA, está entrando pelo cano também. Comemorei com uma rodada de 26 garrafas de Bohemia, no boteco da esquina da Marques com Acácias (ou seria Oitis?), a eleição do tão idolatrado Rabbit para a presidência da ASP.

 

Previ um futuro cheio de liberdade e diversão para a associação, tal qual a vida levada pelo velho companheiro Wayne Bartholomew. Pra quem chegou agora, campeão mundial de surfe profissional em 1978, Bombeiro no Havaí, dropava as bombas em Pipe, Sunset e Waimea com a tenra idade de 17 anos.

 

Dono de uma biografia, e currículum (opa!) invejáveis no nosso pequeno e grandioso mundinho, Rabbit inaugurou o estilo de vida que meu coleguinha de coluna, João Crimo, tanto preza hoje no novo sélico (atenção crianças! Aqui ao lado lê-se ‘século’, tá combinado?), recheado de drogas, álcool e manobras futuristas, afinal, o Coelho foi o
primeiro a tentar o hoje popularíssimo ‘carving 360’s’, 25 aninhos atrás.

 

A pose de ‘Rock Star’, primeiro inspirado em Jagger e depois em Bowie, passando pelo ícone Pop Cassius Clay, também foi idéia do ‘Rab’. Dito isso, vambora ao que interessa.

 

Depois do 11/09/01, a surfistada ficou encagaçada de voar pro Velho Mundo, temeram pela vida de seus entes queridos, ficaram em casa comiserando, enquanto Sunny, cheio de fome, esperava atento em Portugal pra tomar a liderança do Cêjota.

 

Rob Machado chorou e levou – cancelaram o WCT de Portugal, um dia antes de começar. Jake Patterson, pé dentro do long-john, mandou imeio para todos membros do conselho soltando os bichos, ‘Bunch of…’, esbravejou o ‘aussie’. Faltou ali um pulso mais forte da entidade que organiza e solidifica o surfe de competição.

 

Mas, como todos estamos carecas de saber, o momento era deveras delicado, hoje é muito fácil falar com tanto distanciamento, blah, blah, blah… Um ano se passou e… Outro cancelamento em Portugal?? E tinha onda? Sim, senhores. Tinha público? Afirmativo.

 

Tinha dinheiro, porque sem dinheiro eles nem entram n’água? Positivo. Já sei! Duvido que ainda sobrava tempo para terminar o evento. Tinha terminado o período de espera? Não, madames e cavalheiros, faltava um diazinho.

 

Vamos escutar o que Fábio Gouveia tem a dizer sobre isso. Fala Fia!

 

“Mano, tive foi uma surpresa enorme quando escutei a voz do gajo Nuno Junet sair pelos auto-falantes da praia de Cabedelo após a última bateria do terceiro round. Não acreditei que aquilo estava acontecendo. Já tinha escutado um zum-zum-zum no dia anterior e naquele dia, antes do evento recomeçar, mas não imaginava que neguinho ia sacrificar um trabalhão daqueles pelo simples fato das coisas não terem andado da melhor forma possível. Não sou do conselho, mas me interesso um pouco. Antes do pessoal ter cancelado o dia de disputa para os homens no sábado, fui perguntar ao Perry (Hatchet, Juíz-chefe) se havia a possibilidade de o evento ser cancelado. Ele me falou que naquela hora ele ainda não estava nem pensando nisso, mas com aquelas condições não havia surf. Tudo bem, talvez as ondas estivessem abaixo dos 18 centímetros exigidos pela entidade, mas mesmo o contrariando, disse que preferia entrar no mar e tentar dar duas batidas e arriscar minha classificação. Ele olhou pra mim com cara de poucos amigos e falou para eu imaginar um Luke Egan naquelas condições. Bem, naquele dia se encerrou com o Feminino e as minas até que surfaram bem, mesmo na marola. A verdade é que ninguém poderia imaginar que pudesse dar um flat daqueles e talvez por isso demoraram a se mexer. O que não entendo é que o evento estava no calendário para ser finalizado no dia 24/09. O mar estava melhorando e soube que as ondas foram melhorando até o anoitecer. Acho que neguinho se estressou tanto, que a primeira brecha que deu, fizeram aquela doideira. Alguns surfistas queriam continuar e eu era um deles. Muitos que não estavam na praia no momento da decisão ficaram meio surpresos também. Mas, como disse, todo mundo acabou se acomodando. É aquela velha história de interesses próprios, pois cada surfista em determinado momento está se sentindo de um jeito. Se está disposto, topa tudo, mas se não está, é rolô… Eu já desisti de me meter e jurei pra mim que nem chego mais perto dos caras quando tiver rolando essas discussões de róla ou não bateria em merreca. Tá bom da ASP fechar logo um mega patrocínio e mandar construir uma wave pool gigantesca. Aí sim, vai acabar com essa putaria. Faz tempo que estou odiando esse tal prazo de espera, pois, muitas vezes, mesmo tendo ondas razoáveis, neguinho acaba querendo dias melhores, o que é lógico, mas nem sempre isso se concretiza.”

 

Muito grato Fabinho.

 

Pros chatos de plantão, aviso logo que Gouveia é o brasileiro que mais evoluiu em ondas grandes desde que o WCT é WCT. Sua nota dez no Tahiti e as fotos nas campanhas do seu patrocinador em Pipe e Sunset não me deixam mentir.

 

Voltando ao WCT de Portugal, fica claro, na opinião do Fabinho, que tem o meu apoio, que houve precipitação no cancelamento. No dia fatídico, liguei para o João Valente, Editor com “E” maiúsculo, da revista Surf Portugal, que trabalhava como correspondente para o saite (!!!) www.surfingthemag.com e, candidamente, lhe perguntei:

 

– João, que porra é essa de cancelarem o campeonato???

 

J.V. dirigia em alta velocidade pela auto-estrada e me respondia do seu tele-móvel:

– Os camaradas não quiseram entrar no Mar. Se recusaram a correr baterias de 20 minutos. Não aceitaram reduzir os 25 de praxe. Bando de meninos mimados. A ASP está sem força…

 

Pensei meia dúzia de palavrões e desliguei, senão a ligação ficava muito cara. Passada uma semana, todos acomodados luxuosamente na costa francesa, esperanças renovadas, me vem o Nick Carroll e solta mais essa:

 

“Nada tem sido fácil na perna européia, o mero mencionar da palavra Portugal causa horror nas pessoas. Na Figueira da Foz os surfistas tinham que dirigir 10 minutos sem parar numa ponte industrial (seja lá o que isso quer dizer…), 10 para ir e dez para voltar, três vezes por dia.”

 

E o irmão do bicampeão mundial Tom Carroll escrevia isso como se fosse o calvário de Jó que os nossos prezados surfistas estavam vivendo. Pergunte pr’um paulista, gaúcho ou curitibano o que ele acha de dirigir 10 minutos pra surfar… A profissão dos surfistas profissionais é exatamente essa! E que vida!
Que preocupações…

 

Tinham a obrigação de competir naquelas condições, pois, hoje conquistaram mais de 2/3 do circuito com ondas fantásticas, têm um período para esperarem pelas melhores ondas e o mínimo que poderiam fazer pelos moleques que esperam a vida inteira pra ver o Taj Burrow, Mick Fanning ou Shane Dorian dar um aérosol com rodopio, feito nos vídeos do Taylor Steele, o mínimo, era ter o bom senso de entrarem na porra da água.

 

Enquanto escrevo isso a segunda fase do Quiksilver Pro continua em condições duvidosas. A maior premiação da história. Deixo aqui uma perguntinha: teriam eles, ASP e surfistas, coragem de dar as costas para a Quiksilver em plena França, ou espremeriam tudo que pudessem para terminar o campeonato?

 

Vou perguntar pro Renato Hickel…

 

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Doutor Guilherme Vieira Lima, explica como a estabilidade do core define a potência das manobras e protege o corpo de lesões crônicas.