Neco Caborne pendura nas ondas em frente de casa na praia das Pitangueiras, Guarujá (SP). — Rafael Sobral
Foto: Rafael Sobral.
O Hanging Together tem o prazer de anunciar o novo colunista. Digo ?anunciar? porque apresentá-lo ao mundo do longboard é quase desnecessário. Depois de publicar alguns textos no site, Rodolfo ?Neco? Carbone a partir de agora escreverá periodicamente na coluna ?Fibra de Carbone?, criada para que você, caro internauta, fique cada vez mais satisfeito em visitar nossa página.
Ele vai falar de shape, competições, tendências e experiências na longa carreira em cima e por trás das pranchas. Aos 43 anos, mais de 30 de surf e quase 20 de shape, Carbone é shaper e shape-designer de renome e tem o trabalho reconhecido nacional e internacionalmente. Já ralou com Johnny Rice, Mark Jackola, Patro, Wanderbill, Dennis Pang, Eric Arakawa, Glenn
Neco Carbone é um grande shaper e viveu a história do renascimento do longboard no Brasil. — Herbet Passos Neto
Foto: Herbet Passos Neto.
Minami, Jeff Johnston, Ned Mc Mann, Nev Hyman, entre outros dos melhores do mundo.
Com eles, Carbone aprendeu muito, e depois ensinou também. Teve pranchas elogiadas por Donald Takayama, que shapeava para Joel Tudor, e também outras vendidas para a Stewart, que patrocina Colin Mc Phillips. As pranchas de Carbone fazem tanto sucesso que atualmente são exportadas para o Hawaii.
?Classista? de carteirinha, foi campeão paulista, campeão brasileiro amador e 3º colocado no Mundial Amador de Porto Rico. Abandonou antecipadamente as competições, decepcionado com a falta de apoio e a qualidade do julgamento. Nesse bate-papo você vai saber um pouco mais do novo integrante do time Hanging
Neco Carbone com os amigos na década de 70. — Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal.
Together.
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Que história é essa de exportar pranchas para Hawaii?
Estamos fazendo a primeira remessa. Na verdade, o Thiola é quem fez a ponte. Ele foi pro Hawaii a negócios e o dono da Lightning Bolt gostou muito da prancha dele. Tanto pelo shape como pela laminação. É difícil achar uma laminação pigmentada tão boa quanto a do Thiola.
Como você conheceu o surf?
Neco Carbone entuba durante barca com equipe Wagon para Costa Rica. — Marcelo Preto / Wagon
Foto: Marcelo Preto / Wagon.
Brinco nas ondas desde pequeno. Mas surfar mesmo, com prancha de fibra, foi no verão de 70. Um vizinho meu tinha um longboard Glaspac, que eu sempre pegava emprestado. Quando ele vendeu o apartamento, não tinha mais onde guardar e meu deu.
Como você se tornou shaper?
Comecei a trabalhar com prancha em torno de 73 ou 74, na oficina da Surf Center, a primeira surf shop de Guarujá. O Johnny Rice, um californiano que morava aqui, fazia os shapes, inclusive os meus. Ele formou uma equipe e ensinou tudo, mas a fábrica fechou e ele foi embora. Depois de uns dois anos, resolvi shapear uma prancha pra mim.
Eduardo Fagiano, Gary Linden, Todd Holland e Neco Carbone no estande da Clark Foam, empresa para qual prestava assessoria técnica. — Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal.
Para quem você shapeou no início?
Tinguinha, Paulo Kid, Taiu, Magnun Dias, Neno Matos e mais alguns outros.
Qual a diferença entre ser shaper e shape-designer?
O shaper apenas faz pranchas, enquanto o shape-designer desenvolve toda a configuração do shape. Claro que a gente olha uma prancha ou outra e acha bacana, mas há um bom tempo sou eu quem desenvolve todos os meus outlines. Sempre procuro observar todos os surfistas, desde aquele que está aprendendo até os que detonam. Assim vão surgindo as idéias.
Como foi a história de uma prancha sua ter sido comprada pela Stewart?
Um cliente meu foi pra Califórnia. Chegando lá, foi à loja da Stewart ver as pranchas. O vendedor,
Neco Carbone divide a onda com Marcelo Bibita durante disputa do Legends. Foto: Rafael Sobral. — Rafael Sobral
que também era shaper, quis ver a prancha dele, que estava no carro. O cara gostou da prancha e acabou comprando. Tempos depois, na Costa Rica, esse mesmo shaper, acompanhado de Donald Takayama, que shapeava para Joel Tudor, viu uma prancha minha com o Bruzzi (longboarder de Ubatuba), no Rabbit Kekai. Segundo Bruzzi, os dois fizeram alguns elogios.
Como foram as experiências com shapers gringos?
Trabalhando ao lado deles a gente aprende muita coisa. E, o mais interessante, é que com o tempo a distância do nosso trabalho para o deles diminuiu bastante. Hoje em dia, eles admitem que também aprendem com a gente.
Neco Carbone durante o Mundial de Longboard na França. — Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal.
Como você vê o longboard no Brasil atualmente?
Temos surfistas de altíssimo nível, apesar de não termos um contingente muito grande, se comparado a outros países.
Você ficou conhecido através dos shapes progressivos, mas depois se voltou para o clássico. O que houve?
Minha natureza sempre foi do estilo clássico. Quando virei competidor, comecei a surfar para marcar pontos. Nessa época, minha filosofia era de que o long era uma pranchinha alongada. Quando desencanei de competir, parei de representar aquele papel que os juízes queriam. Comecei a me interessar pelas pranchas clássicas e iniciei um trabalho pra desenvolvê-las.
Para Neco Caborne, o importante é fazer a cabeça e não fazer pontos. — Rafael Sobral
Foto: Rafael Sobral.
Que tipo de prancha você mais gosta de fazer?
Gosto de ver o cliente satisfeito, essa é a meta.
Mas o surf apresentado nas competições, em geral, é o progressivo, não é?
Sim. Os surfistas estão fazendo aquilo que os juízes gostam.
Os juízes gostam mais do progressivo?
Acho que não estão conciliando o clássico com o contemporâneo. Muitos detalhes que fazem diferença para o lado clássico são ignorados.
Quais detalhes?
A caminhada, por exemplo. Chegar no bico com o passo certo, sem ajustar, mostra que ele tem precisão no domínio do tamanho da prancha. É
Neco Carbone foi o representante brazuca no mundial amador do Japão em 1990. — Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal.
bem diferente de quem chega próximo do bico e
depois ajusta. Outra coisa é fato de valorizarem muito as manobras de outside. Uma manobra não deveria definir a nota. A onda deveria ser avaliada como um todo. É no conjunto da onda que o surfista mostra sua habilidade. Se a onda
vai fechar, você está no bico e quer dar uma batida, é muito mais difícil ir pra rabeta trançando o pé do que se arrastando. O cara que treina pra fazer isso sabe o quanto é difícil, mas os juízes ignoram e o surfista fica desanimado.
Foi por isso que você parou de competir?
Também. Chegou um dado momento que vi que era melhor surfar com meus amigos e minha família, do que gastar dinheiro pra correr campeonatos por uma satisfação pessoal que não estava mais me satisfazendo, pois o
Neco Carbone, Picuruta Salazar e Cisco Araña em campeonato nos anos 80. Foto: Arquivo Pessoal. — Arquivo Pessoal
julgamento decepcionava. Apesar do apoio de algumas marcas, a maior parte da despesa saía do meu bolso.
Por que o julgamento decepcionava?
Quando o longboard voltou, em 87, o julgamento era baseado no estilo clássico, porque as pessoas que participavam eram da antiga. Isso começou a mudar quando os competidores de pranchinha, que estavam ficando velhos para se manter nos rankings, começaram a correr na long pra prolongar a carreira. Aí, o conceito foi mudando. O julgamento se adaptou aos novos profissionais e o pessoal da antiga foi sendo excluído. Com eles foi embora a essência do longboard.
Atualmente Neco Carbone está em busca da essência do surf clássico. — Rafael Sobral
Foto: Rafael Sobral.
Você acha que a criação de uma categoria de clássico solucionaria o problema?
Seria uma oportunidade de muitos bons surfistas voltarem a competir. Muita gente abandonou as competições por seus estilos não serem valorizados. O Vitorino James pra mim é um dos maiores exemplos. Uma boa parte do público gosta do surf clássico, mas não tem oportunidade de assistir. Sem falar que os juízes ganhariam mais noção pra julgar a open. Mas do jeito que está, percebo coisas engraçadas…
Como o quê?
A nova geração tem um estilo bem mais refinado do que os shortboarders que migraram para o longboard. Danilo Mulinha, Adriano Melo e Carlos Bahia são os melhores exemplos. Por outro lado,
Na logomarca da Neco Carbone Surfboards, o knee turn característico do shaper. — Reprodução
surfistas como o Paulo Kid e Eduardo Bagé se empenharam em aprimorar o lado clássico e estão surfando bonito.
Então, para tirar boas notas precisa ser radical?
Sim. Faça um longboard bem leve e seja bem radical, mas radical mesmo. Nem precisa ir no bico direto. Mas, aí, eu pergunto: isso é longboard?
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