North Shore

Fernando Farina, um brasileiro no Hawaii

Fernando Farina curte Sunset Beach, North Shore da ilha de Oahu, Hawaii. Foto: Jamie Ballenger.

Meu nome é Fernando Farina. Nasci na cidade de São Paulo, comecei minha vida de esporte no Clube Pinheiros, me criei na praia de Pitangueiras, Guarujá e agora moro no lado Norte da Ilha de Oahu, Hawaii, onde venho tentando realizar um sonho bem difícil de ser um surfista de Sunset Beach.

 

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É uma onda difícil, volumosa e muito intensa, frequentada no inverno somente por grandes nomes lendários do surf como Ken Bradshaw, James Jones, Bobby Owens, Owl Chapman, Mike e Dereck Ho, Bill Sinclair, Darrick Doerner, Clyde Aykau, Andy Irons, Makua Rothman, Pancho Sullivan, Myles Padaca, Kala Alexander, Ricardo Pomar, Jason Frederico, Ikaika Kalama entre utros, além dos brasileiros Carlos Burle, Eraldo Gueiros, Jorge Pacelli, Sylvio Mancusi, Haroldo Ambrósio, Danilo Couto etc. 

 

Fernando Farina não abre mão de sua monoquilha feita por Owl Chapman para curtir as direitas de Sunset. Foto: Jamie Ballenger.

Viver no North Shore, um lugar de beleza e natureza de maravilhas, de cor da água mais linda, no meio do oceano Pacífico, é como se fosse um conto de fadas. Mas não se engane: é bem dificil.

 

É um lugar onde, depois da grande globalização, tem um crowd intenso 365 dias do ano, sendo o inverno de um grau de intensidade e competividade e ondas sem igual. Aqui nesse lugar paradisíaco sua vida pode se tornar facilmente um inferno. É um lugar dividido por anjos e demônios, em um “country” de alta tecnologia e segurança máxima.

 

Minha vida vem sendo bem tranquila e farta. Costumo dizer que vivo aqui como se estivesse no Guarujá dos anos 70. Além de havaianos, filipinos, asiáticos, japoneses e americanos de várias partes dos EUA, a comunidade brasileira é bem notada, com nomes de respeito de pessoas que vivem aqui por muitos anos com suas famílias, como os empresários Cezar Oliveira, Claudio Fernandes, Allois Malfitania, Dodô Von Siddow, o xerife do Hawaiian Police Department Ozzy Costa, o big wave rider Danilo Couto, os life-guards Buzzy e Vitor, a molecada do Norte/Nordeste Guga, Beto, Bruno, Felipe, o vicentino Julião, sem esquecer Mr Jorge Vicente, mais a galera que faz acontecer – Marcio Paraíba, Moraes, André Amaral da Montanha, Cássio Marola (de Camburi), Gabriel Malibu…

 

Brasileiro tem um certo filme queimado, principalmente na época da favela da Rockinha, que agora foi posta abaixo. É notório o sentimento de preconceito da comunidade do North Shore para com os brazucas. Mas, no geral da comunidade, somos bem aceitos. Sem falar dos brazucas que vêm para ensinar o jiu jitsu para a galera local. Mas esse preconceito eu até posso entender porque aqui também passam brazuquinhas bem mal-educados no inverno.

 

Você pode ver coisas de se horrorizar com nossos conterrâneos. Mas coisas bem agradáveis podem ser vistas, como Gordinho e Jerônimo arrepiando em Pipeline como gente grande. Também nao posso esquecer da presensa feminina marcante da big wave rider Maya, a Backdoor girl Micaela e a Yuli.

 

Fazendo parte dessa comunidade, posso confessar que tem horas bem estressantes. Conselho, se fosse bom não se dava, mas eu tento sempre falar que se vierem para cá, antes de mais nada venham com muito respeito. Estudem para ver aqueles que começaram a história e que estão aqui até hoje quebrando. Tragam muito dinheiro e venham com a pasagem de volta bem comfirmada. Não tentem vir para cá para se fazer na vida porque não vai dar.

 

Viver aqui é o privilégio de você ter tudo de melhor para o surf. Os melhores shapers do mundo moram aqui, temos os melhores blocos, os melhores glass, os melhores materias estão aqui. Entre tantos bons shapers que vivem aqui, como Chuck Andrews, Dennis Pang, Glen Minami, Mr “Guru” Dick Brewer, eu sempre me pergunto: ‘será que eu conseguiria surfar com uma prancha que não fosse feita por Owl Chapman?

 

Meu amigo e shaper, uma figura intelectual humorada, Mr Owl me faz o melhor para meu surf, as monoquilhas para Sunset e Waimea que posso usar também em Pipeline, V-land e Laniakea ou qualquer onda daqui de Oahu.

 

Venho usando as monoquilhas nos últimos oito anos e não me vejo com outro tipo de quilhas. As monos me dão segurança no botton turn como se eu fosse fazer uma curva com um Cadilac. Sinto muita estabilidade com as monoquilhas e elas se encaixam perfeitamente para meu surf de linha.

 

Agora, com dias já bem escaldantes de verão, tenho feito algumas barcas para o Sul com meu amigo Julio.  Tenho mergulhado, nadado, praticado stand-up padlleboard, tudo isso na baía de Waimea, lugar que eu tenho certeza de ser o mais lindo do mundo agora no verão, e um dos mais assustadores no inverno.

 

Tenho me mantido em forma com muita fruta, peixe, churrasco, e, lógico, cerveja todos dias. A ilha de Oahu não é só surf. Golfe, futebol americano e canoa também fazem parte do local.

 

No 4 de julho do ano passado participei da Da Hui Paddle Race de Sunset para Waimea com uma prancha de remada de 12 pés do Dennis Pang. Este ano estou treinando para correr de standup paddle board.

 

Num final de semana recentemente houve aqui em Haleiwa um evento de de canoagem irado, com muitas equipes e suas famílias. Aliás, tudo aqui é muito família. Eles vêm em grupos, na maioria das vezes de “big trucks” que trazem tudo para o conforto máximo americano. Mas o evento foi puro havaiano.

 

Quando o evento acaba e você levanta na segunda-feira, parece que nada aconteceu. A civilização aqui é  coisa muito séria. Até as confusões acontecem civilizadamente.

 

E no quesito segurança não faça nada errado porque você vai ser pego bem rápido. A polícia é séria, atenciosa e respeitadora. Aqui você nunca vai ver a polícia abordar por nada, a não ser que você deva. Aqui tem a maior liberdade de atitude  e você tem direitos.

 

Queria dizer que de vários nomes quando cito no surf de Sunset são os que eu vejo na freqüência do inverno todo. E é lógico que pessoas como Kelly Slater, Andy e Bruce Irons, Ross-Clarke, entre outros, quando passam aqui detonam qualquer pico.

 

Também gostaria de agradecer aqui às meninas de Haleiwa, as surf girls Kris e Jane, além dos amigos Allois e Andre da Montanha.  E ao meu novo amigo Nick Iorio,  de New York, que acabou de chegar do Iraque, onde esteve lutando pela liberdade. Eles me ajudaram nas fotos, a gravar CDS e deram uma força para esta matéria.

 

Larguei o conforto da minha casa, mulher, e a oportunidade de trabalhar com um dos melhores publicitários do Brasil, Alex Miranda, e morro de saudades da minha mãezinha para praticar a realidade do surf.

 

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