
Cinco países, três continentes, um fotógrafo e suas lentes. Chile, México, Hawaii, Austrália e Indonésia. Uma viagem pelo mundo e duas paixões: surf e fotografia.
A exposição do fotógrafo gaúcho Pedro Felizardo, em um ano de viagens marcantes, tem o nome de “Surf: Um Olhar” e pode ser conferida no no Espaço Cultural STB Brasas em Porto Alegre, até o próximo dia 16.
O gosto pela fotografia herdado do pai, o fotógrafo Luiz Carlos Felizardo, e a forte paixão pelo surf juntaram-se na escolha da profissão, a qual Pedro Felizardo exerce desde 2000 com trabalhos publicados em diversas revistas e veículos especializados.
Confira abaixo o relato de Felizardo sobre os 365 dias que passou em terras estrangeiras.

“Tudo começou em fevereiro de 2002, na estrada para Garopaba, numa conversa com o amigo Guilherme Variani.
Em dois meses, com 10 pessoas e 45 pranchas, estava embarcando numa Van que saiu de Porto Alegre e viajou por todo o litoral chileno durante 40 dias em busca de ondas pouco exploradas.
Foram mais de 13 mil quilômetros percorridos e dezenas de cidades visitadas. Destaque para Arica, na fronteira do Chile com o Peru, cidade de clima extraordinário e ondas potentes, e Pichilemu, cerca de 200 km ao sul da capital Santiago, terra onde o Oceano Pacífico chega a temperaturas bem geladas.
Uma das coisas mais impressionantes que o Chile oferece é o Deserto de Atacama, o mais árido do mundo. O atravessei por uma estrada que posicionava, de um lado, a imensidão de terras desabitadas e, de outro, o azul quase infinito do Oceano.
O céu de uma das noites em que a Van cruzava o deserto tinha tantas estrelas e pontos luminosos que quase não se via o negro do universo escondido sob o brilho intenso de tanta luz.
Do Chile, voltei para Porto Alegre. Fiquei cerca de um mês. Vendi meu carro e embarquei para Sidney, cidade australiana encantadora e aconchegante, apesar de seu tamanho. Uma metrópole cosmopolita com quase 3 milhões de habitantes.
Muitos destes, jovens de todas as partes do mundo que vêm para estudar e aprender um pouco mais sobre a cultura de um país com quase a mesma extensão que o Brasil, mas com apenas 19 milhões de habitantes.
Foi lá que me fixei. Aluguei casa, comprei carro, estudei e trabalhei com objetivo de reunir o dinheiro necessário para poder viajar. Depois de 2 meses entre trabalho pesado na construção civil e pilhas de louças lavadas num restaurante italiano, estava rumando para Bali, Indonésia.
O turismo é o carro chefe da economia balinesa. Hotéis luxuosos, restaurantes de cozinha internacional, milhares de turistas de todos os continentes do planeta e ondas de sonho são características dessa ilha quase 100% habitada por hindus.
Conheci as ilhas de Lombok e Sumbawa. Foi uma aventura indescritível. Tive que encontrar caminhos em terras onde a comunicação se fazia somente por mímica. Entrei com o carro em ferry-boats que ligam uma ilha a outra. Acompanhavam-me muçulmanos nada amistosos e vendedores ambulantes com comidas nada instigantes.
Depois de aproximadamente 45 dias viajando, fotografando, surfando e gastando pouco pela Indonésia, voltei para Sydney. Saí exatamente cinco dias antes do atentado terrorista que matou mais de 200 pessoas e destruiu a casa noturna Sari Club, local onde ia dançar e me divertir.
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De volta a Austrália, fiquei em Narrabeen, praia ao norte da cidade de Sydney. Durante os três meses seguintes, trabalhei numa fábrica que produzia peças de metais e plásticos. Sentia-me pouco como o Charlie Chaplin em ?Tempos Modernos?. Mas o que me movia era o espírito de aventura e o salário que me possibilitaram desembarcar, no início de dezembro, na ilha de Oahu.
O lugar mais famoso que o surf conhece é o lado norte dessa ilha, território dos EUA. Além da tradição histórica que o esporte tem por lá, a força e a beleza das ondas fazem com que milhares de surfistas a visitem durante a temporada de inverno no hemisfério norte.

Fiquei hospedado na pousada Green Forever, do amigo Rômulo Fonseca, que está no Hawaii há cerca de 8 anos. São em praias como Waimea, Pipeline, Sunset e Rocky Point que os fotógrafos do mundo inteiro têm a chance quase única de poder encontrar, ao mesmo tempo, ondas de qualidade e os melhores surfistas para clicar à vontade.
Fotografar num dia dentro d´água em Waimea, com ondas que chegavam aos 6 metros de altura, foi uma das experiências mais assustadoras, adrenalizantes e emocionantes que vivi.
Novamente era chegada a hora de retornar para Sydney. O dinheiro havia acabado. Depois de mais dois meses entre sacos de cimento e pratos para lavar, fui para o lado oeste do país dos cangurus, para Margareth River. Conhecida pela produção dos melhores vinhos da Austrália, a cidade tem 7 mil habitantes e é muito charmosa e acolhedora.
A cultura do surf é muito forte por essas bandas, tanto que uma brincadeira local diz que dos 7 mil habitantes de Margareth River, 6 mil são surfistas. Cheguei na época de uma etapa importante do circuito mundial de surf. Hospedei-me na casa de um salva- vidas, o Freddo, com os surfistas e amigos Rodrigo Dornelles, Teco Padaratz e Marcelo Nunes.
Foram 20 dias muito especiais. O ambiente simples e aconchegante que Freddo e sua família proporcionaram, permitiu matar um pouco da saudade de casa. De resto, conheci de perto uma das ondas mais fortes e perigosas do planeta: The Box. De Margareth voltei a Sydney por poucos dias e embarquei para o México.
Cheguei a Puerto Escondido em maio de 2003. Fui recebido por Lucas De Nardi e Bento Cuervo, amigos de Porto Alegre, e também por Coco Nogales, surfista profissional mexicano bastante conhecido.
Alguns dias depois chegaram os surfistas Rodrigo Dornelles, Werner Kinas e Rafael Becker. Puerto poderia equivaler ao Hawaii latino, se este existisse. Ondas tubulares, surfistas profissionais, fotógrafos do mundo todo e muitos locais para serem respeitados.
O calor é absurdo e nos obriga a ficar em casa entre meio dia e duas da tarde. A comida e as diversas pousadas à beira da praia são boas e baratas. O povo é receptivo. Fazer novas amizades não é nada difícil.
No dia da partida, sentei-me na cama e, como num filme, vi toda essa viagem projetada por preciosos minutos. Viajar é isso mesmo. A gente aprende, cresce, conhece lugares, pessoas e culturas. Mas a hora de voltar não é menos importante. É assim que resgatamos nossas raízes e podemos nos dar conta de como mudamos. De como podemos nos transformar em pessoas melhores e mais abertas para as coisas da vida e do mundo”.