O que esperar de um documentário focado em um só personagem, desconhecido do grande público, profissional de um esporte distante do ?mainstream??

 

Pois o filme ?Fábio Fabuloso? consegue a proeza de transcender estas limitações. Ele é interessante, fluído e divertido, mesmo para o público leigo em surf e pessoas que nunca tinham ouvido falar em Fábio Gouveia.

 

O filme utiliza a temática do nordeste, origem do nosso pacato herói, com criatividade e competência, validando o ditado ?Quem canta o seu quintal encanta o mundo?. A trajetória de Fábio o leva da Paraíba para o mundo, em um sucesso até então inédito para um brasileiro no circuito mundial de surf profissional.

 

Este caminho é trilhado por ele com simplicidade, sem descaracterizar sua origem. Nem o sucesso nem as ondas lhe sobem à cabeça, embora sejam ambos onipresentes na sua vida.

 

Fábio, assim, se constitui no protagonista ideal para dar charme e sustentação à narrativa. Uma hora de projeção passa praticamente incólume da estética narcisista, mesmo com o enfoque constante nas qualidades deste aventureiro forçado – seu desejo inicial era permanecer na Paraíba, com ?mãinha e painho?. Seria fácil, sob este ângulo, escorregar no piegas. 

 

Surpreendentemente, não é o que acontece. Ao contrário, seguindo um roteiro impecável, a vida de Fábio é contada de forma leve, em fragmentos que alternam os acontecimentos que o envolvem com suas realizações como surfista.

 

Algumas seqüências lembram o maravilhoso texto de Ariano Suassuna no filme ?O Auto da Compadecida?.

 

Durante o filme são mostradas entrevistas com personagens reais, alguns folclóricos, que dividiram a estrada com Fábio Gouveia. Ali estão seus pais, amigos de infância, e sua esposa Elka, companheira de todas as horas.

 

Ali também aparecem seus colegas gringos do circuito mundial de surf, que dão um colorido especial e tornam a história ainda mais consistente. Seus depoimentos são pontuados com graça e irreverência, consolidando na mente do espectador o clima vivencial do personagem.

 

A execução técnica casa bem as partes rodadas em 16 mm (com o burrico) com o resto do filme, praticamente todo realizado em vídeo. A direção escolhe um tom de alto diapasão para nos contar a saga, e vinga mantê-lo até o final.

 

A ambientação geral nos coloca, com perfeição, na vida de Fábio Gouveia. A combinação da trilha sonora, criada e executada com maestria, com a elaborada arte gráfica que acompanha a narrativa, nos remete a uma experiência sensorial muito agradável, prerrogativa essencial da arte cinematográfica.

 

O mundo do surf foi considerado, por muito tempo, uma cultura inferior. Fábio Fabuloso mostra o contrário, esbanjando substância e sofisticação. Isto é feito com simplicidade e ousadia. Simplicidade porque o roteiro explora magistralmente a figura de Fábio, que personifica este atributo. Ousadia porque, ao contar com candura a história de um menino tornado herói, o filme traz um tema universal, de esforço e superação. Dentro e fora d?água.

 

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