Fábio Gouveia muda de ares

Para apresentar o novo colaborador do Nordeste no Waves.Terra, o surfista paraibano Tony Vaz, publicamos uma entrevista feita por ele com o conterrâneo Fábio Gouveia, um dos representantes brasileiros no WCT.

 

Tony, atual vice-campeão paraibano Open e um dos precursores do surfe aéreo no Nordeste, que lhe valeu o apelido de Tony “Vazp”, é editor do site SurfCore, um dos principais veículos da região atualmente.

 

Nesta entrevista, Gouveia, de 33 anos, explica porque resolveu mudar-se para Florianópolis (SC), uma das maiores surf citys do Brasil, fala sobre os ataques de tubarões em Pernambuco e a atual situação do surfe profissional nordestino e mundial.

 

Porque você decidiu mudar para Recife depois de se profissionalizar?

 

Na época fui morar em Recife porque casei com uma pernambucana (Elka, esposa de Gouveia) e meus três filhos nasceram lá. Como já ia bastante a Pernambuco em busca de um surf melhor, resolvi mudar pra ter a vida facilitada. Tudo estava planejado e ia ser uma maravilha se não fossem os ataques de tubarões. Tinha surf de primeira na porta de casa (outside de fundo de pedras chamado Abrêus), mas depois dos ataques fiquei limitado ao litoral sul e sempre tinha que dirigir uma hora para surfar.

 

Você teve algum contato com tubarões por lá?

 

Os ataques começaram em 92, mas até 94 e 95 eram casos isolados. Ou pelo menos era o que eu achava. Até maio de 96 ainda surfei nos arrecifes de Candeias e Piedade, mas um surfista chamado Clélio Falcão perdeu um braço e parte do antebraço do outro, e desde então não surfei mais na cidade. Mesmo em Maracaípe fico grilado, mas ali não tem poluição e nenhum outro tipo de desequilibro ecológico, pelo menos por enquanto. Inclusive há muitos peixes e tartarugas. Já vi tubarões pequenos (os cações) duas vezes em Serrambi e outros surfistas sempre têm histórias do gênero.

 

Você já poderia ter ido morar em qualquer pico do Brasil há muito mais tempo. Quais as vantagens e desvantagens de morar em Recife?

 

A vantagem é que considerava minha casa também. Na real, o Nordeste inteiro era minha casa, pois sou “nordestino” de coração também, e como todo mundo no sul costuma juntar todos os nossos Estados para falar o nome da região como se fosse uma só, minha casa é o Nordeste inteiro… Recife também tem um fluxo aéreo muito bom e pra Europa, por exemplo, é rapidinho. Em seis ou sete horas estou em Portugal… Na época que fui morar em Recife, o surf estava bombando como nunca por lá, caminhado para ser o Estado mais organizado no esporte, mas infelizmente vieram os ataques de tubarões e tudo desandou…

 

Muitos surfistas estão indo morar em Floripa em busca de qualidade de vida e ondas boas. Desde quando você pensa nisso e o que o levou a tomar a decisão?

 

Sempre adorei Floripa e o que me fez mudar foi o fato de ter que estar sempre perdendo duas horas no dias para surfar. Estava com a agenda muito lotada em Recife por conta das viagens e duas horas pra mim valem ouro. Em Floripa vou poder estar mais relaxado com ondas praticamente na porta de casa. Outra coisa é que queria dar uma vida diferente para meus filhos para eles poderem aprender mais e mais. Eles poderão surfar a hora que quiserem depois das atividades escolares e eu também vou poder estar mais próximo deles nos intervalos das competições.

 

O Nordeste passa por um momento difícil nas competições, pois não temos nenhuma etapa do Super Trials e a do brasileiro foi pra Itacaré. Em Recife ficava sem competir por não ter competição profissional. Já em Floripa todos meus adversários estavam sempre treinando em circuitos regionais profissionais fortes e com premiações. Mudei também pra dar uma balançada na vida e acostumar mais com o frio visando etapas como Bell’s Beach, na Austrália, e Jeffrey’s Bay, na África do Sul. Enfim, mudei em nome de minha evolução e espero me dar bem nesta nova empreitada. Mas isso não quer dizer que abandonarei minha terra, pois nas férias estarei por lá com certeza. A partir de agora serei mais um embaixador nordestino no sul.

 

Qual será sua rotina diária em Floripa?

 

Atividades físicas como a Power Yoga aliada a natação. Outras coisas irão rolar a partir de minha permanência, mas o principal será o surfe mais constante.

Falando de WCT, você terminou em 35º no ranking final de 2002, seu segundo pior ano no circuito. O que faltou para uma melhor colocação?

 

Pôxa, entreguei baterias ganhas em duas oportunidades e quando vinha muito bem no evento de Portugal, o pessoal paralisou o evento nas oitavas-de-final por falta de ondas. Já no Hawaii, quebrei a o copinho da prancha em Sunset e passei a bateria inteira só nadando. Em Pipeline, foram disputas de quatro surfistas e isso me prejudicou por causa da disputa por ondas no pico. No geral, achei que surfei melhor do que minha colocação representou, mas espero recuperar geral neste ano.

 

Você perdeu a fama de merrequeiro e hoje é considerado um surfista completo, mas sei que é difícil vencer o medo e ficar totalmente tranqüilo. Como é viajar para uma etapa em Pipeline, com período de espera, e saber que talvez irá competir em ondas acima de 10 pés?

 

A adrenalina fica a milhão e pode ter a certeza que algum dia os 10 pés rolarão. Por isso, tem que ir para o Hawaii desde cedo, pois o futuro é só ondão. Cada vez mais os surfistas de ondas pequenas irão ter menos chances no WCT em virtude de períodos de espera em mares de potencial. São vários eventos adrenalizantes e Teahupoo é um deles. Este, além do mar casca-grossa, tem o perrengue que é ter que ficar esperando a bateria dentro de um barco como mais de 30 embarcações por perto. É um cheiro de óleo infernal e quem enjoa tá ferrado…

Falando de internet, você é o competidor mais ligado nessa onda, inclusive possui um site irado com informações atualizadas com fotos das etapas do mundial. Quando surgiu essa idéia e como funciona o esquema das atualizações?

 

Entrei nessa onda por causa do Renan Rocha, que havia montado o Gzero. Então comecei a me comunicar com as pessoas sempre relatando como estavam as coisas no circuito para os amigos. Escrever foi apenas um passo. Comecei escrevendo colunas pro Gzero, mas logo peguei gosto e não parei mais. Depois me viciei e passei a fazer campeonato, free-surf e tudo mais.

 

As colunas ficaram um pouco de lado porque fiquei sem tempo de fazer atualizações e colunas… Me amarro em fotografia, por isso sempre mando muitas fotos. Meus equipamentos não são bons e não ganho nenhum dinheiro ainda com o site, mas tô aprendendo e no futuro pode ser que seja um outro trabalho a ser feito paralelo ao surf. Tenho muitos projetos, mas espero um retorno maior para poder me dedicar mais, pois gasto muito mais para fazer as paradas do que recebo de volta.

 

Ano passado não houve nenhum evento no Nordeste do Super Trials e somente uma etapa do Super Surf na Bahia. Como você analisa a atual situação que a região passa atualmente?

 

Eu acho que é tudo um ciclo, pois já tivemos vários altos e baixos… Espero que em breve a região retorne a ativa, porque do jeito que está, muitos talentos estão ficando pra trás. O pessoal envolvido no esporte tem que se reunir e discutir o assunto, pois no futuro próximo não só os surfistas vão sentir na pele as dificuldades, mas sim toda a indústria do ramo.

 

Para encerrar, quais são os planos para 2003?

 

Os planos já estão acontecendo, pois estou morando em Florianópolis, onde pretendo evoluir e tenho certeza que essa mudança irá me dar mais garra. Focalizarei mais uma vez o WCT e correrei também as etapas que puder do Circuito

Brasileiro. Estando no Sul, vou poder correr alguns Super Trials, coisa que não fiz desde a criação deste novo circuito. Deixo aqui um feliz 2003 pra todo mundo.

 

Para ler a entrevista na íntegra, acesse Surfcore.com.br .

 

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