Tri-quad

Evolução passa pelas quilhas

Henry Lelot marca a posição das quilhas em mais um foguete. Foto: Arquivo Pessoal.

Kelly Slater revoluciona o World Tour com o uso das quadriquilhas. Foto: Aleko Stergiou.

O ato de deslizar sobre as ondas em uma prancha de madeira teve origem no Oeste da Polinésia há cerca de três mil anos. As pranchas não possuíam quilhas e a única forma de direcioná-las era esticar os pés e mergulhá-los na água.

 

Mas os antigos havaianos não se preocupavam com manobras, bastava a satisfação de se manter em pé na prancha em linha reta, enquanto as ondas os levavam até a praia.

 

Em 1934, Tom Blake, criador das pranchas ocas entre vários outros inventos, buscando encontrar uma forma de melhor controlar a direção de sua prancha, instalou nela um estabilizador, com base larga (12 polegadas) e pouca profundidade (4 polegadas), que se tornou o primeiro conceito de quilha: Nascia a Single Fin. 

O design das quilhas evoluiu desde então para as formas atuais, por meio de shapers muito influentes em suas épocas como Bob Simmons, George Greenough e Bob Mc Tavish, responsável pela introdução das quilhas em pranchas menores e mais leves, feitas em fibra de vidro, que então chegavam ao mercado.

Foram décadas de hegemonia das monoquilhas (single fin) até que, no início dos anos 70, o shaper californiano Steve Liz lançou as revolucionárias Fish, com suas twin fins, design que se tornou muito popular na época.

Anos depois, o surfista e shaper australiano Mark Richards fez alguns ajustes no design da Fish e, com suas biquilhas (twin fins), venceu quatro títulos mundiais consecutivos (1979 a 1982), mudando para sempre a direção do surf moderno.

Em 1980, o também surfista e shaper australiano Simon Anderson venceu duas etapas seguidas do circuito mundial com um modelo de prancha totalmente diferente, que possuía três quilhas de tamanho igual.

Eram as primeiras “Thrusters”, que permitiam uma linha de surf mais radical e jogavam mais água nas manobras, mudando os rumos do surf moderno e que predominam no mercado até os dias de hoje.

 

Mas não podemos deixar de mencionar as populares Bonzer, design original das tri fins, criadas pelos irmos Campbell em 1970 – uma single fin com dois (ou quatro) estabilizadores laterais.

 

Também no início dos anos 80, o surfista e shaper australiano Glenn Winton (Mr. X), quase conquistou o título mundial com um novo design: eram as four fins (quad) que, depois de anos de ausência no mercado em função da hegemonia das triquilhas, estão retornando ano a ano, cada vez com mais solidez.

 

Prova disso é a popularização do sistema tri-quad, que permite a prancha funcionar como thruster ou quad, de acordo com a conveniência do surfista. Os shapers precursores do novo sistema são o australiano Bruce McKee e o próprio Glenn Winton, que acaba de lançar a STEG, um novo modelo de prancha, desta vez com seis quilhas, recentemente testado por Jordy Smith que pode ser conferido no vídeo Jordy Smith on 6 fin surfboard.

 

Na época das single fins havia as caixas de quilha, que permitiam posicionar a quilha mais para frente ou para trás, de acordo com o estilo de surf, tipo e tamanho das ondas.

 

Já nas últimas décadas, muitos sistemas de quilhas de encaixe têm sido lançados no mercado, que permitem todo tipo de ajustes e com inúmeros modelos assinados pelos melhores shapers e testados por grandes surfistas, destacando-se o pioneiro sistema FCS, que continua sendo o mais utilizado em todo o mundo.

Novos materiais vem sendo utilizados, como o coremate foam – que torna as quilhas mais leves – além do carbono e o composite. Estes materiais têm sido combinados entre si e também com a fibra de vidro, na busca por maior impulsão (projeção) e consequentemente, velocidade.

Mas a tradicional fibra de que continua a ser considerada o material com melhor padrão de flexibilidade para o surf de alta performance. Prova disso, é o fato das quilhas fixas (glass on) ainda serem preferência entre os atletas que correm o World Tour.     

Em termos de funcionamento, uma single fin proporciona manobras maior aderência, porém a prancha necessita usar mais espaço para as manobras. Atualmente é usada em longboards, e alguns modelos da linha Fun, proporcionando manobras clássicas e “nose riding” mais prolongado, em função da maior profundidade da quilha, que garante o drive e evita desgarrar a rabeta.

Já uma twin fin é mais comumente encontrada em modelos Retrô (old school) para ondas pequenas. Proporciona maior agilidade na troca de bordas, possui porém, menos drive (direção), ocasionando manobras menos potentes (joga menos água). Não tem boa capacidade de pivot, ficando com drive insuficiente para ondas maiores e mais fortes.

A triquilha ainda é o sistema usado na grande maioria das pranchas produzidas em todo o mundo. Proporciona maior direção e velocidade, garante maior inversão da direção da prancha e joga mais água nas manobras. É solta e segura ao mesmo tempo, tanto em ondas menores, quanto maiores. Realmente não é por acaso que continua a prevalecer no mercado depois de quase 30 anos de seu lançamento.

A quad tem se revelado uma ótima opção para alta performance. Ela passa as sessões cheias da onda com maior facilidade e poucos movimentos, proporcionando uma linha de surf mais limpa, como pede o surf moderno.

Em ondas bem fracas também é uma excelente opção pelo mesmo motivo. Em ondas ocas e rápidas também conta com excelente performance, passando as sessões com segurança e velocidade. Tem sido testada por inúmeros shapers e seu potencial de desenvolvimento é considerado muito grande. A opção tri-quad é bastante interessante e vem ganhando mercado porque torna a prancha realmente mais versátil.

Henry Lelot trabalha profissionalmente na área há mais de 15 anos e é considerado um dos maiores shapers do Brasil. Para obter mais informações sobre seu trabalho, acesse o site HLelot.

 

Continua…

 

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