Eu conheci o paraíso

Ela tem apenas 18 anos, mas já carrega uma bagagem de experiências que muita gente não tem.

 

Maya Gabeira é filha de Fernando Gabeira, deputado federal conhecido por sua ideologia ambientalista e combate à ditadura a partir dos anos 60.

 

Maya também traz no sangue essa dose de responsabilidade pelos próprios atos. É decidida, dedicada e, agora, mais do que nunca, confiante, pois resolveu largar a boa vida de filha de deputado para enfrentar a difícil e tão sonhada vida de free-surfer.

 

Assim, decidiu ver o mundo como ele é. Enquanto todos fugiam da Indonésia, abalada pela fúria de um tsunami, terremoto e atentados, lá ficou por seis meses, aprendendo, convivendo e usando o que aprendeu com o pai: respeito ao próximo e à natureza.

E na busca pela onda perfeita, não só pensou no prazer, mas também em aprender a conviver com o que o planeta nos oferece. Maya saiu do Brasil há cerca de um ano, com o objetivo de surfar as melhores ondas. E o primeiro destino da jornada foi o Hawaii, meca do surfe mundial.

 

A estreante, que aprendeu a nadar apenas dois meses antes da tão esperada viagem, fez bonito, dropando ondas de respeito.

 

Logo ao chegou na ilha decidiu trabalhar para juntar um dinheiro e voar pra Austrália, lugar em que “descobriu” a paixão pelo surfe aos 15 anos, durante um intercâmbio.

 

Na Austrália, mais uma vez um novo plano surgiu: trabalhar três meses e juntar uma grana para, quando completasse 18 anos, partir para mais um vôo, desta vez pra Indonésia, onde pretendia ficar o máximo de tempo que conseguisse, sabendo que a tarefa não seria fácil.
 
Quando chegou, a primeira impressão foi estranha, era começo de temporada e ainda não havia quase ninguém. Mas ela estava lá, sozinha, em busca de um sonho, sem nenhuma previsão do que poderia acontecer. Ali Maya começou a viver uma verdadeira aventura.
 
Sem dinheiro, teve que contar com a ajuda do pai às pressas e explicar para família o que estava acontecendo. O que foi muito difícil, pois até então seus pais não tinham a mínima idéia dos riscos que Maya corria, e nem em que situação ela se encontrava.

 

Assustados, pediram pra ela voltar, pois mesmo sendo pais muito liberais, aquilo já era demais. Mas àquela altura já não havia o que ser feito, Maya tinha descoberto a perfeição e de lá não sairia tão fácil, estava encantada e impressionada com a realidade – que poucos dias antes era apenas um sonho. ?Até hoje meus pais não sabem o que aconteceu realmente durante estes seis meses?.

 

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Muitas vezes ela teve que viajar de Bali para locais como Sumatra e Malásia, onde predomina a religião mulçumana, e foi obrigada a andar coberta, em respeito à cultura local.

 

 

Tudo isso foi um choque cultural muito marcante, a comunicação com o povo local muitas vezes era feita através de mímica.

 

 

Maya chegou a ficar mais de sete dias sem contato com a língua inglesa ou portuguesa. ?Esses sete dias foram uma eternidade, parecia que eu estava em outro mundo?, diz ela.

 

 

Com vários cortes pelo corpo e um acidente que lhe rendeu cinco pontos na cabeça, teve sorte de encontrar um médico que estava em um dos “shark boats” ancorados por perto. Logo depois do acidente ela teve um início de convulsão, por conta de uma super dosagem de morfina.

 

Em seguida, teve uma infecção e passou por um mais um momento de superação, pois na hora não tinha como ir para o hospital, uma tempestade impediu os barcos de saírem da ilha.

 

Mesmo assim, Maya descobriu que era forte e passou por mais essa fase, e lá estava ela no mar novamente, aperfeiçoando o surfe, se conhecendo e crescendo cada vez mais.
 
Ao relatar o melhor momento da jornada, Maya conta que a sensação de estar no mar com ondas perfeitas, água cristalina, com vista para o paraíso, não tem preço. Já o pior momento foi quando ela abriu a cabeça, além do fato de acordar todo dia com medo de um novo tsunami.

 

?Foi muito triste ver tantos lugares destruídos e saber que um paraíso como aquele corre risco de ser detonado por um homem-bomba, atentados terroristas e pela própria fúria da natureza?, lamenta.

 

Com todo esse preparo, Maya agora diz estar pronta para concretizar de vez seu objetivo e, no tempo em que esteve fora, a solidão a fez descobrir o quanto o surfe a completa. Voltou para a Austrália apenas para buscar sua mala, que estava completamente mofada depois de tanto tempo guardada.

 

De volta ao Brasil, Maya chegou feliz e completa para enfrentar outra batalha: tentar um patrocínio de free-surfer e conhecer outros lugares e culturas, com ondas perfeitas e, principalmente, sem medo de botar para baixo.

 

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