Tecnologia Waves

Previsão Águas Rasas

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Itacoatiara, no litoral fluminense, em um dia clássico: se no passado a graça era a expectativa de ser surpreendido com essa visão, hoje foi superada pela possibilidade de se programar com antecedência. Foto: André Cyriaco

Denys Sarmanho da Silva, 46 anos, acorda às 6 horas, enxagua o rosto, escova os dentes e monta sobre sua motocicleta antes de tomar o café da manhã. Com chuva ou sol, ele percorre os 13 quilômetros que separam sua casa no município de Salinópolis, no Pará, das praias do Atalaia e do Farol Velho, quase na divisa com o Maranhão. Denys estaciona, mira os olhos no oceano, sente a brisa salgada bater no rosto, saca sua câmera, espera a série entrar e fotografa. “Clap, clap, clap.” O processo dura 20 minutos. Em seguida, ele volta à sua casa, edita as fotos e alimenta o boletim de ondas reservado às praias paraenses no Wavescheck. “Sinto que estou sendo útil. Sempre há alguém precisando dessas informações”, diz ele. “Procuro passar informações úteis como usar protetor, lycra, tomar cuidado com as correntezas e os animais marinhos, águas vivas, caravelas…” 

Como Denys, o Wavescheck mantém 61 colaboradores que, todas as manhãs, registram as condições do mar em mais de 160 picos espalhados pelo Brasil. Cada um tem sua história para contar. Há gente como George Kretzer, que chegou a ser ameaçado por locais mais de uma vez ao fotografar as ondas em Bombinhas, Santa Catarina, e hoje usa outro nome para fugir do localismo ao assinar o boletim. Ou Silvia Winik, responsável por atualizar as informações do Guarujá, em São Paulo. Fotógrafa e cinegrafista formada em Ecologia, ela pedala 10 quilômetros e fotografa sete picos de terça a domingo, minutos depois de o sol nascer. “Espero a série, analiso a direção do vento e da ondulação, fotógrafo e depois vou para o computador postar as fotos e escrever o boletim das ondas”, conta ela. “Muitas coisas bizarras acontecem pela manhã, enquanto trabalho a galera ainda está na balada”, diz Silvia, que já foi perseguida por assaltantes e obrigada a procurar abrigo nas portarias dos prédios da orla. “Andar pelo Guarujá com uma câmera fotográfica é perigoso, tenho que estar sempre atenta. Várias vezes fui seguida por gente de olho no meu equipamento”, diz. “Este ano fui atropelada enquanto pedalava, voei alto, foi um grande susto, mas não quebrei nenhum osso.”

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“No Brasil temos colaboradores desde caiçaras natos até shapers, donos de pequenas lojas”, explica o coordenador-geral do Wavescheck Herbert Passos Neto. Foto: André Martins

Denys, George e Silvia representam o esforço dos colaboradores do Wavescheck responsáveis pelo “report”, serviço que complementa a previsão das ondas com fotos e textos. Conferir o material que eles produzem dá a noção exata de como está o mar pela manhã. “O trabalho deles é fotografar os picos, listar as condições de tamanho, direção e formação das ondas, direção e intensidade do vento, temperatura da água e tempo”, afirma Herbert Passos Neto, coordenador-geral do Wavescheck. “O perfil para o serviço é o cara que curte acordar cedo, mas curte de verdade, pois quem acorda por obrigação não aguenta a rotina, pede para sair em poucos meses. Alguns são instrutores de surf, outros são comerciantes. No litoral norte de São Paulo, por exemplo, a rotina é mais tranquila, mais estilo caiçara vida mansa. No Brasil, de uma forma geral, temos desde caiçaras natos até shapers, donos de pequenas lojas, pousadas. Em Santa Catarina, o que mais chama a atenção são relatos de localismo, ameaças de morte. Vários picos perderam cobertura por causa disso.” 

Para ir além das fotos e textos e saber como as ondas vão se comportar durante o dia inteiro ou a semana, no entanto, é preciso consultar os gráficos. Criado no fim dos anos 1990, o Wavescheck atualmente é o único canal de previsão de ondas do Brasil que conta com um sistema próprio e eficiente para definir o tamanho exato das valas: o modelo de águas rasas. Desenvolvido em 2007, o sistema de previsão – que atualmente só é utilizado por sites norte-americanos e universidades europeias, como o Surfline e a Delft University of Technology, da Holanda – teve sua estreia em 2012. Mas qual a diferença desse sistema para os demais existentes no Brasil?

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O meteorologista Guilherme Hammes, o cérebro por trás do sistema de águas rasas. Foto: Rodrigo Ormond

O meteorologista catarinense Guilherme Hammes, responsável pela tecnologia do Wavescheck, explica: “O modelo de águas rasas é uma representação virtual do oceano no momento em que as ondas chegam à plataforma continental e começam a ‘sentir’ o fundo do mar. Sua função é pegar os dados de ondas distantes da costa e calcular as mudanças até as praias”, afirma. “Outros sites brasileiros e a maioria dos globais só mostram as ondulações em águas profundas, onde as ondas se comportam de uma forma totalmente diferente. Lá fora pode ter 3 metros, mas até chegar às praias há muitos fatores a serem considerados para saber se haverá séries desse tamanho ou se as ondas mal alcançarão 1 metro. Essa onda pode diminuir, aumentar, mudar de direção ou até mesmo ser bloqueada por uma ilha ou costão. Na previsão de águas rasas do Wavescheck, todos esses processos são considerados.” 

Segundo Guilherme, um dos principais fatores que influenciam o tamanho das ondas é a profundidade. “A distância entre a superfície e o fundo altera várias características da onda, como velocidade, direção, comprimento e altura”, afirma o meteorologista. Somente um modelo de águas rasas pode prever exatamente como as ondas vão se comportar ao chegar em à costa. Diz Guilherme: “Esses modelos de águas rasas surgiram da necessidade de se ter informações sobre o mar perto da costa, em profundidades de cerca de 150 metros. Isso surgiu para auxiliar em projetos de obras costeiras, portuárias, da indústria naval, prevenção de desastres, entre outros. E atividades de lazer como mergulho, pesca e surf acabaram se beneficiando com esses avanços da ciência”.

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Visão tridimensional do Google Earth, mostra como a ondulação incide na costa. Foto: Reprodução

Atualmente, o modelo de águas rasas do Wavescheck funciona no Ceará, em Fernando de Noronha, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Paraná. “A maior dificuldade para a implantação do modelo nos estados é a falta de informações sobre a costa brasileira”, avisa Guilherme. “O modelo depende do mapeamento das profundidades próximas à costa, junto às praias, e não é fácil encontrar essas informações em todos os estados.” 

No Brasil, a coleta desse tipo de dado é feita pela Marinha – que utiliza navios equipados com aparelhos que realizam a “sondagem batimétrica”, ou seja, mapeiam o relevo do fundo do mar perto da costa. Nem sempre os númer os são atualizados, diz Guilherme. “Para fazer esse tipo de mapeamento das profundidades são necessários embarcações e equipamentos próprios, além de muito trabalho, o que torna esse tipo de serviço caro”, afirma. “No Brasil ainda não há tanto investimento em estudos e pesquisas desse tipo como em países da América do Norte e Europa.”

COMO FUNCIONA?

1 – A maioria das ondas é gerada pela ação dos ventos;

2 – Depois que foram geradas, elas se propagam por longas distâncias;

3 – Quando se aproximam da costa, as ondas começam a se alterar de acordo com o fundo do mar;

4 – A distância entre a superfície e o fundo altera várias características da onda, como velocidade, direção, comprimento e altura;

5 – A onda começa a sofrer alterações quando atinge a profundidade correspondente à metade do seu comprimento;

6 – O modelo de águas rasas é capaz de representar os processos físicos que ocorrem em profundidades menores, dando ao surfista a noção exata do tamanho das ondas que ele vai encontrar na praia.

A ORIGEM DAS ONDAS
Você já par ou para pensar em como surge uma onda? A resposta mais apropriada para esta pergunta está no ar. Isso mesmo: a maioria das ondas é gerada pela ação dos ventos – e uma minoria pela ação de terremotos, mais comuns nos oceanos Pacífico e Índico. Quando uma grande massa de ar sopra de maneira contínua e por longas distâncias no oceano, a massa de água na superfície ganha velocidade e direção, deslocando-se até chegar às praias. Guilherme explica como traduzir isso para a internet:

“Para representar o nascimento dessas ondas, precisamos ter resumidamente duas coisas: todos os oceanos do planeta representados nesse mundo virtual e o vento que vai interagir com esses oceanos. Depois que essas ondas foram geradas, elas se propagam, muitas vezes atravessando oceanos. Quando se aproximam da costa, as ondas começam a se alterar devido ao fundo. 

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A praia de Maresias, no litoral paulista, é uma das mais procuradas pelos surfistas do estado. Foto: Sebastian Rojas

É aí que o modelo de águas rasas entra em ação, pois ele é capaz de representar esses processos físicos que ocorrem em profundidades menores, dando ao surfista a noção exata do tamanho das ondas que ele vai encontrar”. 

Se você pretende se aprofundar nessa ciência, Guilherme dá detalhes específicos. “A profundidade em que cada onda começa a ‘sentir o fundo’ depende do comprimento dessa onda em águas profundas. A onda começa a sofrer alterações quando atinge a profundidade correspondente à metade do seu comprimento. Por exemplo, uma onda com 15 segundos de período (intervalo de tempo entre duas ondas consecutivas), que possui 351 metros de comprimento, começa a sentir o fundo quando a profundidade atinge metade desse valor, isto é, 176 metros. O modelo de águas rasas tem como foco representar todos esses processos físicos que a onda sofre devido ao fundo do mar perto da costa.” Quando chega à praia, a onda perde comprimento e velocidade, ganha altura, e quebra no momento em que essa altura atinge aproximadamente 70% da profundidade, transformando-se na parede que surfamos.Guilherme dá um exemplo: “Uma onda de 2 metros começará a quebrar quando estiver em aproximadamente 2,6 metros de profundidade”.

O FUTURO DAS PREVISÕES
Em 2000, o site Waves já era líder de audiência. Os boletins diários do Wavescheck listavam as condições de mais de 100 picos do Brasil. A cobertura foi ampliada depois de uma parceria com o professor Eloi Melo, mestre em Engenharia Oceânica pela Coppe – UFRJ e ph.D. em Ciências Oceânicas pela Universidade da Califórnia. Atual responsável pelo Wavescheck, Guilherme pertenceu por algum tempo à equipe do professor Eloi e comandou a implantação do modelo de águas rasas no Brasil.  

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Modelo computadorizado do sistema de águas rasas do Waves: prever é preciso. Foto: Reprodução


Parece muito, mas não é tudo. O meteorologista agora trabalha em novas tecnologias que, em um futuro próximo, poderão oferecer informações precisas sobre a qualidade das ondas e a influência de ventos e marés em sua formação. “Estamos trabalhando em um gráfico que indica a ‘surfabilidade’”, diz Guilherme. “A ideia agora é tentar criar uma escala sobre a qualidade das ondas, e não só for necer a altura. Esse gráfico de ‘surfabilidade’ é algo inédito no Brasil.” Se depender da equipe que toma conta do projeto, até 2015 teremos novidades. Quanto antes, melhor.

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