Na seca de ondas de mais um verão em sampa, me peguei surfando na internet. Dei de cara com a notícia de elefantes em fúria atacando carros no Sri Lanka.
Uma luz poderosa e nostálgica acendeu no meu cerebelo ainda luminoso e dançando em frenesi com as imagens de um passado não tão distante (considerando a relatividade dos médios 80 anos de uma existência humana).
Aí não teve jeito: me vi, mais uma vez, na trip de 1981 para o Sri Lanka, sítio ainda hoje remoto; na época, simplesmente desconhecido.
O mês era maio e eu tinha ido parar no Sri Lanka por puro instinto animal. Não havia notícias de nada por lá. Civilização? Canibais? Incesto? Rubis e safiras? Em Bali eu soubera que o lugar era “como Bali, 30 anos atrás”!, ou seja, 1951.
Fiquei curioso para conhecer um lugar como Bali antes do meu nascimento, ainda intocado por excesso de ?civilização?, e logo me deu aquele familiar sentimento de devaneio peculiar, quando a vista fica embaçada, o coração flutua em direção a uma imagem que você nunca viu, e o pensamento racional ?descompleta?, como diria o poeta Manoel de Barros.
Baixou em mim a alma do Peregrino. Eu tinha que ir. Deu coceira no estômago e nos calcanhares e eu peguei o primeiro vôo para Colombo. Logo na entrada da cabine do avião senti aquele cheiro azedo de pés mal lavados e couros cabeludos sem contato recente com o meio líquido.
Um sutil aroma de incenso dava uma disfarçada, mas não resolvia. Desconversei com o meu olfato, tentando distraí-lo, ao mesmo tempo em que observei uma única cabeleira loira num manancial de turbantes. Sentei ao lado da figura: Greg. Australiano, surfista (claro, em se tratando de um australiano, é uma informação redundante), marceneiro seis meses por ano, viajante nos outros seis. Coisas de primeiro mundo.
Combinamos que enfrentaríamos o desconhecido juntos, cuidando para minimizar os riscos de explorar um lugar totalmente desconhecido. Estávamos investindo no aumento da nossa chance de sobrevivência. Enquanto um ia ao banheiro o outro ficava com as mochilas, o meu violão e as pranchas; enquanto um ia trocar dólares o outro observava movimentos suspeitos com atenção; enquanto um vomitava o jantar do dia anterior o outro observava atentamente olhares furtivos ou ameaçadores.
Colombo não era o paraíso, com suas ruas sujas e hotéis baratos, mas talvez fosse apenas a porta do paraíso. E escondesse, sob uma aparência decadente, um conteúdo mágico. Dormimos num ?hotel? com o chão mais sujo que eu tinha visto até então, o que não é pouco considerando que eu já perambulava pela Ásia havia três meses, e acordamos no dia seguinte com a simples sensação de que deveríamos partir imediatamente.
Colocamos o pé na rua de terra e, como por encanto, Charlie, o ?Salvador?, surgiu na nossa frente balançando a cabeça lentamente, naquele típico cacoete local que parece dar ritmo à raça e faz pouco do nosso ?tempo ocidental?. Como vocês já devem ter percebido, já estávamos de saco cheio de Colombo. Agarramos-nos com amor à informação de que havia surf no outro lado da ilha nessa época do ano. Pegamos o táxi do Charlie para Porthuvil, cidadezinha ao lado de Ulé, o pico, em Arugan Bay, a nove horas dali, no seu Fordeco 59 (ou seja, apenas oito anos de idade).
Viajamos acompanhados do seu amigo sem nome, quietão, de turbante marrom, estático no banco da frente. Atravessamos o país, subimos a cordilheira que o divide ao meio e onde dizem habitar a árvore mais antiga do planeta, com raízes que alcançam o centro da Terra. Buda andou por aqui, marcou com seus pés descalços as trilhas sagradas.
Iluminou-se à sombra da árvore sagrada, transcendeu e juntou Espaço e Tempo numa só percepção. Do outro lado, uma planície imensa seguida de um pântano se esparramou assim que chegamos ao cume da montanha mais alta. Já estava escuro quando a luz mambembe do carro bateu na bunda imensa de um elefante bem no meio da estrada, já a meio caminho no pântano. Gregg e eu achamos graça. Charlie e seu amigo, não.
Olharam apavorado um para o outro, desligaram o motor e as luzes com cuidado e começaram a subir as janelas apressadamente. ?Qual o problema, my friend??, indaguei. ?One elephant is no good!?, disse com os pequenos olhos assustadoramente esbugalhados. ?Tá certo! E de que adianta fechar as janelas? Você acha que um elefante deste tamanho não passa por ela com um pequeno tapa da sua trombaça??, perguntei com aquele sarcasmo que por vezes é primo-irmão da ignorância.
Charlie teve a paciência de explicar que os elefantes costumam andar em bando, e não é natural que sejam vistos sozinhos. Nestes casos raros, ou estão velhos a caminho do cemitério da família, ou estão loucos. Em qualquer dos dois casos são perigosíssimos, detestam cheiro de gente (daí a janela fechada ? e imediatamente não os culpei, lembrando dos odores da cabine da Sri Lanka Airlines), e não foram raros os casos de carros serem atacados por eles, quando chutam, sentam em cima (êpa!) e matam todos lá dentro (olha aí o flash-back!).
Desta vez quem se olhou assustado fomos eu e o Gregg. ?Deixa, cara, se esse elefante vier pra cima nós tiramos as pranchas do rack do carro e saímos remando um para cada lado neste pântano!?. Felizmente não foi necessário. Depois de mais ou menos uma hora parados, acendemos os faróis e pudemos ver o enorme paquiderme, lá longe, saindo da estrada e entrando á direita no pântano até a cinturinha. Soltamos o ar todos ao mesmo tempo e seguimos para Ulé, já tava mais que na hora de ver uma ondulação! No dia seguinte fomos presenteados com 6 pés perfeitos escorrendo pela bancada de direita, paralela à praia, e morrendo na imensa baía de Arugan.
É impressionante que, 26 anos depois, uma manchete venha confirmar as informações do Charlie naquela nevoenta noite de maio de 1981. Prova de que o mundo mudou, mas os elefantes loucos do Sri Lanka não.
Aparentemente, sentar em carros com seres humanos dentro continua ser o seu esporte preferido. Mais uma fatia da panqueca de mel do tempo foi colocada no prato. Num mundo de valores efêmeros, pelo menos os elefantes do Sri Lanka continuam respeitando a tradição de atacar a sua versão dos moinhos de Don Quixote.