
Você pode imaginar como era o estilo dos primeiros tenistas?
E o nosso popular futebol, como era diferente! Nada se parecia com as jogadas de nossos Ronaldos.
Em todos os esportes, os equipamentos também evoluíram e transformaram a performance dos atletas.
No surfe não foi diferente. No início dos anos 60, a modalidade surgia como um novo esporte no Brasil e lá estavam elas: Fernanda Guerra, Heliana Oliveira e Maria Helena Figueiredo, hoje Beltrão.
Até pouco tempo atrás, eu nada sabia sobre

elas. Como pode?
Graças a um campeonato na Barra da Tijuca, fui apresentada a essas bravas pioneiras. E num bate papo muito gostoso pude saber mais sobre a história do surfe feminino no Brasil.
Elas tinham entre 13 e 14 anos quando começaram a surfar. Fernanda começou primeiro e, como era colega de Maria Helena, levava a amiga e emprestava sua prancha.
Heliana também iniciou na mesma época. Outros nomes foram lembrados como: Cristina Bastos, Soledá, Tânia Bahia e Karen.
O surf estava começando, não havia referência

ou ídolos. Não havia nada, nem manobras. As revistas demoravam para chegar. A TV, que hoje mostra tudo, estava surgindo. Sendo assim, não se sabia o que acontecia fora do Brasil.
“O surfe só evoluía quando vinha alguém legal de fora, como peruano Xavier, que veio ao Rio. Aí, todo mundo melhorou horrores, pois ele mostrou coisas novas”, recorda Maria Helena.
Os campeonatos eram raros e elas se revezavam na conquista dos títulos. “As pranchas, de madeira não possuíam a medição atual, como 9’3, 9’0. Ninguém media, mas devia ter uns três metros. O Arpoador era a praia do surfe e, quando o mar ficava muito grande ou de ressaca, havia onda no Posto 6”, conta Fernanda.

Um dos acontecimentos marcantes ocorreu durante um treino na praia da Macumba. Ir até lá já era uma aventura.
A estrada era de areia e só dava para passar de jeep. Não existia rack para as pranchas e tudo ia amarrado de qualquer jeito. O tempo de viagem variava entre uma hora e meia ou duas e todo mundo levava comida.
Para completar a situação, a mãe da Fernanda tinha que ir junto, pois não ficava bem uma menina ir até lá com o namorado sozinha.
“Neste dia a Claudia Cardinalli, famosa atriz

internacional da época, estava filmando na praia. Surfamos durante muito tempo. Quando saímos da água vimos que eles estavam nos filmando e logo vieram conversar. A Claudia queria saber quem éramos e o que estávamos fazendo. Eles nunca tinham visto alguém surfando. Foi engraçado, pois a famosa era ela e nesse momento ela quis saber de nós”, diz Fernanda.
Fernanda ainda conta que certa vez, andando pela rua com sua enorme prancha, foi surpreendida por um operário que perguntou: “E aí garota, onde você vai com essa jangada?”.
Perguntei então se o surfe ainda mexia com elas e se ainda existia aquele espírito de antes.

Heliana logo pulou: “Comigo, com certeza. Tanto é que eu parei 30 anos e agora consegui voltar. Eu fui embora do Brasil, fiquei 20 anos fora e quando voltei tinha vontade de surfar, de voltar, mas não tinha coragem. Estava fora de forma, mais gorda. Mas, aquela vontade sempre estava ali me chamando. Conhecia a Cris Stockler, pois nadávamos no Flamengo, e ela sabia que eu pegava onda e vivia me pilhando. Dizia a ela que não sabia se conseguiria. Até que surgiu a clínica da Andréa Lopes e eu achei uma boa oportunidade. Hoje estou de volta”, conta orgulhosa.
“Se não voltasse, seria uma pessoa totalmente frustrada. Quando estou na clínica de surfe, me sinto igual a todas as meninas, como se tivesse

a idade delas. Essa é prova de que o surfe está até hoje em mim”, afirma Heliana.
E Maria Helena completa com a sua história:
“Só parei quando nasceu minha primeira filha. Eu ia para a praia com ela, olhava os caras surfando e chorava. Não queria deixar minha filha com ninguém. Então, parei com surfe. Há alguns anos, encontrei um amigo no Arpoador. Ele estava saindo da água e disse que queria me ver surfando. Peguei três ondas bem legais e fui trabalhar de cabeça feita. O melhor de tudo é que meus filhos nunca tinham me visto pegar onda”.
Brigitte Mayer não resistiu. Uniu-se ao grupo e quis saber o que elas sentiam, ao ver em um campeonato com mais de 100 meninas

participando.
Maria Helena disse ter ficado impressionada ao ver as meninas no campeonato em Ipanema. “Como elas estão evoluídas! Desciam ondas enormes, eram caixotões!”.
“Pô, Maria Helena, caixotão?”, questionou em seguida Fernanda.
E Fernanda a corrigiu: “Não se fala mais isso! Agora é o maior quebra coco!”
Ninguém mais parou de rir e a conversa virou piada. Foram momentos agradáveis!
Conversar com essas mulheres experientes, ricas de espírito e cheias de vida só me faz confirmar o que eu já sentia: o surfe realmente nos transforma!
Carregamos para sempre aquela chama acesa dentro de nós. Uma vez surfista, surfista para sempre!
