
A temporada de ondas começou na primeira quinzena de dezembro e não parou mais. Velzyland (uma direita fun e perfeita com até três tubos por onda), por ter a bancada mais afastada, começou a rolar primeiro, fazendo a cabeça de quem tinha disposição para acordar e surfar quase no escuro.
Já Pipeline, Backdoor e Off The Wall só começaram a rolar no começo de outubro, e com pouco crowd. Nem parecia que essa seria uma temporada marcada pela violência local. Nunca vi tanto stress por aqui.
Sei que é difícil aceitar, mas não é tão difícil entender. Pensem na seguinte equação: uma serie tem em média cinco ondas, com mais ou menos trinta caras no pico. Partindo do princípio que se leva uns cinco minutos pra voltar para o pico, quanto tempo você vai esperar pra surfar outra onda?
Alguns aguentam, outros não. E os locais, bem, os locais não querem nem saber. Eles rabeiam mesmo. Pode dropar de trás do pico ou ficar mais pra dentro. Eles rabeiam e pronto. Mas, diz o ditado: “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Você nunca verá esses locais bem cedo no mar. É nessa hora que a galera se dá bem.
Em novembro e dezembro, o crowd ficou insuportável. Se bem que esses meses não foram muito bons para os bodyboarders, pois praticamente só rolou Waimea e Sunset. As ondulações entravam grandes demais para os outros picos. Cheguei a ver o Andre Botha e amigos em Waimea. Caí também algumas vezes, sem muita sorte, o crowd estava perigoso demais. O problema nem é a onda, e sim as pranchas de 12 pés que vem junto com o lip ou algum surfista brincando de salto ornamental por lá.

O crowd de bodyboardes australianos também assustou nesse inverno. Contei 40 no mesmo dia. Isso mesmo, 40 australianos. Muita gente.
Certo dia, em OTW, falei com o Jeff Hubbard que estava me sentindo na Austrália e ele riu, concordando. Sei que é difícil, mas os bodyboardes que pensam em ser ou já são profissionais têm que vir para cá.
A cada ano que eles não vem, nosso futuro como potência máxima do esporte fica mais sombrio. A nova geração da Austrália, garotos de 13 a 16 anos, estão surfando pipeline 12 pés com uma base e conhecimento que acho que nenhum da nossa nova geração tem.
Os brasileiros não podem se acomodar, pois GT, Paulo Barcellos, Hermano Castro, Guaraná e Melk Lopes não vão estar aí para sempre. Somos a maior potência do esporte há anos e não temos nem o apoio, nem o reconhecimento que merecemos, perante a midia e patrocinadores.
Imaginem se perdermos o nosso posto. Bom, voltando para a temporada 2003, o campeonato de Pipeline quase não aconteceu. Só rolou graças à generosidade dos bodysurfers, que cederam dois dias em sua janela de espera. Se eles não tivessem cedido, não aconteceria a etapa de Pipeline.
No final da temporada o crowd deu uma amenizada e, desde então, eu, Paulo Barcellos e Hemano Castro, que fomos os brasileiros que ficaram por aqui, temos caído sempre de manhã em Pipe, Backdoor e V-land.

Alguns fatos dessa temporada não serão esquecidos. Um exemplo foi a primeira onda do Guilherme Tâmega para Backdoor. Foram dois 360 aéreos perfeitos. Ele é o mais insano de todos, isso sem sombra de dúvidas. Foi uma surpresa pra mim o fato dele não ter vencido a etapa de Pipe.
Outro fato foi o Backdoor sem freio de Paulo Barcellos. Tinha 12 pés, fechando até Waimea, e ele botou para dentro de uma fechadeira. Eu estava entrando no mar e vi de camarote. Foi a maior onda em que vi um bodyboarder botar pra dentro até hoje. O Hermano eu vi surfar tubos absurdos em pipeline 10/12 pés. André Guaraná pegou um tubaço e saiu de ARS. Alucinante.
Enfim, foi e está sendo uma temporada excelente, temos mais um mês de ondas, assim espero, e estou torcendo para ver uma multidão de brasileiros por aqui no próximo inverno.
Obrigado ao Waves Bodyboard pelo espaco e a Deus, toda honra e glória a Jesus.
Aloha!