A Austrália é o país do surf, mas também é famosa pela diversidade biológica, especialmente em relação à fauna marinha. Não é por acaso que a indústria pesqueira ao redor de toda costa australiana gera números bastante significativos para a economia nacional.
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Dentro dessa diversidade curiosa do habitat marinho por aqui, encontra-se um residente nativo nem sempre tão apreciado, especialmente pelos surfistas que dividem constantemente o tempo no line-up entre a expectativa de uma série perfeita e a suspeita da visão de uma barbatana.
Na realidade, mais de 90% das espécies de tubarão não são agressivos, e a incidência de ataques a banhistas especialmente a surfistas é muito rara por aqui, principalmente no estado de Queensland, onde se situa a Gold Coast australiana, com alguns dos picos mais famosos do continente ilha, como Snapper Rocks, Kirra e Burleigh Heads.
É claro que a fama de alguns desses ?peixinhos? equilibra essa desproporção do índice de agressividade dos tubarões contra o volume populacional encontrado aqui na costa.
Curioso também é que muitas pessoas pensam que o maior culpado pelos pesadelos dos surfistas australianos é o famoso vilão de Hollywood o ?Great White? como é conhecido por aqui o tubarão branco, quando na verdade a espécie mais responsável por ataques à banhistas ou surfistas aussie é um irmão muito menos famoso, chamado Bull Shark.
Esse foi responsável pelo último ataque fatal a um bodyboarder, na praia do farol em Ballina, norte do estado de New South Wales, no último mês de abril, depois de muitos anos sem registro de ataques dessa proporção.
O ataque na realidade foi proporcionado por uma convergência de vários fatores, como período pós chuvas, que arrasta grande quantidade de camarões rio abaixo para boca dos canais, local favorito e patrulha dessa espécie que vive mais dentro dos canais do que propriamente na costa.
Mas em momento algum foi determinada uma caçada massiva aos cardumes de tubarão na região, até por que a pesca dos mesmos dentro dos canais é simplesmente proibida, por ser local de procriação e viveiro natural da espécie.
A relação de respeito e desprendimento dos australianos com a presença dos tubarões chega a ser chocante, às vezes engraçada.
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É comum ouvir histórias de surfistas aussie e até de alguns brasileiros, que tiveram ?encontros? com esses famosos locais, algumas bem difíceis de acreditar inclusive, mas que divertem e fazem você relaxar diante da tensão de conviver com essa realidade.
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Um dos picos favoritos da galera local e de quem mora por um tempo por aqui, chama-se South Stread Brook Island, nome complicado para uma das ondas mais perfeitas da Gold Coast.
Não tão extensa e famosa como Snapper, mais o paraíso para quem gosta de tubos rápidos e secos, e local de treino favorito de alguns tops do WCT como Mick Fanning, Bede Dubridge, entre outros.
O problema ao redor desse pico é para chegar nele. É preciso atravessar um canal de 300 metros de largura, infestado de tubarões. Problema? Nenhum para quem está na fissura de surfar ondas perfeitas.
Antes de o sol nascer, já é impressionante o número de carros estacionados à margem do canal e de alguns famintos surfistas já remando para o outro lado a fim de serem os primeiros do dia a se deliciar nos cilindros de água.
Nesse período do ano aqui na costa australiana, começa a se massificar o aparecimento de baleias, que na teoria preveniriam a presença de tubarões na mesma área, o mesmo aconteceria com os golfinhos, presentes constantemente ao redor das praias e bastante territorialistas.
Curiosamente ou não, durante o último final de semana enquanto julgava a etapa de abertura do circuito nacional de longboard, chegou a informação ao palanque que em Duranbah, paco da maioria dos eventos locais, pescadores teriam avistado na saída do canal, alguns dos maiores tubarões tigres já visto por eles naquela região.
No mesmo dia alguns amigos brasileiros me telefonaram dizendo terem se deliciado com o swell de Sul que bombava na bancada de D-bah, dividindo o line-up com uma centena de outros surfistas muito mais atentos às linhas que cruzavam o horizonte do que qualquer outra coisa.
Na minha estada aqui na Austrália reafirmei um pensamento que já carrego comigo há muitos anos, os estranhos no mar somos nós e não os tubarões. O habitat é deles, nós somos os invasores, talvez por pensar assim é que os australianos e quem já vive aqui há mais tempo, conservam uma relação de respeito e tolerância tão grande com uma dos maiores temores dos surfistas.
Em tempos onde o equilíbrio e a paz mundial dependem cada vez mais do entendimento da palavra respeito, vale a dica, tolerância começa nas situações mais simples da vida.
Quem dera se alguns presidentes surfassem.