O dia 15 de março de 2011 entrou para a história em Jaws, ilha de Maui, Hawaii. Uma sessão em ondas enormes na mais nova e temida arena do surf na remada.
Clique aqui para ver as fotos
Enquanto muitas pessoas achavam que a temporada de ondas grandes havia terminado, de última hora aparece um swell bombástico para a remada. Era de direção Norte / Oeste, com vento fraco nas primeiras horas do dia e crescentes ao decorrer da manhã.
Doze surfistas fizeram a sessão acontecer com sucesso, ou seja, sair do pico sem tragédias ou coisa parecida. Em Jaws, nada é fácil, pelo contrário.
As ondas surfadas nesta session foram poucas se comparadas ao número de surfistas na água. Nomes fortes do big surf apareceram por lá, todos grandes companheiros: Danilo Couto, Shane Dorian, Ian Walsh, Carlos Burle, Yuri Soledade, James Sterling, Ahanu Tson-Dru e outros guerreiros como os brasileiros Edison De Paula, Tiago “Jelly Fish” Candelot, Hilton Issa e Francisco Porcella.
O maior destaque do dia foi o havaiano Shane Dorian, ao dropar uma direita muito grande e colocar para dentro do tubo, mas sem sucesso na saída. Se saísse do canudo com certeza complicaria a vida de Danilo Couto na premiação do Billabong XXL na categoria Ride of the Year (Onda do Ano).
Shane é um dos maiores mestres do big surf, orgulho da ilha de Big Island e do Hawaii no geral. É um dos surfistas mais completos do mundo e possui um colete que acredito ser essencial nestas horas. É só pressionar um botão para ele inflar e facilitar o retorno à superfície em caso de caldo profundo. Este colete está sendo testado por ele e espero que na próxima temporada todos tenham acesso.
O brasileiro de melhor performance foi com certeza o baiano Yuri Soledade. Ele puxa cada vez mais os limites e fica à vontade na remada em Jaws. Entrou e já apostou nas esquerdas para depois partir com apetite e atitude para as direitas. Completou drops para os dois lados com estilo.
Carlos Burle, um dos maiores ídolos do surf de ondas grandes e campeão mundial da categoria, fez sua estreia na mandíbula de Peahi e exibiu coragem e muita vontade de botar para baixo. Burle dropou uma onda extremamente pesada e botou para dentro. Mas o drop foi atrasado e o pernambucano acabou engolido em um caldo memorável. Garra e coragem dignas de um campeão.
Quando ele alcançou a base da onda, o lip tombou em cima dele e explodiu tudo. Burle ficou um tempão embaixo da água. O fotógrafo Bruno Lemos, que testemunhou e registrou a cena do penhasco, achou que ele havia apagado, pois demorou muito para subir. Nesta mesma onda, Kai Lenny, campeão mundial de SUP, surfou mais para a ponta e fez a onda até o canal em cima de seu stand up paddle.
Outra vaca que marcou a sessão foi a de Danilo Couto em uma bomba para a direita. Ele caiu, rodou, rodopiou e voou na parede do caldeirão. Para Danilo não existe desespero nestas horas, e sim fé, calma e controle da situação.
O baiano sobreviveu da vaca, mas infelizmente perdeu a prancha. A prancha ficou no meio do caminho, com chances de busca. Mas a espuma levou a gun de Danilo direto contra as enormes pedras da beirada. Por lá ficou até ser destruída pelo movimento do mar. A prancha, que fez história com a onda que concorre à Onda do Ano no XXL, terminou aos pedaços nas pedras.
Era um cenário totalmente diferente do normal. O vento aumentava cada vez mais e dificultava os drops. Qualquer tentativa para descer na onda era uma atração e os espectadores do penhasco apreciavam e curtiam cada momento.
Quem tinha um belo plano para o dia do swell foi o carioca e homem do mar Tiago Candelot, que surfa de pranchinha, longboard, gunzeira, kitesurf, tow in e ainda é um bom mergulhador.
Na noite anterior ao swell, Tiago foi levar o equipamento de kite para o barco que os profissionais brasileiros de windsurf haviam alugado. Uma galera sinistra do wind estava presente como Kauli Seadi, Brauzinho, Ricardinho e Fernando Canuso. Todos chegaram de barco com o equipamento de velejo na hora que o vento ficou impossível de pegar a onda na remada.
O plano de Tiago era surfar logo pela manhã para depois aproveitar o forte vento e atacar a mandíbula de Jaws no kite. O plano não funcionou em função de uma onda que partiu sua prancha ao meio antes mesmo de surfar uma.
##
Em torno das 10:30 horas da manhã, quando os big riders esperavam a chance de dropar a certa, a “bagaceira” aconteceu. Do nada subiu uma grande vindo do Oeste. Esta onda pegou quase todos de surpresa. Tiago, Burle, Ahanu, Yuri, Hiltinho, Issa e Edison de Paula foram os que se deram mal.
Tiago, Burle e Ahanu tiveram suas guns partidas. A cena foi impressionante. A galera remou a mil para passar a onda, mas teve que abandonar a prancha para não ser puxado de volta. Burle, que estava mais para dentro, levou a pior.
A temida onda de Jaws puxou, sugou e também sufocou o atleta. Burle sobreviveu, mas perdeu sua prancha e teve que finalizar sua primeira sessão no pico. Antes a prancha do que nosso ídolo.
Hilton Issa, veterano e experiente surfista, provou que idade não importa, mas sim garra, vontade e atitude. Ele desceu o penhasco sozinho e pulou das pedras para viver e presenciar momentos anormais.
Hiltinho tinha um passeio de barco com a família naquela manhã. Contudo, resolveu deixar a família no porto de Maalaea, perder o dinheiro do passeio, e partir para Peahi em um sonho que terminou com a bagaceira da onda. No dia seguinte, ele retornou ao Brasil depois de quatro meses no Hawaii.
É impressionante como a ondulação cresce no momento em que chega à bancada. A boia marcava ondas pouco maiores de 5 metros, mas alcançando a bancada chegaram até 8 metros, com algumas maiores. Em Waimea, as ondas só alcançaram no máximo 6 metros nas maiores séries.
Quem estava na área também foi o baiano Juan Gomes. Ele fez um tow in logo cedo e depois ficou dirigindo o jet-sky para o fotógrafo Epes Sargent.
Juan pegou algumas ondas logo cedo com a ajuda do jet. Professor de Muay Thai, ele treina vários dos melhores surfistas de Maui. Juan ainda teve a oportunidade de ver dois de seus alunos, Ian Walsh e Ahanu Tson-Dru, dropando as bombas.
Minha experiência nesta manhã foi bem interessante. Começou quando eu e Danilo pulamos da pedra exatamente no mesmo momento e remamos com força para se livrar do shore break. Quando achávamos que passaríamos, resolvemos nos cumprimentar batendo com a palma da mão uma na outra. Mas, para nossa surpresa, subiu mais uma na nossa frente e tivemos que remar contra a onda.
Passamos meio que no sufoco e só então nos cumprimentamos no desafio de passar o shore break com todas aquelas pedras na beirada. Também se lançaram das pedras Tiago, Hilton Issa e Ahanu Tson-Dru. O resto da galera veio de Maliko com o apoio do jet-sky.
Era bem cedo, provavelmente antes das 7 da manhã, quando remei para o fundo com a intenção de dropar uma bomba. Logo entraram duas ondas boas, mas preferi não ir. Respirei fundo, abri o pulmão e mantive a calma e a esperança de pegar a minha.
O vento contra dificulta muito a tentativa do drop. Em uma remei e cheguei a ficar de pé em cima da prancha. Como senti que não estava realmente descendo devido ao vento que retirava a velocidade da prancha, resolvi manobrar a prancha para trás da onda, me livrando de uma possível vaca logo na primeira tentativa.
Só depois de quase duas horas de paciência dropei minha primeira onda para a esquerda. Era uma enorme e da série, Deveria ter uns 7 metros ou mais. Surfei desde o drop até a base em velocidade e emoção inexplicáveis.
Porém, ao chegar à base com tanta velocidade e aqueles bumps, perdi o controle e caí na frente da avalanche oceânica. Este swell foi a primeira vez que usei um colete para ter um pouco mais de flutuação no caso de alguma vaca pesada. Mas quando caí da prancha e fui engolido pela onda, o colete saiu do meu corpo e por sorte e agilidade consegui segurá-lo contra o peito.
Sabia que aquele colete poderia me salvar mais na frente. Passei pelo perrengue todo sem largá-lo. Consegui emergir e respirar, mas logo na sequência tive que negociar com uma onda intermediária.
Meu amigo argentino Daniel, que estava no jet-sky com a big rider Mercedes Maidana, veio rápido me resgatar. Valeu o sufoco que passei só pela sensação e emoção vivida por completo. Analisando a imagem da onda que surfei, cheguei à conclusão que mesmo que tivesse conseguido virar na base, a avalanche teria me alcançado também.
Este swell foi entre dois acontecimentos devastadores. O primeiro, dia 10 de março, o terremoto no Japão e o tsunami que abalou toda a comunidade mundial pelas mortes e destruição. E depois, no dia seguinte ao swell de Peahi, a tragédia da morte de Sion Miloski em Mavericks, que abalou toda a comunidade do surf mundial.
A única vez que tive oportunidade de conhecer Sion foi no swell em Jaws no dia 8 de fevereiro. Este foi um dia histórico, pois aconteceu a primeira exploração na remada para as direitas com ondulação realmente grande. Sion estava lá, fazendo sua história. Quando o vi pela primeira vez no pico, remei em sua direção e com um sorriso no rosto me apresentei a apertei sua mão, dando boas-vindas.
Sabia que ele era um dos poucos que teria condições de dominar a nova arena do big surf. É uma grande pena e tristeza perdermos mais um grande legend underground do big surf.
Espero que Sion esteja em um lugar especial e na paz de espírito. Desejo muita paz, conforto e tranquilidade à sua família e a todas que sofreram com o tsunami e perderam familiares. Muita paz, amor e saúde para todos. Aloha!