
O surfista de São Vicente Daniks Fischer é um verdadeiro guerreiro. Aos 33 anos, ele não mede esforços para realizar seus sonhos.
Depois de três anos sem visitar as ilhas havaianas, ele não pensou duas vezes e vendeu o próprio carro para carimbar seu passaporte pela 13a vez.
Um dos pioneiros do tow-in no Brasil, onde pratica a modalidade na Garganta do Diabo, em São Vicente, ele foi o primeiro brasileiro a surfar Mavericks, Califórnia, em 98.
Nesta temporada o alvo foi a temida direita de Jaws, na ilha de Maui, onde Fischer passou 40 dias treinando e aprimorando o inglês.

Fundador de uma escolinha que leva seu nome, em São Vicente, ele também atua em parceria com órgãos sociais como a Sociedade Unida em Prol do Esporte e Meio Ambiente (Suprema).
Em entrevista ao correspondente Waves no Hawaii Bruno Lemos , Daniks Fischer fala sobre sua carreira e os planos para o futuro.
Fale um pouco de você. O que tem feito ultimamente?
Estou com 33 anos, surfo desde os 10, sou profissional desde 95, fui campeão brasileiro Open, paulista Universitário, defendi o Brasil num mundial da ISA e cheguei a fazer algumas finais de campeonatos profissionais nos meus dois primeiros anos de Pro. A partir do meu segundo ano como profissional e, após muitas viagens e competições, recebi uma proposta para ser free-surfer de um antigo patrocinador.
Isso mudou meu foco e, atualmente, além de correr campeonatos de pranchinha e longboard, estou sempre lutando para encontrar a onda perfeita. Em 98 comprei um jet-ski e comecei a fazer tow-in. No Brasil já fiz segurança de água no SuperSurf e uma clínica de tow-in no Espírito Santo com Romeu Bruno. Também desenvolvo trabalhos sociais com a Sociedade Unida em Prol do Esporte e Meio Ambiente (Suprema), entidade que surgiu a partir da minha escolinha de surf, há dois anos. Lá ocupo meu tempo voluntariamente quando não estou viajando ou competindo.
Quantas vezes você veio ao Hawaii e quais são as principais dificuldades que o surfista brasileiro geralmente encontra para conseguir apoio?
Essa é a minha 13a temporada e a última foi há três anos. É muito complexo falar dos apoios. Embora vivamos no mundo das parcerias, existem aqueles que só pensam no próprio lado. As dificuldades são muitas. Mas são de conseqüências sazonais. Ora é a volatilidade da economia, ora é a idade, e em muitas circunstâncias, a falta de resultados. Mas o principal na minha opinião está nas duas pontas do iceberg. Ou seja, de um lado os empresários e muitos dirigentes, e do outro os surfistas. Estes vivem reclamando, mas não vejo alguém que apareça e que ainda esteja na ativa, a fim de tentar juntar a classe e reivindicar melhores ofertas e um nível salarial para os diferentes segmentos e categorias que o surf oferece. Precisamos urgentemente disto!
Na direção contrária, vemos empresários sistematizando o mercado com a conivência de alguns dirigentes de associações ou similares, quando estes deveriam estar buscando não só aumentar premiações em dinheiro para os atletas nos eventos, mas, sobretudo, serem interlocutores dos surfistas na busca pela união e fortalecimento da categoria junto aos empresários que queiram entrar no segmento. Enfim, diria que no momento o esporte cresceu e a falta de dinheiro no mercado é conto de carochinhas e só acho que os surfistas deveriam ser mais unidos e estarem sempre buscando participar das decisões das grandes entidades. E neste processo, para facilitar, a mídia poderia atribuir mais espaço a surfistas em nível underground (temos uma enormidade no Brasil) e para as empresas de fora da elite internacional, o que abriria de imediato mais investimentos em atletas.
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Fale sobre a temporada e sua primeira experiência com tow-in em Jaws.
Essa temporada eu diria que superou em alguns aspectos a minha melhor temporada, que foi a de 96. Por amor ao Hawaii, mesmo sem patrocínio, vendi meu carro e não me arrependi. Vim focado em conhecer Jaws, fazer amizades e aprimorar o inglês. Mal tinha começado minha trip e eu já havia realizado boa parte de meus sonhos. Encontrei muitas dificuldades para fazer o tow-in em Peahi, mas desde que entreguei esta viagem nas mãos de Deus eu sabia que de um jeito ou de outro as coisas fluiriam. Fiquei 40 dias em Maui e foi uma experiência incrível.

A onda é muito forte. A pressão é tanta que num primeiro momento você só quer saber de salvar sua pele. Estive conversando com quase todos os brasileiros que estão caindo lá com freqüência e todos assumiram este sentimento. Mas depois que cria o hábito, é natural que você comece a se aventurar nas manobras e na busca pelo tubo. Isso pelo jeito eu vou ter que deixar para a próxima temporada. Nesta eu vim sem verba e sem equipamento.
Vim na fé e tive a bênção de Deus de ter conseguido surfar lá. Eu tinha uma preocupação extra em preservar o material dos outros e não pude estender meus limites. Mas saí satisfeito, pois em nenhum momento vaquei nas ondas. Agradeço muito ao argentino Daniel Silvagni por confiar seu equipamento a mim e ao meu amigo santista José Guaraná, que me introduziu a grandes e promissoras amizades. Aliás, uma coisa muito boa que influiu na performance foi a grande sorte que eu tive de ter conhecido pessoas maravilhosas naquela ilha e em Oahu. Só vou guardar coisas boas. Eu poderia dizer um sem-número de nomes, mas estes agradecimentos estarão num texto em meu site pessoal em breve.
Você foi um dos primeiros brasileiros a surfar Mavericks, como descreveria aquela onda? Pretende surfar lá novamente?
Do que se tem notícia, eu realmente fui o primeiro brasileiro a surfar Mavericks, em 98. Foi outra grande experiência. Surfaria novamente assim que eu arrumar suporte financeiro. Nesta temporada cheguei a trazer duas roupas de borracha de 5 mm comigo, pensando que se eu não arrumasse nada em Maui, poderia me jogar para lá. Quem sabe na próxima eu não dou um pulo. Gosto daquela onda mais na maré seca. A onda balança pouco e é mais fácil varar o quebra-coco do raso nos dias grandes.
Há quanto tempo você corre atrás de ondas grandes e onde conseguiu surfar as melhores?
Surfo ondas grandes desde minhas primeiras caídas (com 14 anos) na Garganta do Diabo, em São Vicente, cidade onde moro e que possui um dos melhores lugares do Brasil para tow-in. Mas a busca internacional se iniciou em 90, na minha primeira viagem para o Hawaii. Eu diria que as melhores não foram as grandes de Mavericks, Jaws, Waimea ou Teahupoo (não até o momento), mas sim, G-Land, na Indonésia, 10 a 12 pés épico.
Que conselhos você daria para aqueles que gostam e pretendem surfar as bombas mundo afora?
Deus move montanhas. Portanto, tenham equilíbrio nas atitudes e fé diante das dificuldades. Acreditem em si com a bênção divina. Partam para a escalada, mas tentem deixar o caminho livre para os próximos que queiram compartilhar das mesmas aventuras. Boa sorte!
E os planos para o futuro?
No plano pessoal, pretendo arrumar um bom patrocínio para que eu possa continuar nesta minha caminhada. Outra coisa é tirar proveito da minha formação em Comunicação Social e experiência ao longo dos anos, a fim de que eu possa atuar no marketing empresarial e/ou pessoal. Gosto muito de elaborar projetos e tenho muitos para pôr em prática. No plano coletivo, pretendo atuar cada vez mais junto à Suprema ou outros órgãos e na nossa escolinha de surf que leva o meu nome. Para saber mais acessem daniksfischer.com.br e suprema.org.br.
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