Cordeiro em pele de lobo

Campeão mundial de 1976 sem vencer um único campeonato, P.T., Peter Townend para os mais íntimos, disse pelo menos uma frase brilhante durante seus anos como vendedor de anúncios da revista Surfing, membro (epa!) da lendária equipe lamentavelmente batizada de bronzed aussies, os australianos bronzeados, PT bagunçou o coreto com a seguinte sentença: ” Surfistas devem aparecer nos anúncios porque são famosos, e não serem famosos por aparecerem em anúncios.”

 

Debaixo dessa filosofia, Matt Biolos criou uma marca que infectou a juventude americana com o poder de desmistificar seus ídolos.

 

A edição portuguesa da revista Surf Europe de julho deste ano traz uma entrevista divertidíssima com o fundador da …Lost, shaper do atual campeão mundial Andy Irons (em ondas abaixo de 5 pés) e camarada cheio de opiniões curiosas que faço questão de dividir com a turma.

 

Perguntado sobre as coisas positivas do momento atual do surfe, Matt nem titubeou em afirmar que: “Os melhores surfistas voadores tambem são os melhores nos tubos e nas ondas fortes de verdade. E aproveito pra dizer que essa história de Air shows é uma grande palhaçada! As provas são realizadas na Califórina e aquilo é um bando de pernetas saltando feito sapos. Se o Cory, Andy ou o Taj competissem em qualquer dessas provas venceriam com um pé nas costas. E se fosse nos tubos também! Ou qualquer outra manobra. O melhor do surfe é que os melhores são mesmo os melhores e acabou. Os Ratboys e os Ozzie Wright podem ir todos praquele lugar.”

 

Esperem até saber o que ele pensa sobre o surfe profissional:

“Como é que eu poderia não gostar? Temos o Occy – e ele não é como o Damien
Hardman, que ficava sempre entre os cinco mas era uma piada? Occy não, ele merece estar onde está. É uma verdadeira lenda, continua quebrando tudo. E depois temos o Cory, Andy e o CJ.”
        
Sempre tive uma profunda antipatia com o perfil da marca, mas tudo foi descarga abaixo depois da entrevista, especificamente na pergunta cinco: ‘O que achas do Blue Steel, do Dorian?’

 

A resposta chega até a arrepiar os pelinhos de meus testículos pela refinada crueldade: “Meu Deus! Nossa como eles são maus. Camiseta apertadinha e tudo! Bad Boys! Mas, pelo menos surfam pra caralho. Mas, o Machado? Não dá pra levar a sério aquele homem. Na festa do Surfer Poll (Votação dos 10 mais votados surfistas pela revista Surfer) o cara se pôs a chorar! Assim não dá. ‘Buaaaaá! A minha mulher está grávida e eu sou o homem mais feliz do mundo.’ Lembro de estar ao lado da minha esposa e comentar, ‘Bem, voce tambem está grávida mas eu não vou começar a chorar aqui, né ?’

 

O que ele estava fazendo? Renegociar o contrato no próximo ano na esperança de ganhar mais algum? E com o Dorian é a mesma coisa. Quantos anúncios com aquele ar de top model afetado nós vamos ser obrigados a ver?”

 

Chocante, não?

 

Tão chocante quanto os anúncios que a sua marca colocou nas grandes revistas com um monte de ovelhinhas (ou seriam cordeiros?) brancas representando as marcas estabelecidas no mercadinho ianque e uma negra, a …Lost, montada numa outra, pleno cruzamento, no mau sentido, desde que a marca não admite misturas.

 

Matt Biolos começou a fazer pranchas em 1987, ainda no século passado, na loja do Herbie Fletcher, pai dos garotos. Ganhava a vida pintando aquelas mulheres gostosas nas pranchas e monstros, quando era moda todo mundo ter uma gostosa ou um  monstro na prancha.

 

Ganhou a alcunha de Mayhem graças a sua banda de colégio, Mayhem Ordinance, punk até os cascos, e como escrevia sempre Team Lost nas suas pranchas, o nome pegou.

 

Ainda no segundo grau, Matt e sua turma não eram lá muito populares, como ele mesmo gosta de contar: “Não tínhamos as gostosas e não éramos os melhores surfistas, mas sabíamos nos divertir. Os mais populares eram sempre os caras do time de futebol e basquete, ou os patrocinados pela Quiksilver e OP. Pois bem, nós éramos o time da Lost e tínhamos mais erva que todos vocês. Escrevíamos ‘Team Lost’ nos cadernos e nos casacos. Cagamos pros outros.”

 

Rapaz, esse camarada não tem limites? A resposta é não. E uma prova disso é a forma como ele trata seu desafeto, Taylor Steele:

 

“Enquanto Taylor Steele e seu bando de aspirantes a Hollywood jogam golfe e filmam vídeos dramáticos nós andamos no mundo real acomapanhando os surfistas ‘hardcore’. Vivemos a vida como eles. Não perdemos tempo decidindo a decoração da cozinha do Shane Dorian! Quem é que quer saber dessa merda? Foda-se.

 

Supostamente deveríamos fazer vídeos para a molecada. A merda da cozinha? Senti nojo quando a Surfer considerou esse vídeo o melhor do ano (The 5# Simphony Document). Só queremos celebrar a vida como ela é. O Bruce Irons aparece nos vídeos do Taylor Steele e todos sabem que ele é um bêbado delirante. Nós procuramos o mesmo que os outros, mas usamos técnicas de marketing completamente diferentes e acreditamos numa maneira diferente de mostrar o surfe pra molecada. Eles gostam de se esconder atrás das estrelas de cinema, nós preferimos mostrar as coisas como elas são.”

 

Convém avisar meus companheiros que não concordo com metade das coisas
que Mayhem diz, mas que é fundamental um anarquista assim no meio, lá isso é.
     
Continuando. O que será que Biolos pensa sobre o Joe Crimo e o Ozzie Wright?

 

“Acho que ele (Oscar) é espetacular e merece tudo que tem, mas penso que
existem surfistas bem melhores por aí. Já ouviu falar do Aaron Cormican, não é? Aquela história do Gorken Flip? Um moleque que faz um troço desses?? E depois? O garoto é bom mas não vamos tratá-lo como Deus que desce à Terra só por causa disso. Não pode ser assim. (nesse momento ele cita a frase do Peter Townend…). Já viu o Justin Mattison em nossos vídeos ? É como o Crimo, mas muito melhor. Num dos nossos vídeos tem uma parte assim, ‘Justin Mattison fazendo o que faz há muito tempo, desde aquela época que para ser uma estrela do surfe não bastava só dar aéreos e pintar umas bostas na prancha’. No Decline até mostramos uns bons aéreos do Ozzie, mas entre um e outro ele enterra muito e mostramos o Mattison gargalhando e cuspindo cerveja, trêbado. A seguir é a parte do Justin Mattison e a verdade é que ele é um acabado… como o Christian Fletcher.

 

Nunca ninguem deu muita importância ao Justin, só os nossos vídeos. Não queremos criar falsos ídolos. Se não bota pra dentro em Pipe, pode ter certeza que não faremos de voce um herói.”

 

Conclusão?

 

“Derrubem seus ídolos. Façam alguma coisa por vocês. E não interessa se são europeus, americanos, australianos ou brasileiros, temos que nos ver livres deles. Não sejam carneirinhos.”

 

Em breve, uma entrevista com um brasileiro iconoclasta.

 

Façam como os gringos quando estão no Brasil: encomendem pranchas brasileiras.

 

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