Por trás das notas

Continuamos sem renovação

As mudanças anunciadas pela ASP para o circuito WQS de 2005, visando facilitar a classificação de novos surfistas para o WCT, estão muito longe de atender as reais necessidades dos atletas de todo o mundo.

 

Foram criados os eventos Super Series, que significam mais dinheiro, mais pontos e os mesmos privilégios, e que não resolvem o problema dos novatos, que continuam a ter que viajar durante vários anos para poder participar do WCT, pois nestes eventos as vagas serão limitadas e a elite do surfe fica cada vez mais longe.

 

Os dirigentes do surfe profissional mundial estão sendo pressionados por todos os lados para repensar o formato do circuito WCT e de

sua divisão de acesso, o WQS – que agora passa a ser somente QS (veja matéria no Waves).

 

São patrocinadores, mídia, dirigentes nacionais, entre outros, que buscam um circuito mais justo, com mais oportunidades e com uma maior diversidade de nacionalidades no tour.

 

As principais críticas estão na proteção demasiada que os melhores do ranking têm no circuito de acesso. Hoje em dia é muito mais fácil para um ex-top voltar ao WCT do que para um moleque novo furar o bloqueio, e o resultado disso tem sido uma pequena renovação na elite.

 

Outra crítica é o fato de o WCT ser formado por eventos fechados e muito previsíveis, sem surpresas, com apenas quatro vagas para convidados. As últimas provas têm mostrado que existe muita gente boa fora do circuito, vide a performance dos convidados Tânio Barreto no Brasil (3o) e Jamie O’Brien em Pipeline (1o).

 

Em vez de limitar o número de pré-classificados (tops e ex-tops) na reclassificação para o ano seguinte, sugestão minha para Wayne Bartholomew, presidente da ASP, foi criado mais um degrau de premiação e de pontos, no qual o encontro com os tops acontece mais cedo, ou melhor, os pré-classificados continuam lá, mas eles podem ser derrotados antes no evento, fazendo assim menos pontos.

 

Para os novatos a briga continuará a mesma, e até pior se ele ainda não tiver pontos, pois estes novos eventos serão fechados e eles terão que fazer pontos em eventos menores e sem cobertura da mídia, viajando muito para estarem no bolo que pode participar dos eventos.

 

Na verdade será melhor para os que estão entre os 192 primeiros, mas continuará mais difícil para os que estão começando agora, pois não estão sendo criados eventos novos, e os eventos cinco e seis estrelas, que antes eram abertos, agora serão restritos.

 

Outro problema é que estas mudanças não foram devidamente anunciadas e talvez fossem mais bem assimiladas se tivessem sido programadas para 2006, pois muitos surfistas, ignorando o que ia acontecer, investiram no circuito nacional e não conseguiram pontos para se garantir no melhores eventos do WQS de 2005. Em vez de projetar para o futuro, usando o ranking deste ano, com todo mundo tentando estar entre os 192 em eventos abertos, estão usando o ranking de 2003.

 

Acredito que este formato não vá durar muito, pois está longe de ser um formato democrático e que possa ajudar ao surfe ser realmente um esporte mundial, e não restrito a quatro ou cinco países.

Duvido até que melhore a renovação, pois os tops continuam privilegiados e os novatos terão que ganhar todos eventos quatro estrelas possíveis para conseguir pontos para avançar no ranking.

 

Enquanto isso, os pré-classificados que perdem de primeira num cinco ou seis estrelas marcam quase os mesmos pontos, ou seja, ganhar um evento que é muito difícil está valendo o mesmo que perder de prima. Tem gente se re-classificando fazendo apenas quartas de final nos eventos seis estrelas. Ora, se os tops são os melhores, por que eles precisam de privilégios?

 

Para dar uma idéia, um top como Michael Lowe, que já entra lá na frente, pode marcar pontos em apenas uma etapa que ele já está na frente de mais de 150 surfistas. No caso do ano passado, ele fez apenas uma quarta-de-final e uma oitava, só pontuou em duas etapas das sete e fez mais de dois mil pontos, suficiente para estar garantido nos eventos cinco estrelas.

 

Tem alguma coisa errada neste formato, e como perder privilégios é uma das coisas mais difíceis de acontecer, ainda vai demorar para termos um circuito mundial mais justo. Pelo menos a direção da ASP está se mostrando sensível ao problema, mas uma coisa ainda atrapalha: o conselho formado pelos surfistas não parece interessado em mudar nada.

 

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