Conexão Brasil-França no Billabong XXL

Apesar de pouco conhecido entre os conterrâneos, o brasileiro João Carlos de Sonis de Morais é um dos nomes na disputa pelo prêmio de US$ 5 mil para a maior onda pega na remada do Billabong XXL 2003, com uma morra em Waimea Bay, Hawaii. 

 

Nascido em Brasília, aos 4 anos de idade foi morar com a família no Rio de Janeiro e nunca mais deixou de ser carioca da gema. Aos 35 anos, João de Sonis atualmente vive no sudoeste da França, no País Basco. 

 

Sonis é o filho mais velho de três irmãos, ele, Alexandre e Ricardo, todos com diferença de apenas um ano entre si. O mais novo, Ricardo, compete nos circuitos brasileiro e mundial de longboard e é shaper, assim como Alexandre.

Segundo João, essa história de ser meio francês é só no papel, para poder morar na França. Quando criança, ele estudava no colégio Pernalonga, no Arpoador, onde matava aula  pra ver a galera surfando. “A primeira vez que vi as ondas virem do Pontão quis ser surfista. Minha mãe disse que surfista tinha que comer ovo cru de manhã: engoli seco e disse que não tinha problema”, conta.

 

Foi no colégio que ele conheceu Sheena, surfista e shaper brasileiro falecido ano passado no Hawaii. Sonis conta, relembrando o passado, que Sheena nunca o perdoara por ter sido barrado num clássico contra o time da tarde, quando Sonis era capitão do time. Mesmo assim foi dele que comprou a primeira prancha, aos 12 anos, e iniciou seu contato com o surfe.

 

Em entrevista ao amigo e correspondente Waves Julio Adler, ele conta mais sobre a vida na França, nova meca do big surf mundial, futebol e sobre a onda em Waimea que lhe colocou na disputa do Billabong XXL.

 

 

Que prancha é aquela da foto em Waimea? Quem fez, ou te emprestou?

 

A prancha da foto é um shape do Sheena. Uma 10’3 daqueles modelos soft que ele inventou. O Rominho, (Rômulo Fonseca) que me recebeu na pousada Greenforever nessa temporada, me emprestou a triquilha. Coincidência? Cinco anos depois do meu primeiro inverno havaiano, também de três meses, tava super feliz de surfar, de novo, Waimea com uma prancha dele. Eu não sou um surfista técnico, mas quando o mar tá raivoso eu tenho raça e o maior prazer de botar pra baixo. E do oco. Você poderá ver isso no filme “Encabeça Geral”, que será lançado em breve. São pouquíssimos os surfistas que dropam do oco em Waimea.

 

Como tava o mar naquele dia? Foi o mesmo que o Mark Healey entrou e botou pra baixo?

 

A onda da foto eu peguei momentos depois da onda que o Mark Healey pegou e está também concorrendo ao prêmio. Ele merece ganhar. Na revista Alma Surf essa mesma onda aparece e você pode me ver na foto mais pro rabo. Eu vi o drop dele, fiquei tomado e logo depois consegui fazer esse drop no maior mar do North Shore da temporada.

 

Malandro, por que escolheu morar na França, e logo no País Basco?

 

Primeiro minha mãe é francesa, o que facilitou as coisas. Ainda no Brasil, depois de me profissionalizar como ator, entrei numas de viajar pela Europa, e me apaixonei pelo sudoeste da França. Tô morando há alguns anos no País Basco, onde a qualidade de vida é excepcional. Altas ondas numa região abençoada entre os Pirineus e o mar. Claro que o fator econômico também conta pra eu estar por aqui.

 

 

Já surfou aquela onda monstra de Belharra reef? Como é a vida surfista aí?

 

Depois que eu virei irmão do Eric Rebiere, a gente sempre procura estar nos bons picos na hora certa. Eu o acompanho nas etapas do circuito europeu e posso dizer que por aqui tem ondas para todos os gostos. A nossa pilha agora é fazer tow-in em Belharra reef, que fica a apenas 20 minutos de casa.

 

Você vive de quê? Como sobrevive como estrangeiro, apesar da cidadania?

 

Qualquer trabalho é bem remunerado e as ajudas do Governo aos cidadãos deixariam qualquer brasileiro impressionado (e revoltado). Fiz um curso pra trabalhar de comissário de bordo e tô correndo atrás de uma compania que me leve a altos picos.

 

Continua jogando seu futebolzinho no time de Biarritz?

 

Sempre, vou surfando e jogando meu futebol no time da cidade de Biarritz, onde vivo. Temporada que vem vou fazer teste num time de quarta divisão, tô me preparando como um animal.

 

E seus irmãos? Continuam por aí? Eles surfam as bombas?

 

O Alexandre, meu irmão do meio, sou o mais velho, é shaper por aqui, mas eu quase não falo com ele. Nossa diferença vem desde pequeno, quando não faltou pilha para entrar nos mares de ressaca. O Ricardo atualmente mora em Búzios e é muito bom shaper também. Os dois já botaram pra baixo na Bay (Waimea). Nosso primo, o guitarrista Kiko Peres, nos dedicou uma música que se chama “Remou tem que dropar”.

 

 

Do que mais você sente falta do Brasil?

 

Sinto falta da família, dos amigos, da mulherada, do Flamengo e do futevôlei do posto 9.

 

Cresce muito o surfe na Europa?

 

O surfe europeu cresce a passos de gigante e eu acho que vai crescer ainda mais. Por exemplo, na França, cada praia tem seu clube subvencionado pelo Governo, apoiando amadores e competidores.

 

Voce aproveita a perna européia pra curtir com a rapaziada e matar as saudades?

 

É justamente na perna européia do circuito, quando os brasileiros invadem o pico, que eu me sinto em casa. Valeu.

 

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