
Inevitável é a comparação entre o Nova Schin Festival WCT Brasil 2003 e o Hang Loose Pro Contest 1986. Assim como dezessete anos são suficientes para transformar Florianópolis no ícone de desenvolvimento econômico e social do Brasil nesse final e início de séculos, o período também é suficiente para mudar toda a filosofia e a ótica nostálgica do surfe competição.
Há cada vez menos espaço para amadorismos. Prova disso é a qualidade de vida que vários surfistas têm. Se optassem por profissões tradicionais, talvez não tivessem o prestígio e o dinheiro que desfrutam hoje. Outro aspecto é o crescimento do surfe como um todo.
Há 17 anos, quantas revistas especializadas existiam? Quantas marcas de pranchas e de roupas de surfe você conhecia? Quantos de seus amigos consumiam produtos de surfe, mesmo sem surfar? Quantos novos locais para a prática desse esporte foram descobertos? Quantos governos investiam em surfe há 17 anos? Quantos boletins de condições do mar em rádio, telefone e internet existiam? Quantas montadoras fabricavam carros com séries especiais para surfistas? Quantos, quantos e quantos…
O Hang Loose Pro Contest se transformou no primeiro divisor de águas do surfe competição no Brasil. A partir dele, a história se dividiu em antes e depois do Hang Loose. Por vezes, ouço pessoas relembrando o evento. O discurso de todos é bem parecido: esquerdas fabulosas atrás da Careca, gente saindo pelo ladrão, os melhores surfistas do mundo naquela época, o Tom que perdeu de cara, o Tom que não deus as caras, a mulherada (é claro) de fio dental, o Bar do Arataca e por aí vai. Meu irmão, por exemplo, sempre emenda: “Puxa, que saudade! Era legal pra caramba!”

No entanto, o Nova Schin Festival WCT Brasil tem as suas peculiaridades e, certamente, merece tanto destaque quanto o HL. Não é necessário citar as vantagens de um campeonato frente ao outro. Basta lembrar que são 17 anos de intervalo e é provável que, com o dinamismo nas comunicações, a décima etapa do WCT 2003 tenha obtido, proporcionalmente, muito mais alcance que o HL 86.
A internet está aí para provar isso, com transmissão on-line das baterias. Mais além, é provável que a mobilidade do Nova Schin seja, nesse novo século, um segundo divisor de águas, que pode ajudar na já especulada reformulação do circuito mundial.
E aí você pode se perguntar porque acredito ser tão boa a mobilidade, se foi preciso usar todos os dias de espera e quatro praias diferentes para realizar o evento. A resposta é simples e vem da página da Associaton of Surfing Professionals. Nela, estão publicados os textos de Jesse Faen, assessor de imprensa da ASP, sobre o caminhar do evento, desde o release que versa suavemente sobre o cotidiano da ilha de Santa Catarina, até o desfecho da etapa na praia da Vila, na cidade de Imbituba, sul do Estado. Logo, da informação oficial não há o que contestar!
Jesse fez elogios dos mais variados para o Nova Schin Festival WCT Brasil 2003 e colocou na boca dos surfistas tantos outros que, em muito, nos devem orgulhar. Citou a beleza de Florianópolis, as boas ondas de Santa Catarina, a euforia das festividades paralelas – oficiais ou não – o carisma e o envolvimento do governo e da população com o surfe em nossa terra. Só falou bem!

Em seu texto de anunciação da abertura do período de espera, escrito em 27 de outubro, Jesse ressalta que “o Nova Schin Festival WCT Brasil marca do retorno do circuito mundial à linda área de Florianópolis, desde os eventos realizados no final dos anos 80”. No dia seguinte, o diretor de mídia fez o mundo saber que o campeonato se moveria da Joaquina para “boas direitas de meio a um metro que quebram sobre uma bancada de pedras mais ao sul, no Silveira”.
E lá na Austrália deve-se ter ouvido pela primeira vez o nome Garopaba. Ainda mais porque Jesse colocou na boca do aussie Joel Parkinson, no texto subseqüente, esta pérola: “As ondas estavam muito similares ao local de onde Taj Burrow e eu viemos. Pareciam nossas ondas favoritas e era só esperar e surfar uma boa. Na outra praia (Joaquina) estava maral, mas aqui está liso e tubular e todo mundo está atiçado”.
Para completar o cenário daquele dia agitado, que se transformou em feriado na pacata Garopaba, Kelly Slater, que venceria o evento dias depois, comentou que “é uma loucura com toda essa gente. Os brasileiros têm muito espírito e energia. Todo mundo na praia torcendo, gritando e se divertindo”. Em 29 de outubro, quando o campeonato foi levado ao Caldeirão da Armação, Jesse escreveu que, “após checar as condições em diversos locais, a praia do sul da ilha apresentava boas ondas, em picos de 1,5 a 2 metros que congratulavam os competidores”.
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Aproveitou, ainda, para atribuir ao chatão Andy Irons a seguinte frase: “As ondas estavam boas, parecidas com Duranbah (Aus)”. A pressão da torcida foi descrita naquele texto pelo surfista dos vídeogames, o americano Cory Lopez. Ele disse que “tinha muita gente no Caldeirão e que os brasileiros estão realmente juntos, parecendo um estádio de futebol”. Até que o gringo tem razão: caldeirão e estádio de futebol têm semelhanças quanto ao formato.
E o apagão, que poderia ter colocado em risco a reputação do Nova Schin, foi até motivo de mais elogios à torcida brasileira. “Com a ilha de Florianópolis inteira sofrendo com o blecaute, todos os estudantes e a maioria dos trabalhadores terão o dia livre para curtir muita ação. Ondas de um metro quebram em picos no principal ponto da Joaquina esta manhã, permitindo aos competidores escolher entre esquerdas e direitas”, continuava Jesse Faen em sua cobertura oficial para a ASP, no dia 30.
Foi quando Kalani Robb, o “estiloso”, sentiu a pressão de um dia ensolarado e de novo com gente saindo pelo ladrão na Joaca. “Eu não conseguia ouvir lá de fora de quanto eu precisava, então surfei da melhor forma possível e acho que peguei as melhores ondas. Amo vir ao Brasil! O povo é hospitaleiro e é por isso que sempre procuro voltar”, disse o havaiano, afagando o ego dos manés. Ó lho, lho, lho! Si qués, qués; si não qués diz, ô istepô! Depois disso, a luz voltou, mas a Joaquina se apagou.
Quem se ascendeu nos textos do Jesse foi Teco Padaratz, que foi aclamado como ícone local do surfe e era sempre citado como “o baterista da banda local, Surf Explícito, que agitou o crowd”, se apresentando no festival de música realizado durante a etapa.

Já no dia 4 novembro, de volta à estrada, o caminhão-palanque foi deslocado até Imbituba, onde, segundo o generoso Jesse “sólidos 2 metros quebravam na praia da Vila, oferecendo as melhores ondas do campeonato inteiro. Longas direitas, lembrando Haleiwa (dessa vez foi o chefe da “bagaça” quem admitiu a qualidade de nossas ondas) deram oportunidades abundantes de manobras por toda extensão da onda”. A verdade é que havia até tubos, pergunta pro Kelly! Agora não direi mais que vou à Vila, vou a HaleVila, porque lá tem a “galera mais louca que eu já vi na minha vida” (declaração de Kelly Slater).
O WCT segue para as duas últimas etapas no Hawaii, o Rip Curl Pro, em Sunset, e o Xbox Pipe Masters, em Pipeline. Pelo que vimos em nossa terra – ou não vimos porque não tinha luz – o Nova Schin Festival WCT Brasil tem tantos atributos quanto teve o Hang Loose Pro Contest para se tornar um divisor de águas. Cabe agora aos organizadores avaliar os resultados e possíveis melhorias (sim, porque unânime mesmo, só o 10 do Slater), pois, a princípio, ano que vem tem mais. E, quem sabe, eu me divirta mais um pouco lendo os textos do Jesse.