Muitas Águas

Chicama brasileira?

 

Regência, uma perfeição do litoral capixaba. Foto: Pedro Monteiro.

Sempre acreditei, mesmo sendo muitas vezes contrariado por amigos, que no Brasil a gente pode pegar altas ondas.

 

Hoje, muito mais que trinta anos atrás, depois de ter conhecido, surfado e fotografado surf em quase duas dezenas de países e centenas de praias por aí, posso afirmar com certeza: aqui pode não ter as melhores nem as mais constantes condições para um bom surf. Mas seria quase uma “injustiça” dizer que o Brasil não dá onda!

 

Cada um tem seu próprio conceito pessoal do que é onda. O que é onda pra mim pode ser um rascunho pra você, um projeto mal acabado e imperfeito. Ou, quem sabe, o que é onda para você, pode ser algo inatingível para mim. E por aí vai.

 

Nossa visão de mundo acaba mesmo sendo muito subjetiva. Por isso temos tantas opiniões diferentes sobre o mesmo assunto. Eu continuo viajando e, graças a Deus, pegando altas ondas. Mas sou convicto de que podemos pegar ondas de calibre internacional em nossa querida pátria amada. Às vezes, com muito mais constância e perfeição do que sequer poderíamos imaginar!

 

Assim que terminei o segundo grau, ainda com meus 17 anos, em 1983, fui morar por seis meses em Vitória, Espírito Santo. Meu grande amigo Fábio Castilho havia acabado de  lá montar uma surf shop, a Free Action. E eu fui ajudá-lo e passar um tempo por lá, antes da “luta” do vestibular.

 

Foram meses incríveis. Fiz ótimas amizades, conheci praias, reefs e point- breaks nos arredores de Vitória, Vila Velha e Guarapari que nunca imaginei que existissem no Brasil. Experimentei uma culinária espetacular e ainda pude fazer muitas fotos, publicadas em primeira mão nas primeiras edições da Revista Fluir.

 

São várias as aventuras e momentos, poderia ficar aqui descrevendo em muitas páginas. Mas vou me ater à descrição do que chamo, guardadas às devidas proporções de a “Chicama” brasileira!

 

Num bate-papo com a galera na surf shop do Fabinho, que se tornou um point de encontro da tribo capixaba, ficamos sabendo de onda na saída do rio Doce, divisa dos estados do Espírito Santo e da Bahia.

 

As conversas sobre este lugar foram tomando um tom surreal, místico até, com uma áurea de um lugar inóspito e de ondas quilométricas numa região deserta do litoral brasileiro, onde o encontro do caudaloso rio e as fortíssimas correntes oceânicas, formavam um fundo de areia perfeito, porém muitas vezes traiçoeiro e com alguns bichanos de barbatana por perto, à caça dos peixes que desciam o rio ou, dos mais desavisados!

 

Mas, na verdade, se isto era para nos amedrontar ou causar espanto, eu não sei. O efeito foi o oposto! Fábio sempre foi um cara determinado, sem lero-lero. Ele pegou seu fusca e, no primeiro final de semana de folga dele, me falou: “Mota, arruma aí a mochila e a barraca, nós vamos pra Regência na sexta à noite”.

 

Meu chapa, não podia ter um clima mais misterioso. Entrada de outono, lua cheia e uma estrada de terra depois do asfalto na precária BR 101 nos levava àquele fim de mundo, com apenas alguns pescadores e um farol isolado num mundo de areia.

 

Marcela, amiga nossa, resolveu ir junto; e Fabinho já estava acompanhado da namorada Denise. O fusca saiu cantando pneu. Lá pelas tantas, caí no sono e Marcela também. Foi aí que Fábio teve uma de suas idéias mirabolantes!

 

Cara, ele simulou um acidente e rodou o Fusca em plena estrada de terra e começou a gritar bem alto. Meu coração foi na boca e achei que estava entrando embaixo de um caminhão.

 

Pronto, não consegui mais dormir. Eles rindo e nós injuriados no banco de trás. Já era madrugada e estava um frio de lascar. Ficamos todos no fusca mesmo, esperando amanhecer.

 

Eles acabaram dormindo e eu fui caminhar sozinho pelas areias. Assim que começou a clarear, na ponta de areia que encontrava o mar, não acreditei no que via. Uma onda desenhada quebrava sem parar, por dezenas, talvez centenas de metros !!!!

 

Perplexo, fiquei olhando para aquela “miragem”…

 

Saí correndo e cheguei até o carro, berrando e sacudindo o Fusca, apavorando a galera… era mais um susto!

 

“Fábio, acorda, acorda, estamos em Chicama!”.

 

Ele arregalou os olhos e não entendeu nada. Peguei minha prancha e fui correndo surfar. Logo depois, Fábio estava caminhando na praia e eu voltando remando para mais um longo expresso.

 

Até hoje estou para entender que final de semana foi aquele. Um sonho, uma miragem? Depois alguns dizem que no Brasil não dá onda. Vai entender…

 

Vida longa ao surf capixaba! E às moquecas também. E que as esquerdas de Regência possam estar quebrando como as conheci, sem parar. Mais uma observação – este lugar é realmente abençoado por altas ondas e um povo muito acolhedor.

 

São vários os nomes de amigos, mas gostaria de eleger um representante à altura da galera para dar meu mais sincero abraço a todos que me lêem aqui e que foram nossos amigos na época.

 

Seu nome, Nelson Ferreira, que chamarei de o “gigante gentil”! Um dos maiores talentos que o Brasil já teve no surf e um homem de um caráter e coração singulares. Grande e forte abraço, irmão, e obrigado pela acolhida que nos deram.

 

Confira mais imagens de Regência


Boca de rio tubular

 

Inspiração tubular

 

 

 

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