Thiara Mandelli: estilo e charme sobre o longboard. Foto: Arquivo Pessoal.

Há meses aguardava a oportunidade certa para escrever este artigo. Na minha cabeça, tinha de ser uma crônica que unisse o que há de mais interessante tanto no surfe quanto na filosofia, um evento ou acontecimento que guardasse algo dos dois.

 

Não era preciso que fossem duas coisas iguais, mas que pelo menos repousassem sobre princípios semelhantes. Cheguei a desistir e parei de ler as notícias do surfe. Nada me agradava. Mas há algumas semanas aconteceu algo.

 

É, vamos ao que interessa: vamos à luta! Enfim, estava escrevendo uma carta elogiando o surf feminino a partir de uma matéria publicada no Waves Girls Only, escrita por Thiara Mandelli sobre as peripécias das meninas em cima dos pranchões.

 

Ali tive a sensação de estar diante do meu tema. E que tema era esse? Qual era o conteúdo da carta? Na verdade, era um e-mail que escrevi para a autora da matéria, que eu vou reproduzir abaixo com leves modificações e depois comentar um pouco:

 

“(…) o que havia de interessante e inacreditável naquelas duas fotos era simplesmente o surfe de volta, o surfe para além do “circo” e das “acrobacias”. Não que esse surfe não tenha sua importância e sua magia, é claro que tem e muitas vezes diverte e empolga. Uma vez estava surfando no Marrocos e um local chegou do meu lado, olhando um colega dele estraçalhando uma esquerda quase perfeita, e disse, apotando para o mar: “c?est la guerre!” (é a guerra!). Esse é ponto, o surfe tournou-se uma guerra dentro d?água. Com as inovações tecnológicas, como você sabe, o material da prancha tornou-se mais leve, some a isso o aprimoramento da técnica e a força com que o surfe é praticado, falo do aumento da potência das manobras, enfim, com tudo isso, o surfe perdeu um pouco em beleza. E, pelas fotos que vi, das meninas longboarders – não sobre as pranchinhas, nessas elas imitam os homens – eu vejo a recuperação do que um dia foi clássico no surfe. Não se trata de uma nostalgia do passado ou de conservadorismo com relação ao surfe acrobático, mas trata-se apenas de poder ver as praias mais equilibradas, com mais beleza, talvez. O longboard sempre foi o lugar reservado do clássico no surfe, mas já faz alguns anos que aquelas inovações proporcionadas pela pranchinha fizeram a cabeça de muitos longboarders. As meninas guardam o tesouro, podem incluir as inovações, mas o charme em cima do pranchão vai ser difícil de perder. Pranchão exige muita força, mas as meninas permanecem intocáveis: é como se fosse tudo levinho e simples. A Fernanda [Daichtman] e a Sabrina [Olas], porque foram as únicas fotos que vi, estão exuberantes no charme e na suavidade. O surfe é um esporte sedutor por natureza, e a mulher é pura sedução, de modo que não poderia haver casamento mais interessante para a longa vida das longborders. Viva a sedução, o charme e o pranchão nos pés das mulheres” (e-mail escrito para Thiara Mandelli em novembro de 2006).

 

Há tantos modos de entender o surfe como há para se entender filosofia. A essência do surfe não existe, a da filosofia tampouco. Há várias delas. Vários encaminhamentos. O que o pranchão feminino trouxe foi uma essência que andava um pouco esquecida, aquela do charme e da elegância do surfe em geral.

 

É claro que há muitos surfistas das pranchinhas, sobretudo alguns consagrados dos anos 90, que guardaram seu registro na história dos estilos do surfe, reforçando a elegância sobre a prancha ? como o americano Tom Curren e o brasileiro Fábio Gouveia, só para lembrar de alguns deles.

Mas esses dois e todos os outros na mesma linha foram exceção. Hoje, são relíquias do surfe. No pranchão das meninas, entretanto, seria algo tão trivial quanto impensável imaginar o surfe para além da elegância. No pranchão, os homens também podem ser elegantes, mas o charme e a sedução são, provavelmente, inatingíveis para eles.

 

Mas tudo isso para dizer que a essência do surfe é o charme e a elegância? Só isso?! Não, certamente não. É para dizer que uma das essências do surfe, um dos princípios do surfe, foi a elegância e o charme e que essa característica tornou-se rapidamente encardida e envelhecida na curta história do surfe moderno. Com isso, levantamos uma questão de primeira ordem: o que é, de fato, o surfe?

 

Aqui, perguntamos de maneira filosófica e repetimos um modo de lidar com a vida em geral, um modo pensante e reflexivo que foi introduzido na Grécia Antiga há aproximadamente 2,5 mil anos. Agora queremos saber o que é específico do surfe. Não queremos saber o que é vida, nem o que é homem, nem muito menos o que a razão é ou para que ela serve, se serve para algo. Agora, uma introdução ao surfe caminha paralelamente a uma introdução à filosofia.

 

Logo de início, é preciso dizer que o dicionário não ajuda muito para a construção da resposta sobre o que é o surfe. O verbete surfe no dicionário Antônio Houaiss, por exemplo, diz o seguinte: “prática esportiva que consiste em deslizar sobre prancha na crista de uma onda até a beira-mar ou passar por baixo ou por dentro delas”. Para um marciano desavisado seria o bastante, talvez. Para um surfista, essa definição não explica coisa alguma e seria um bom motivo para meses de gargalhadas.

 

Para um filósofo, um esteta, a primeira pergunta é: trata-se de “uma prática esportiva” ou “arte”?! Enfim, é preciso remontar ao início da crônica e ver que a questão levantada sobre o que é o surfe se transformou em uma pergunta sobre como é que se surfa. Não como alguém consegue ficar em pé em cima da prancha, mas como ele faz para conduzir a prancha depois que ficou em pé.

 

Estamos falando dos estilos do surfe, assim como havia/há estilos na arte. No entanto, a questão não é elencar os tipos de estilos. O princípio é que é o ponto central da questão: força, técnica, criatividade, elegância, charme. Esses são alguns dos princípios do surfe. E no surfe das longboarders, elegância e charme são quase tudo!

 

*Este artigo foi publicado no site Inject Brasil e gentilmente cedido para o Waves.Terra.

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