Charles: o primogênito dos Padaratz

“Longe dos olhos, mas perto do coração”. Esse é o lema dos irmãos Charles, Flávio e Percy Padaratz, velhos conhecidos dos admiradores do surfe brasileiro, que têm uma relação bastante harmoniosa.

 

Ex-surfista profissional, Charles, o mais velho, foi um dos pioneiros da família nas competições, ao lado de Flávio “Teco”. Porém, a incerteza de sucesso no concorrido mundo do surf o levou a abandonar as pranchas como instrumento de trabalho e a procurar um outro meio para se sustentar.

 

Hoje, trabalhando com exportações em uma empresa catarinense, Charles está tendo a oportunidade de conhecer diversos picos ao redor do mundo que ele nunca havia tido a chance de viajar quando vivia do surf.

 

Ele também ajuda a cuidar da carreira profissional do irmão mais novo, Neco, ao lado do empresário Pardal. Freqüentador assíduo do Fórum do site Waves, com comentários e argumentos muitas vezes polêmicos, conversamos com o “chefe” dos Padaratz para saber mais sobre a curta carreira dele no surf profissional, sobre os irmãos famosos e o que ele acha do surf brasileiro no contexto internacional. 

 

Nome: Charles Espíndola Padaratz
Idade: 33 anos
Picos prediletos: Parcel, Brava (Balneário), Balneário Camboriú e Moçambique (SC)
Surfistas favoritos: Teco, Neco, Tom Curren, Tom Carroll, Martin Potter, Mark Occhilupo e Kelly Slater.

 

 

Quando você começou a pegar onda?

Em 83, no Balneário Camboriú (SC).

 

 

Você foi o pioneiro da família Padaratz nas competições?

Não. Eu e o Teco começamos juntos, em 84, competindo no Circuito Catarinense e nos eventos da Anocas (Associação Norte Catarinense de Surf).

 

 Quais os principais títulos que você conseguiu em sua carreira como surfista?

Fui vice-campeão catarinense duas vezes na categoria Junior e uma vez vice na Open. A vitória mais alucinante da minha vida foi meu primeiro campeonato como Profissional, na praia Brava, em Guaratuba, Paraná. Na semifinal fiz uma nota 10 surfando contra o Cico Braga (um dos melhores surfistas que o Paraná já teve e que hoje infelizmente não está mais entre nós, que Deus o abençoe) e fui para final contra o Ícaro Cavalheiro. Às vezes converso com o Ícaro e lembramos daquela final, onde acabei levando a melhor. Foi demais, pois o Ícaro foi o cara com quem mais competi e somos bons amigos até hoje.

 

Como foi a onda nota 10?

Foi alucinante, lembro como se fosse ontem. O Saulo Lyra, meu grande amigo, havia perdido para mim nas quartas e ficou na praia me dando uns toques na semi. Na época não tinha esta moleza de nota anunciada no auto-falante e você tinha que confiar em alguém na praia. Ele estava acompanhando e me dizia, a cada onda que eu pegava, que a bateria estava empatada e eu precisava de uma nota maior. Eu já havia surfado umas cinco esquerdas alucinantes, o mar estava com 1,5 metros sem vento e perfeito, então resolvi mudar e peguei uma direita em direção ao canal. A onda levantou um pico e na primeira virada bati forte e rasguei com pé de trás com toda a força que eu pude. A prancha descolou a rabeta, invertendo com o bico para espuma, encostei a prancha na espuma e com o impulso dela fui projetado para frente com muita velocidade.

 

 Dei outra virada e mais uma batida de frente. Quando saí da batida, eu adiantei sem perder velocidade e larguei um cut-back batendo na espuma novamente. A prancha parecia não querer parar, pois não perdia velocidade. Quando voltei do cut, vi a junção da onda se formando e mandei mais uma batida com a força que ainda tinha. A prancha descolou a rabeta novamente e voltei, meio desequilibrado.

Pensei: “nossa que onda!”. Quando olhei, a onda abriu de novo no inside para a esquerda e fui dando mais algumas rasgadas até cravar as quilhas na areia. Olhei para frente e vi o Saulo correndo em minha direção. Perguntei: “E agora, deu?”. Ele disse: “A onda foi um high-score, mas acho que tu precisas de mais uma destas”. Mandei o meu amigão pro inferno e voltei pro fundo pensando: “Não posso fazer mais nada”. Resultado: ganhei a semi por 10 pontos de diferença do Cico Braga e disse pro Saulo: “Tu estavas viajando, hein mano?!”. Ele me respondeu que se me contasse que eu estava bem na bateria eu iria relaxar e poderia até perder.

 

Hoje posso dizer que vivi grandes momentos no Paraná, um Estado às vezes pouco valorizado no surf, mas que oferece altas ondas (Matinhos, Ilha do Mel, Guaratuba – direita atrás do Cristo e Brava), excelentes surfistas (Peterson, Maicon, Cico, André de Paula Soares, Pinga, Jamil, etc) e pessoas bastante receptivas. Eu, meus irmãos e nosso amigo Fabiano Fisher fazíamos questão de correr o Circuito Paranaense todos os anos.

Por que parou de competir?

Foi uma questão de escolha. Eu sabia que meus irmãos tinham um futuro brilhante, mas eu não tinha certeza com relação a mim. Talvez eu fosse um top no Brasil, o que na época não me transmitia uma segurança futura. Então resolvi estudar e trabalhar com outras coisas fora do surf.

 

Qual o seu trabalho atualmente?

Há 9 anos trabalho com exportação. Hoje faço a parte comercial de exportação para uma empresa aqui de Santa Catarina. Além disso, cuido dos assuntos do Neco em geral, exceto negociação de contratos, pois ele tem o Pardal, que faz um excelente trabalho.

 

Quais os picos que você já teve oportunidade de surfar ao redor do mundo?

É engraçado, pois quando eu era somente surfista não tive grandes oportunidades de viajar pelo mundo, somente pelo Brasil, onde peguei altas ondas em todo o litoral do Rio de Janeiro até o Rio Grande do Sul. Hoje, trabalhando com exportação, eu viajo muito mais pelo mundo e tenho oportunidades de surfar todo ano na Australia, África do Sul e Chile. Surfei também boas ondas na Califórnia, desde Santa Cruz (Steamer Lane) até Imperial Beach, na divisa com o México. Para o próximo ano, estou planejando uma viagem para algum lugar com altas ondas, mas ainda não decidi onde.

 

Como é sua relação com o Teco e o Neco? Vocês se dão bem?

Cara, às vezes nem parecemos irmãos. Soa estranho, mas é que temos um relacionamento tão forte e bonito que parece pai e filho. Eu sou o mais velho, teoricamente eu seria o pai. Mas às vezes o Teco toma esta postura, puxando minha orelha quando faço besteira, ou até mesmo o Neco dá bronca na gente por alguma coisa. Isto porque nos preocupamos uns com os outros. Temos um lema: “Longe dos olhos, mas perto do coração”. Afinal a vida deles é corrida e a minha também, estamos sempre viajando e para nos reunirmos é um problema. Outro dia fiquei com as filhas do Teco no fim de semana, porque ele estava viajando com a esposa. Quando ele chegou da Europa entreguei as filhas a ele no aeroporto, e disse tchau, pois eu estava indo viajar para a Austrália e África, a trabalho. Foi uma coincidência engraçada. Saí no mesmo avião em que ele chegou.

 

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O Neco teve alguma motivação extra do meio para o fim do ano de 2002, já que ele conseguiu uma seqüência impressionante de resultados no WCT?

O Neco é um cara que se supera quando está sob pressão. Ele não se abala, mas fica irado dentro d’água. Ano passado, depois de todo o problema de saúde, onde alguns profissionais da medicina chegaram a dizer que ele não poderia mais competir, ele perdeu várias etapas importantes e todo mundo começou a falar um monte de besteira do Neco sem ter conhecimento do que estava acontecendo. Isso o deixou chateado. Então o Dr. Sergio Zylbersztejn, de Porto Alegre, solucionou o problema do Neco e ele pôde voltar. Perguntei a ele se queria ir à imprensa dar uma explicação, mas ele disse não. Só me pediu para enviar os relatórios e laudos médicos para a ASP e para seus patrocinadores, informando qual era seu problema e que ele estaria voltando. “Para a imprensa vou informar dentro da água, alcançando os pontos necessários para a classificação no WCT”, ele disse. Fizemos os cálculos para elaborar uma estratégia de competições e acabou sendo melhor do que prevíamos. Ele ainda não está 100%. Após a temporada havaiana ele vai fazer alguns exames de rotina para determinar o tratamento final, para que este ano possa vir com tudo e tentar brigar pelo título mundial.

 

Qual a sua opinião sobre as críticas que o Neco recebe de que é “merrequeiro”?

O pessoal tem razão em falar, pois nem todo mundo sabe o que houve neste dois anos. Em 2000 ele tomou aquele caldo terrível no Tahiti, que o deixou realmente com o pé atrás por alguns dias naquele pico. Mas três dias depois ele teve que entrar novamente e ficou com uma tremenda dúvida. Perguntou ao Teco o que ele achava. “Se você não enfrentar e entrar agora você nunca mais vai querer voltar aqui. Esta é a hora para enfrentar o que você está sentindo”, disse Teco. Ele pensou por alguns minutos e caiu. Na primeira onda, outro caldo daqueles, mas desta vez ele não ficou preso nas pedras. Recuperado, ele quase passou a bateria, foi por muito pouco mesmo e surfou muito bem.

 

 

Em 2001 ele quebrou uma costela em Margareth River, na Austrália, antes de ir para o Tahiti, e teve de voltar às pressas ao Brasil para fazer exames e repousar, perdendo as etapas de Teahupoo e Ilhas Fiji. Este ano foi o problema na coluna ocasionado por um caldo no Hang Loose em Noronha. Foi para a Austrália, mas não suportou as dores e voltou ao Brasil. Vamos deixar o Neco responder aos seus críticos dentro d’água este ano. No Hawaii, no final do ano passado, já foi um treino, pois fez uma semi em Sunset variando de 8 a 12 pés. Quando o mar subia, ele ia treinar com uma prancha 9’2″ em Waimea para o campeonato. As pessoas perguntam porque ele e os brasileiros no WCT não vão para Jaws ou Maverick’s, mas eles estão concentrados nas competições e estes tipos de onda são diferentes e não são boas para treinar. Equipamento diferente, onda diferente, tudo muda. Você não vê nenhum top do WCT nestas ondas, então por que cobrar dos brasileiros? Acho que eles não precisam provar mais nada, pois somos os únicos representantes do terceiro mundo em um esporte extremamente caro, com o suporte de nossas próprias empresas.

 

O que está faltando para que seus irmãos cheguem ao trono do surf mundial?

Bem, o Teco já chegou duas vezes no WQS. Todos menosprezam este circuito, mas esquecem que, até completar 70% do ano, 90% dos atletas do WCT correm o WQS para garantir pontos em caso de problemas no WCT. Chegar ao topo no WCT é uma questão de tempo.

 

E os outros brazucas? Fale dos seus favoritos e o que eles necessitam…

Sou fã e amigo de todos eles. Alguns são melhores em um tipo de onda, outros em outro tipo. O Fabinho tem uma técnica fenomenal, me lembro de um episódio onde ele e o Teco estavam brincando de quem dava mais aéreos, e a vitória foi esmagadora para o Fabinho, completando 32 aéreos em uma sessão de surf. Mas, como tem poucos filmes brasileiros, ninguém vê isto. Todo mundo vê filme de gringo e acha que tudo o que eles fazem num filme de 45 minutos foi em uma seção de 45 minutos de surf. O pessoal esquece que um filme é feito em um ano ou mais onde são escolhidas as melhores imagens de milhares.

 

O Herdy é o melhor tube-rider do Brasil. O Peter (Peterson Rosa) enfrenta o lip de Sunset de frente, como se estivesse em Matinhos. É diversão para ele, e são poucos que encaram Sunset como o Peter encara. Antigamente qualquer brasileiro poderia ser campeão mundial. Tivemos alguns campeões mundiais gringos que realmente não impressionavam ninguém, mas eram regulares e chegaram lá. Hoje, com o novo sistema de somar as duas melhores notas, só quem faz a diferença pode chegar lá, pois as notas são mais altas. O cara que surfa regular tem menos chances. Na minha opinião, o Teco, o Neco, o Peter, o Herdy e o Fabinho são os que têm mais chances, pois conseguem high scores com mais facilidade que os outros. Para atingir este nível, os demais brasileiros precisam de mais apoio financeiro para viajar e surfar outros tipos de onda.

 

Por que o Neco e o Teco não se interessam muito em correr o Circuito Brasileiro?

Não é uma questão de interesse, mas de tempo. São oito meses do ano dedicados ao WCT e WQS, então sobra pouco tempo. O Peter foi o único que tentou e conseguiu esta proeza, mas foi uma loucura a vida dele naquele ano. Ele corria na Europa, pegava um avião três horas depois de perder uma bateria. Vinha ao Brasil, corria e voltava à Europa três dias depois para correr uma etapa do Mundial. Viajar é ótimo, mas neste ritmo em que o Peter fez nos anos em que foi campeão Brasileiro é loucura. Tiro o chapéu para ele, pois conseguiu. Este cara é um guerreiro e sou um grande fã dele.

 

E o que você pensa a respeito do famoso “fórum” do Waves? 

 

Sem dúvida a melhor cobertura do Circuito Mundial é do Waves e o fórum é uma maneira de todos participarem deste mundo, que às vezes é tão distante. Mas acho que deveriam pôr um filtro para as palavras de baixo nível. Sou a favor da liberdade de expressão, mas o respeito deve ser priorizado. Conheço um pouco de informática e é perfeitamente possível criar este filtro.

 

Você já surfou em diversos países. Como você analisa o tratamento dos gringos com os surfistas brasileiros?

As divergências sempre existiram e não sei quando vão acabar. Paulistas e cariocas, catarinas e gaúchos, gringos e brasileiros, havaianos e o resto do mundo. Infelizmente, o ser humano ainda não evoluiu o suficiente, mas chegaremos lá. Tem brasileiro que sai para viajar e esculhamba com tudo, arruma confusão, briga, etc. Mas é uma minoria. Os brasileiros que têm uma boa atitude não têm problema com ninguém no mundo, pois somos um povo alegre, de fácil relacionamento, e os gringos gostam disso. Respeito tem que ser conquistado, e não imposto. O Teco é um dos representantes dos atletas junto a ASP há muitos anos porque é um dos caras mais respeitados no Circuito. Ele conquistou isso durante seus 14 anos como profissional, e não botando a galera para fora da água na Mole, Joaca ou Camboriú.

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.