Cemitério de embalagens industriais na BA

#O fotógrafo baiano Fabiano Prado esteve no Brasil durante o Carnaval deste ano e refez o trajeto de 68 quilômetros no trecho entre a praia do Forte e a vila praiana de Baixio, na Costa dos Coqueiros, litoral norte da Bahia.

Prado, que mora na Alemanha, tornou seu trabalho conhecido no ano passado, quando constatou ser o litoral norte baiano um depósito a céu aberto de lixo jogado por navios estrangeiros.

Desta vez, ele recolheu cerca de 730 embalagens de 47 diferentes Países e confirmou sua reportagem anterior, sem que fosse tomada alguma medida efetiva por parte das autoridades, no sentido de transformar a Costa dos Coqueiros em um sinistro cemitério de embalagens industriais.

Em março do ano passado, foram recolhidas 94 embalagens de 26 países diferentes em 31 quilômetros do mesmo litoral.

Segundo o fotógrafo, o aumento dos cruzeiros turísticos no litoral brasileiro durante o verão, em função do ataque terrorista de 11 de setembro nos Estados Unidos, pode ter contribuído para a maior ocorrência de lixo global nas praias.

“Encontrei uma garrafa plástica de água mineral com uma carta. Na carta continha o nome da embarcação, a data em que foi jogada no mar, as coordenadas geográficas e o nome e endereço do navegador (um italiano). A coordenada é próxima à Ilha Santa Helena, localizada a cerca de 3,2 mil quilômetros da Costa dos Coqueiros”, afirma Prado.

#Quando Amyr Klink fez sua travessia a remo entre África e Brasil, ele passou próximo à Ilha Santa Helena e chegou em um ponto na Costa dos Coqueiros, próximo ao local onde Fabiano encontrou a garrafa, o que supõe terem Klink e a garrafa percorrido a mesma rota.

Garrafas plásticas de água mineral, de maior flutuabilidade, podem estar chegando de países distantes, não sendo somente atiradas por pessoas em navios que passam próximos à costa.

Foram encontradas embalagens em evoluído estado de desgaste. Algumas latas totalmente enferrujadas e plásticos completamentes ressecados se desfazem ao ser tocados. Um pote plástico de geléia de frutas vermelhas, fabricado nos EUA, ainda armazenava restos do produto em perfeito estado de consumo. A geléia chegara à praia naquele instante.

Muitas embalagens sem rótulo não foram recolhidas, bem como produtos fabricados no Brasil, levados por correntes marítimas em direção à praia, sobressaindo embalagens de óleo para motor a diesel, da BR Petrobras, água mineral e margarina de diversas marcas.

Para facilitar a identificação das embalagens foi utilizado a tabela da EAN.UCC, que identifica a origem da fabricação pelos três primeiros dígitos (prefixo) do código de barras. A sigla EAN significa European Article Numbering Association, algo como Associação Européia de Artigos Numerados. Já UCC quer dizer Uniform Code Council (Conselho de Códigos Uniformes), entidade americana que administra o sistema UPC – Código Universal de Produtos.

#A quantidade de sinalizadores encontrada foi relativamente pequena em relação ao ano passado. O que surpreendeu foi a quantidade de embalagens de água mineral fabricadas em Taiwan.

Também foram encontradas muitas lâmpadas fluorescentes e incandescentes, principalmente no trecho Subaúma-Baixio. Algumas lâmpadas foram fabricadas na Indonésia.

A menos de um quilômetro (sentido norte) do complexo turístico Costa do Sauípe, foi localizado um tonel totalmente enferrujado. Na etiqueta de identificação do produto estava escrito “Castrol Marine”.

?Se tudo que chega aqui estivesse cheio, bom para uso, eu poderia até abrir um mercado?, disse um pescador nativo da vila de Massarandupió. ?Já me acostumei com as bundas de fora aqui na praia, mas com este lixo não?, conta ele, em depoimento ao fotógrafo.

O interessante é que os naturistas chegaram depois do lixo. Há relatos de pescadores, surfistas e mergulhadores que informam ter sido no início da década de 80 a chegada do lixo às praias da Costa dos Coqueiros.

#O tempo que leva para soterrar o lixo depende do movimento da praia, sendo determinado por um conjunto de fatores, como tipo de areia, vegetação nativa, inclinação, ventos e chuva.

Outro fator determinante neste processo é o tamanho, peso, formato e posicionamento na praia.

É difícil calcular quantas embalagens encontram-se soterradas nas areais das exóticas, encantadoras e deslumbrantes praias da Costa dos Coqueiros e quantos séculos serão necessários para a natureza recuperar-se desta agressão.

“Paralelamente à divulgação do fato nas exposições das fotografias e publicações na mídia, criei uma ação efetiva de combate. Foi desenvolvido um logotipo de sinalização de combate à poluição marinha. Também foi criado um cartaz em diversos idiomas com fotos, um pequeno texto e um site (www.ibahia.com/lixoglobal)”, explica o fotógrafo.

O site está disponível em português e, a partir de junho, também terá versões em alemão e inglês. Para visita-lo, clique aqui.

#Serão impressos 50 mil adesivos e 10 mil cartazes para distribuição mundial em portos, cruzeiros de turismo, empresas de transporte marítimo, navios cargueiros e de marinha, embarcações particulares, marinas e iates clubes.

Haverá dois modelos de cartazes: em inglês para Europa Ocidental, África do Sul, Oceânia, América do Sul, América Central e América do Norte; em português, alemão, espanhol, francês, italiano e grego.

Outro cartaz será destinado para países da Europa Oriental, norte da África e Ásia nos idiomas inglês, russo, chinês, japonês, árabe, coreano e turco.

A tradução para os idiomas foi feita por intérpretes da Associação Internacional dos Intérpretes de Conferência.

No ano passado, Prado foi destaque por seu importante trabalho. Sua reportagem foi inclusive pauta do Jornal Nacional, da Rede Globo. Por conta de sua denúncia, Prado realizou na Alemanha a exposição fotográfica “Praia Local, Lixo Global”.

O texto dos cartazes é o seguinte:
Praia Local, Lixo Global
Não jogue lixo no mar. Além de poluir, o lixo causa a morte de animais marinhos.
E a responsabilidade é sua.

Tempo de decomposição de materiais jogados no mar

Papel – de 3 a 6 meses
Pano – de 6 meses a 1 ano
Filtro do cigarro – 5 anos
Madeira pintada – 13 anos
Nylon – mais de 30 anos
Plástico – mais de 100 anos
Metal – mais de 100 anos
Vidro – 1 milhão de anos
Borracha – tempo indeterminado

Atualmente Prado negocia na Alemanha financiamento para monitorar a chegada do lixo, bem como para continuar sua pesquisa e imprimir cartazes e adesivos.

Para saber mais sobre o lixo global, leia as matérias publicadas no Waves: Praia local, lixo global tem exposição na Alemanha e Lixo mundial desemboca no litoral brasileiro.

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