Falsidade Ideológica

Casco salvador

Em meados de 98, eu estava surfando na Marambaia. Pra quem não conhece, essa praia  fica ao lado de Guaratiba e pertence ao exército brasileiro. Naquela época, era permitido surfar ali com autorização de morador.

 

Hoje, nem morador surfa por lá.

 

Foi nessa praia que eu aprendi a surfar e ali tem todos os tipos de ondas: cheia, buraco, longa, curta, enfim, dá para se divertir bastante.

 

Mas, Marambaia tem um fator negativo, muito cação, dos grandes, e vira e mexe tem uns tubarões por perto para assustar a galera…

 

Lembro muito bem daquele dia, em fevereiro de 98. Tinhas altas e peguei muita onda boa… até que vi três tubarões muito grandes!

 

Fiquei apavorado, não sabia o que fazer e nem tinha como fazer nada. O mais baixinho veio partindo pra cima de mim e puxou o meu estrepe. A única solução foi nadar, e foi o que fiz…

 

Comecei a nadar e o tubarão maior começou a correr atrás de mim. Poucos segundos depois, ele estava ao meu lado, mas como nado muito bem, passei à frente dele de novo.

 

Aí, comecei a cansar. Mas ele foi covarde, muito covarde … usou de deslealdade, dando um tranco, típica jogada de jogadores de futebol quando disputam a bola, e sai rolando pela água.

 

Meio tonto, sem saber o que fazer, eles começaram a me cercar. Então, gritei: ‘Vou morrer! Vou morrer!’.

 

Dizem que quando uma pessoa está para morrer passa um filme todo da vida dela. No meu caso não foi diferente e , quando o meu filme já estava chegando aos 25, eis que surge a minha salvação: uma tartaruga enorme!

 

Ela passa a poucos metros de onde os tubarões estavam e chamou a atenção deles. Aí, em vez de me atacarem, atacaram a tartaruga e mataram  o bicho sem perdão. Ela foi devorada e, para minha sorte, só sobrou o casco.

 

Assim, não tive alternativa. Pulei pro casco e saí remando pra areia, sendo salvo por um casco de tartaruga!

 

Mas, não pensem que foi fácil. Levei muito tempo para chegar até areia e um dos tubarões começou a cutucar o casco com o focinho, fazendo terror psicológico.

 

Aí, comecei a gritar pro bicho: ‘Quer me matar? Vem logo!’.

 

Cheguei a dar uns cascudos no bicho, mas nada de chegar até areia, e nada de vir uma marola pra me levar até a areia. Tava que nem aqueles caras que ficam esperando a onda pra virar a bateria, e nada de vir onda…
 
Mas, a sorte sorriu pra mim. Veio uma onda e acho que fui o primeiro a surfar usando casco de tartaruga. Pra variar, o “tuba” pegou a onda comigo. Só que ele se deu mal, ficou encalhado na areia e eu cheguei à areia são e salvo.

 

Quando olhei para água, vi uma cena que nunca vou esquecer: o bicho encalhado na areia. Aí, ele me olha, com um olhar de vingança, e olhei de volta, todo assustado com que aconteceu.

 

Lembram daquele filme da baleia orca, de quando o orca já dentro do barco olha pro pescador com uma cara de ódio? Pois é, comigo foi a mesma coisa.

De recordação, guardei o casco da tartaruga em casa. E tem mais: o lance foi tão comentado que dei entrevista até pro RJTV, tirei fotos e tudo mais… Boas ondas pra todos, e cuidado.

 

 

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