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Casca, o travesso

 

Roberto Casquinha em mais uma das suas elegantes manobras. Foto: Bruno Alves.

Há tempos me preparei para este texto. Sabia que a hora estava chegando. Mas quando chegou, não consegui evitar aquele sentimento de choque, surpresa e porque não, dor. Perder alguém que por tantos anos fez parte do seu rol de convivência é algo surreal. Ontem você o encontrou na calçada, a partir de hoje nunca mais o verá. A vida é cheia de truques, alguns andam devagar para não pegar os desvios errados, outros preferem acelerar e passar pelos buracos sem olhar para trás, às vezes nem apreciando a paisagem da forma que deveriam.

 

Roberto “Casquinha” sempre foi um predestinado. O que se propunha a fazer, fazia. Começou no surf,  foi para o futebol, voltou para o surf. No mar, sua liberdade era latente. Nos gramados, a trairagem da bola e as regras não combinavam com seu espírito rebelde. Nas ondas, expressava sua energia brilhante, que destoava dos demais.

 

Casquinha gostava de ser o centro das atenções e, quando não queria ser, acabava sendo. Dono de uma luz própria fabulosa, foi protagonista das mais engraçadas histórias do surf romântico, nos anos 80 e início dos anos 90, quando ser um profissional careta não constava no dicionário do meio. Aterrorizou o religioso Jojó, zoou o inzoável Picuruta, aproveitou como nunca sua juventude rindo e causando muitas risadas. Bem chegado onde fosse, surfou os sete mares, rabeando, sendo rabeado, curtindo a vida adoidado.

 

Casca foi de uma geração autêntica do surf, que construiu a ponte entre a base dos anos 70 e a nova era do século XXI. Com sua gana de vencer, superou favoritos e mostrou que apesar de seu jeito debochado e por muitas vezes atrevido, na hora em que o bicho pegava, ele não esmorecia. Fez uma carreira amadora brilhante e teve sua maior glória ao vencer no quintal de sua casa o evento mais importante do surf brasileiro na época, o OP Pro, num memorável Quebra-Mar, assistido por todos os seus amigos e conhecidos na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

 

Mesmo passando por anos difíceis, nunca largou o sorriso marcante que fica como seu registro neste mundo que vivemos. Casquinha deixou algumas lições para todos nós. A de que não somos invencíveis. A de que as nossas escolhas trazem sempre consequências na frente, porém mais do que tudo, de que não são pequenos eclipses que farão uma luz se apagar.

 

Meu camarada “Double”, parceiro de anos de viagens, num tempo saudoso, inesquecível, de quem sempre pensei diferente, de quem condenei e aplaudi, que me respeitou e ganhou meu respeito, está em paz. Só não acredito que esteja descansando porque, onde quer que esteja, acho improvável que o Menino Travesso do surf brasileiro esteja parado.

 

Tanta energia continuará seguindo seu curso, seja guiando os mais próximos ou apenas se divertindo no ar. Ao Neyzinho, seu grande irmão e ídolo, e familiares, os sentimentos de pêsames de toda a comunidade das ondas, que perdeu o expoente máximo de sua travessura.

 

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