Desde o começo da humanidade sempre houve mulheres guerreiras. Seja defendendo as cavernas no Paleolítico, seja passando por uma das lendas mais persistentes da história, a das amazonas, existente em todos os continentes (com exceção da Oceania) e iniciado há seis mil anos, quando supostamente acasalavam com os incautos marinheiros que aportavam em suas ilhas, mantendo os bebês meninas e matando os do sexo masculino.Em toda essa trajetória, o fato é que as mulheres enfrentaram os preconceitos do universo masculino dominante por milênios, nas mais diversas culturas.
Mais recentemente, ao mesmo tempo em que as discriminava, a sociedade as protegia, muitas vezes através de um paternalismo
pernicioso e sutilmente discriminatório. O congresso norte-americano relutou durante décadas até permitir que mulheres pudessem entrar em combate. A sociedade, diziam, não estava preparada para presenciar suas filhas feridas gravemente ou trazidas de volta nos “sacos dos mortos”.
Essa atitude as protegia da morte ou simplesmente contribuía, entre tantas outras menos contundentes, a mantê-las sob controle, submissas? As amazonas eram respeitadas porque portavam armas e as fabricavam. O rei de Tróia, Príamo, chegou a combatê-las, e as considerava “antineirai”, o que significa “equivalente aos homens”. Talvez o primeiro reconhecimento oficial da igualdade entre os sexos na história da civilização.
Curiosamente, a mastectomatização voluntária das amazonas durante a puberdade, cortando ou queimando o próprio seio direito, se configurava como um ato de poder, já que visava o melhor empunho da bainha de flechas e do manejo da lança, enquanto hoje, a retirada compulsória dos seios é feita predominantemente em mulheres fragilizadas pelo câncer, um outro tipo de luta, mais moderna e silenciosa.
Em 1542, o espanhol Fernando de Orellana teria batizado o nosso rio Amazonas (inicialmente chamado por Vicente Pinzón, em 1500, de “Mar-Dulce” ), depois de um enfrentamento com uma leva de poderosas guerreiras da selva, comentando que “fazem guerra como dez índios”.
O mundo mudou. Nas sociedades modernas elas têm acesso aos instrumentos de poder, seja à educação, ao discurso, à política, ao trabalho, às armas, aos meios de produção e, no nosso caso específico, à prancha. Na confluência entre o Mar-Dulce e as mulheres guerreiras, a onipresente licença poética me permite introduzir a mulher surfista.
Aumenta o número de mulheres nos campos de batalha dos line-ups pelo mundo, florindo as séries e causando sentimentos contraditórios de acolhimento e repúdio – mais uma batalha a ser vencida pelas guerreiras das ondas. Cavalgam com graça e poder pelas cristas e ameias de sal, mas já não são ou se sentem estranhas nesses domínios.
Maya Gabeira é o exemplo mais forte dessa tendência no Brasil, e no mundo, considerando que já conquistou não só o respeito de todos os homens entre e durante as séries, mas também, e por algumas vezes, o prêmio da maior onda do planeta surfada por uma mulher – e pela imensa maioria dos homens.
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Camila Jung se alistou nesse exército feminino relativamente jovem, em Caraguatatuba, São Paulo. Aos 16 começou com prancha, e aos 19 migrou para o bodyboard. A moderna amazona dos mares tem uma visão muito mais delicada do mundo e dos homens do que suas antecessoras guerreiras: Camila tem desejos de simplesmente ajudar ao próximo, estar junto da natureza, amar e surfar; mas, como os desbravadores, tem também o apetite das descobertas.
Já tinha circulado com seu arsenal de flechas-pranchas pela Nova Zelândia, Austrália e Indonésia quando resolveu ampliar os horizontes ainda mais, aceitando o convite do namorado havaiano para conhecer as ilhas Mentawaii. Saindo de Bali, e depois de dois aviões, um dia em Padang, doze horas de travessia de barco e muitas picos surfados, chegou ao tão sonhado destino: Lance´s Rights, uma das mais cascudas e rasas bancadas do arquipélago. Era um sonho realizado.
Caiu na água com vontade.
Ficou boiando um bom tempo, dado à intensidade do crowd. O machismo de um australiano fominha, que, segundo ela, havia surfado mais de dez ondas e não aliviava nenhuma, deixou a nossa personagem num estado ainda maior de ansiedade para surfar o pico tão almejado – condição emocional inapropriada para a prática do surf e de qualquer outra atividade arriscada.
O tal australiano poderia alegar que as sereias brasileiras enfeitiçam as ondas do mundo, mas não é esse um direito intrínseco e inalienável das sereias-guerreiras? A realidade é que esse estado de espírito descentrado pode sim ter afetado o julgamento de Camila na escolha da onda que surgiu. Freud explica.
Com pressa e na pilha de não perder a rara oportunidade, botou para baixo com seu bodyboard já meio no limite da remada. Dropou e, quase que instintivamente, colocou para dentro do tubão. No ato foi engolida e jogada, num piscar de cílios, contra a famigerada bancada macabramente denominada “Surgeon´s Table” (mesa do cirurgião).
Não sentiu nenhuma dor, somente o movimento brusco do “quicar” no coral. Ao emergir viu o sangue misturado com um liquido branco que saía da parte posterior da coxa esquerda. Remou para o barco pensando em tudo, desde a sorte de não ter sido a cabeça ou o rosto impactados, até a antecipação da dor do suco de limão que deveria – mas não foi; substituído por uma pomada – cauterizar os microorganismos vivos e altamente infecciosos que vivem nos corais.
Quando Camila me disse que “surfar é como nascer de novo”, não se referia a um acidente como esse, mas à experiência, à decisão, à humildade necessária para cair e levantar: “como um bebê que aprende a andar”. Na verdade, surfar é nascer de novo sempre.
Um mês fora da água, à base da planta cicatrizante Aloe Vera (Babosa), transformou o cânion de aproximadamente doze centímetros de comprimento, por três de largura e outros tantos de profundidade em sua coxa, numa charmosa cicatriz.
A formação de uma discreta quelóide incomodaria a vaidade de qualquer mulher, tanto quando a coceira, ainda constante, mesmo depois de meses de cicatrização já completa, mas Camila diz que “talvez faça uma plástica”. Se me permite uma opinião, Camila, eu deixaria essa marca exatamente como está, como uma “lembrança de combate”, da atitude emblemática, entre intempestiva, corajosa e apaixonada, de uma guerreira do século XXI.
Sidão Tenucci é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e pós-graduado em letras. É surfista há 42 anos. Viajou 50 países na caça por ondas e pelas diversas visões de mundo. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e da narrativa de aventuras de viagens O Surfista Peregrino.