Era mais uma quarta-feira, quando acordei exausto depois de mais uma semana de trabalho duro.
Mesmo “quebrado” fisicamente, acordei às 7:25 horas do dia 23 de abril, sedento para curtir o meu único dia de folga (day off) da semana.
Olhei o mar em frente de casa em Palm Beach; estava muito grande e sem condições de surfe. Lembrei que de minha casa para Burleigh Heads são apenas 12 minutos de bike ou 25 caminhando.
O swell tava aproximadamente com uns 4 a 6 pés sólidos, muito bem alinhados. Já faziam três dias que o swell “pipocava” em todas as bancadas espalhadas pela Gold Coast e cidades próximas, como Lennox Heads e Byron Bay.
Havia altas ondas quebrando em todos os picos, especialmente nos point breaks, onde as condições estavam clássicas.
Trabalho em um dos grandes surf clubes espalhados pela cidade e isso me impediu de surfar nos dias anteriores. Então, como ainda não tinha surfado esse swell, tinha que ser nesse dia.
Como não tenho carro, fico esperando a camaradagem dos amigos que possuem automóvel para me levar aos locais certos com as condições certas quebrando. Nesse dia não esperei por nada, nem ninguém.
Enquanto saboreava meu cereal matinal, fiquei matutando sobre qual equipamento usaria nessa bateria. Decidi pela minha prancha pequena, uma 6″2 shapeada por Sam Egan, sem wetsuit – apenas bermuda e colete.
Optei por pegar o ônibus. Cheguei às 8:20 em Burleigh Heads e vi as ondas perfeitamente quebrando bem alinhadas na bancada, uma atrás da outra.
Rapidamente, deixei as minhas coisas no alto de uma árvore em frente à praia e fui surfar. Burleigh Heads é um lugar mágico de se viver, mas dentro do mar os surfistas locais impõem suas regras.
Apenas respeite essas regras e poderá dropar e aproveitar as suas ondas. A onda de Burleigh é assim: clássica,bcultuada e crowdeada! Antigamente podíamos ver algumas palavras “carinhosamente” escritas no caminho para adentrar no mar, com os dizeres “Go home Brazil!”.
A onda é um point break que quebra em uma bancada que mistura pedras e areia, transformando-a em uma direita longa e tubular. Uma pista de corrida que é tão prazerosa quanto difícil de surfar. O crowd é eterno. A correnteza muitas vezes é infernal, não te dando trégua e dificultando o posicionamento no pico.
A adrenalina começa antes de entrar na água, com a entrada pelas rochas, devido às pedras serem arredondadas, lisas e com crustáceos que colonizam a área. O início da sua bateria pode ser o final também, com algum corte sério no pé ou prancha quebrada logo no começo, mas isso vai depender da sua habilidade.
Não dá pra varar a arrebentação de frente, então o caminho é o das pedras. Você tem que seguir o caminho correto entre as pedras, ou será motivo de risos para quem estiver olhado de fora ou atrás de você, na fila da entrada no mar. Os tombos são fáceis de se ver.
Quem assisitiu ao filme “Free as a Dog”, com Joel Parkinson, sabe bem do que estou falando. Antes de ele quebrar as ondas de Burleigh, Parko se dá mal em duas tentativas frustradas de entrar no mar, pulando das pedras de Burleigh Point.
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8h30 ? Depois de caminhar até o mirante do morro de Burleigh, vi o mar realmente incrivelmente perfeito. Desci o morro pra chegar logo ao que me interessava.
Adrenalina estava correndo nas veias, cheguei logo nas pedras e sem muita análise pulei logo no mar, resultando em mais um pequeno corte no pé. Nada grave.
O surfe tava clássico. Vi logo uns caras entubando na minha frente. Estava sem correnteza, clean, liso e não havia vento algum. Esse tipo de condição é um sonho pra qualquer surfista, particularmente pra mim, que sou do Nordeste do Brasil.
As ondas estavam variando de 1 a 1,5 metros e tinha muita onda boa pra todo mundo. Achei logo alguns amigos na eterna remada em direção ao inicio da onda.
Como a onda é de point break, você nunca vai parar de remar se quiser pegar a onda no melhor momento dela.
Com cinco minutos peguei logo a primeira onda, só pra esquentar. A onda abriu perfeita, me pedindo pra entubar. Tentei e fiquei apenas na tentativa, levei uma lipada nas costas. Ainda estava meio desconcentrado.
Voltei ao outside depois de um remada básica e já me sentia cansado, resultado de uma semana de trabalho pesado como dish washer (lavando pratos).
Estava um dia clássico. Os locais do pico, como de costume, estavam monopolizando as ondas e rabeando todo mundo, inclusive eles mesmos.
Vi logo meu grande amigo Gabriel “Chapolin” Celuque vindo numa onda da série. Ele ficou de pé na boca de um tubão, surfou bem e fez a onda toda. Nesse momento, percebi que o mar estava realmente clássico.
O sol estava rachando. Depois de meia-hora buscando uma boa onda e o posicionamento correto, veio a minha onda. Foi puro instinto. Dropei esticado pra completar o drop e a onda armou lá na frente.
Consegui ler a onda calmamente e cavei com estilo em direção ao bowl da onda. Parecia que sabia tudo o que estava fazendo.
Fui tranquilamente em direção ao lip e consegui me encaixar perfeitamente no trilho do tubo. Arregalei o olho e o lip já estava jogando por cima da minha cabeça. Encaixado no trilho, pude ver a onda por dentro.
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Estava escutando o barulho daquela massa de água se movendo ao meu redor. Pude percorrê-la durante algum tempo, não sei por quantos segundos, talvez um, dois ou três segundos… não sei, mas foi incrível.
A onda era poderosa, mas em nenhum momento ela me tocou. Esse foi um momento mágico pra mim. Eu realmente estava me movendo perfeitamente junto com a onda. Fiquei vendo o lip em minha frente, estávamos se movendo na mesma velocidade.
Era o lugar certo, na hora certa. Meus braços estavam posicionados na direção da porta de saída. Inconscientemente, mandei um sonoro “uhhuuuuu!”.
Fiz o tubo, mas na saída perdi a base da prancha e saí capotando na superfície da água, mas já era no final da onda.
Pensei comigo “I did it!”. Afundei com um sorriso estampado nos dentes. Endorfinado, emergi na superfície com todos os dentes à mostra. A felicidade estampada no meu rosto, ou melhor, nos dentes.
Fui remando revigorado para o outside, procurando meu amigo pra contar o fato! Ele comemorou comigo sem incomodar os locais que estavam ao redor.
Foi, sem dúvida, o melhor tubo que peguei na vida. Continuei a surfar, peguei outras boas ondas, mas aquela foi o auge daquele dia pra mim.
Saí do mar quase meio-dia. Depois de três horas e meia de surfe, eu estava exausto, mas de cabeça feita.
Voltei pra casa satisfeito e com aquele cansaço prazeroso espalhado pelo corpo. Pena que não não havia ninguém em casa pra relatar a sessão de surfe.
Deitei no sofá, liguei meu MP3 no volume máximo e escutei algumas sábias palavras em forma de canção: “You satisfy my soul, satisfy my soul. Every little action, satisfy my soul, there’s a reaction, satisfy my soul. Oh, can’t you see what you’ve done for me, oh, yeah! I am happy inside all, all of the time” (Bob Marley).
Esse não foi o primeiro e não será o último incrível dia de surfe aqui na Austrália. Quanto mais tempo passo aqui, tendo bons momentos como esse, é que percebo como é difícil deixar a Austrália e voltar ao Brasil.
São momentos incríveis como esses que fazem da Austrália um lugar sensacional pra se morar. Quanto mais o tempo passa, fica mais difícil você voltar pra casa.
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